Contos

Atrás da parede

terça-feira, 27 de abril de 2004 Texto de

O olhar de de­sa­pro­va­ção da mãe aus­tera fuzilou-o por um ins­tante, re­pe­lindo seu ím­peto de lançar-se so­bre o sofá para al­can­çar a vi­draça, de onde fi­nal­mente di­vi­sa­ria a rua lá fora. Re­sig­nado, voltou-se ao ma­nu­seio do vi­de­o­game, aban­do­nando, ao me­nos por um tempo, a idéia que o per­se­guia e pre­en­chia todo o seu ser de um ex­tem­po­râ­neo pra­zer.

Há pouco, al­guém fric­ci­o­nara, en­quanto ca­mi­nhava di­ante da casa, um tipo de me­tal con­tra os fer­ros da grade alta, cheia de ex­tre­mi­da­des pon­ti­a­gu­das, que se­pa­rava a va­randa de piso co­lo­rido da cal­çada de la­dri­lhos ju­di­a­dos. O ruído é que o ha­via des­per­tado. Mo­rava num bairro de ra­zoá­vel es­tru­tura, em­bora ape­nas pe­ri­fé­rico. Os car­ros pas­sa­vam com certa freqüên­cia, mas ro­da­vam len­tos, atra­ves­sando os pa­ra­le­le­pí­pe­dos ir­re­gu­la­res e dei­xando atrás de si um ruído surdo e o cheiro de com­bus­tí­vel. Os cães vira-latas tam­bém exer­ciam seu sa­grado di­reito de ir e vir, identificando-se in­va­ri­a­vel­mente com la­ti­dos pre­gui­ço­sos e, quase sem­pre, sem muito sen­tido. Cinco mi­nu­tos cor­re­ram desde a ten­ta­tiva frus­trada, e a mãe, en­tão, vol­tou para espiá-lo. Ele con­ti­nu­ava lá. A mu­lher certificara-se de que es­tava tudo em or­dem.

Algo, en­tre­tanto, incomodava-o. Tratava-se, en­fim, de uma es­tra­nha sau­dade. Es­tra­nha por­que ja­mais po­de­ria explicá-la se o cha­mas­sem a essa ta­refa. Como se pode ter sau­dade do que nunca se vi­veu? Eis que, de al­guma forma, a per­gunta que lhe sur­giu à mente, tal­vez por um es­forço si­len­ci­oso do sub­cons­ci­ente, resgatou-o da ta­ci­tur­ni­dade. Sen­tado so­bre o ta­pete de fel­pas com­ba­li­das, jo­gou de lado o controle-remoto, des­can­sou o pes­coço so­bre o es­to­fado e pôs-se a ima­gi­nar. Ima­gi­nou o som das bi­ci­cle­tas ran­gendo suas cor­ren­tes, pas­sos lé­pi­dos de mo­le­ques cor­rendo atrás da bola de couro, um pa­la­vrão de cri­ança si­bi­lando en­tre os mu­ros, as ro­das dos ska­tes chocando-se ás­pe­ras con­tra o ci­mento, o ru­mor de pais cau­te­lo­sos re­pri­mindo ex­ces­sos pu­e­ris. Ab­sorto em seus agra­dá­veis de­va­neios, não se aper­ce­beu da fu­gaz pre­sença ma­terna: mais uma es­pi­ada na se­gu­rança do fi­lho, de novo sa­tis­feita por cons­ta­tar que tudo ia muito bem. 

Sem he­si­tar, ou­sou um pouco mais no uni­verso da­que­les so­nhos go­za­dos. Enfiou-se a jo­gar bola, ro­do­piou duas ou três ve­zes com a bi­ci­cleta, divertiu-se ou­vindo os ber­ros da mãe con­tra­ri­ada com a al­ga­zarra da rua, ra­lou o co­to­velo ao des­pen­car do skate. Nisso, re­tor­nando à cons­ci­ên­cia, deu-se conta de que se caísse de ver­dade, ga­nha­ria o pri­meiro cu­ra­tivo de sua pele vir­gem, o pri­meiro san­gue li­ber­tado de sua apá­tica so­li­dão. Abra­çou a si mesmo, son­dando com as mãos os co­to­ve­los, en­quanto um in­con­tro­lá­vel de­sejo varava-lhe as en­tra­nhas, acelerando-lhe bru­tal­mente as ba­ti­das do co­ra­ção e instigando-o a aten­der à sua pre­ci­são vo­raz. De­ci­dido, ergueu-se e, in­di­fe­rente às ame­a­ças da mãe cui­da­dosa, afun­dou os pés des­cal­ços no sofá, agarrou-se ao gra­dil da ja­nela en­tre­a­berta e, entregando-se a uma in­tensa fe­li­ci­dade, enamorou-se do dia ra­di­ante lá fora e da brisa morna da­quele co­meço de ve­rão. Pôde mesmo ima­gi­nar o largo ho­ri­zonte que se es­conde atrás de cada pa­rede dis­posta à nossa frente. Ma­tou as­sim sua es­tra­nha sau­dade e, em­bora a rua es­ti­vesse va­zia – sem cri­an­ças, sem bola ou bi­ci­cle­tas -, seu peito encheu-se de um ar novo.

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