Crônicas

Matula

sábado, 22 de maio de 2004 Texto de

Vi­ajo re­gu­lar­mente a tra­ba­lho. Pe­las ro­do­vias, as fi­gu­ras de ho­mens que an­dam sem rumo colam-se à pai­sa­gem. Às ve­zes, surge tam­bém a si­lhu­eta fe­mi­nina. Sob far­ra­pos, lá vão eles, de barba cres­cida, pés quase sem­pre des­cal­ços, sa­cos nas cos­tas. Para onde vão? A di­re­ção não im­porta. Só lhes resta isto: se­guir em frente (vi­ram como “se­guir em frente” nem sem­pre sig­ni­fica algo bom?). 

Num pas­sado re­cente, as mães cos­tu­ma­vam bo­tar or­dem na al­ga­zarra da mo­le­cada com ame­a­ças que tra­ziam como pro­ta­go­nista o ve­lho e mau “ho­mem do saco”. Quem já não ou­viu essa ex­pres­são? No meu tempo de cri­ança, na fa­zenda, mi­nha mãe e mi­nhas tias nos bo­ta­vam medo, a mim e aos ou­tros, por conta do “ma­tu­leiro” – nem sei se o termo existe na lín­gua por­tu­guesa, mas sua ori­gem es­ta­ria na pa­la­vra “ma­tula” (far­nel).

Fi­cá­va­mos es­pe­rando, en­tre cu­ri­o­sos e ame­dron­ta­dos, o tal ma­tu­leiro, que na re­a­li­dade se­ria um an­da­ri­lho de es­tra­das, mas ele ra­ra­mente apa­re­cia. Hoje, no auge da ex­clu­são so­cial, as mães pre­ci­sam in­ven­tar ou­tros ad­je­ti­vos para pôr fim à fo­lia de seus pes­ti­nhas. Os ma­tu­lei­ros es­tão aí para quem qui­ser ver, em nú­mero cada vez maior. E agora, di­fe­ren­te­mente de ou­tras épo­cas, tal­vez se­jam eles os as­sus­ta­dos. As­sus­ta­dos com a mi­sé­ria. As­sus­ta­dos com nosso des­caso.

Compartilhe