Crônicas

Influências

terça-feira, 20 de abril de 2004 Texto de

Agora há pouco na rua, vol­tando do al­moço, com a Fer e a Ana Clara, saí-me com esta: – “puxa, mas que sá­bado so­rum­bá­tico!” Um pouco an­tes, eu ha­via pas­sado no posto de com­bus­tí­vel, e o fren­tista: – “o dia está es­tra­nho…” Hoje, as nu­vens entrincheiram-se no fir­ma­mento como se fos­sem defender-se numa guerra, um céu cinza e tris­to­nho re­co­bre nossa re­gião. É cu­ri­oso como a re­doma na­tu­ral que nos en­volve pro­voca in­fluên­cias no ser hu­mano.

Pes­qui­sas ci­en­tí­fi­cas con­cluem que em paí­ses nór­di­cos ou em áreas mais cin­zen­tas e frias do pla­neta eleva-se, por exem­plo, o ín­dice de sui­cí­dios. Tam­bém são mais co­muns as ter­rí­veis de­pres­sões que afe­tam, ine­fa­vel­mente, suas ví­ti­mas. Noto ou­tra cu­ri­o­si­dade: quando eu disse “sá­bado so­rum­bá­tico”, fran­ca­mente eu não quis incluir-me na tí­pica so­tur­ni­dade que um dia as­sim exala para, tal­vez, a mai­o­ria de nós. Não, eu não quis. 

Eu, na ver­dade, disse isso quase num tom de re­go­zijo. Não me es­tra­nhe, por fa­vor, mas devo sa­li­en­tar que acho es­ti­mu­lante vi­ver dias cin­zen­tos em meio à es­ca­lada de es­ta­ções bri­lhan­tes de um país tro­pi­cal como o nosso. 

Tal­vez eu não su­por­tasse es­ses dias para sem­pre, mas uma vez ou outra…bem, vou con­fes­sar, eu gos­ta­ria que hou­vesse um equi­lí­brio maior, vá lá: me­tade sol, me­tade nu­vens – nu­vens cin­zen­tas, nu­vens car­re­ga­das, nu­vens en­trin­chei­ra­das no fir­ma­mento como se fos­sem defender-se numa guerra, as nu­vens con­tra a lu­mi­no­si­dade do sol. Uns dias ven­cem elas, ou­tros dias vence ele, e nós to­dos se­guindo em frente, cada pouco es­pi­ando lá em cima um pa­no­rama da con­tenda, esta sim uma guerra santa, um es­pe­tá­culo, um show de be­las ima­gens, o sol rasgando-as com seus raios fla­me­jan­tes, elas fechando-se em torno dele, cingindo-o num abraço ma­cio, e nós to­dos se­guindo em frente.

Compartilhe