Crônicas

Cruz

segunda-feira, 19 de abril de 2004 Texto de

Nos dias em que Tan­credo Ne­ves ago­ni­zava no In­cor, em São Paulo, uma fi­leira de po­pu­la­res postava-se di­ante da en­trada do hos­pi­tal para acom­pa­nhar as no­tí­cias fres­cas e o tra­ba­lho dos jor­na­lis­tas, es­pe­ci­al­mente o dos re­pór­te­res de te­le­vi­são. Pro­fis­si­o­nais que es­ti­ve­ram lá con­tam que as pes­soas aguar­da­vam as en­tra­das ao vivo das emis­so­ras para de­sa­bar em pran­tos. Acho que não fa­ziam algo as­sim vo­lun­ta­ri­a­mente. A te­le­vi­são cos­tuma, nes­sas ho­ras, fa­zer de­sa­bro­char nos mais du­ros a flor ma­cia da sen­si­bi­li­dade.

Lembrei-me desse as­sunto no úl­timo sá­bado, quando fui ver o fa­moso filme de Mel Gib­son. “A Pai­xão de Cristo”, den­tro de mi­nha rude (in)formação na arte ci­ne­ma­to­grá­fica, é um filme cuja via cru­cis vai do ra­zoá­vel ao bom. Acho exa­ge­ra­das as con­si­de­ra­ções a res­peito das con­seqüên­cias do pos­sí­vel ca­rá­ter anti-semita. Mesmo que o filme lance so­bre os ju­deus a de­ci­são pela cru­ci­fi­ca­ção de Cristo, e ao mesmo tempo mos­tre um Pi­la­tos pra lá de po­li­ti­ca­mente cor­reto, li­vrando os ro­ma­nos de qual­quer culpa, não con­si­dero sen­sato con­cluir que isso pode acir­rar ou acen­der qual­quer tipo de ódio con­tra os ju­deus.

As re­li­giões e seus sa­cer­do­tes de­sen­ca­de­a­ram, atra­vés da his­tó­ria, as mais ab­sur­das e san­gren­tas opres­sões às quais já foi sub­me­tido o ser hu­mano. Tal­vez to­das as re­li­giões te­nham suas pá­gi­nas ver­me­lhas de san­gue. Tal­vez to­das te­nham suas mar­cas de gra­ves equí­vo­cos. Mas di­fi­cil­mente em al­guma des­sas oca­siões a grande massa de fiéis dei­xou de ser ma­no­brada por meia dú­zia de man­da­tá­rios que sem­pre se lo­cu­ple­tam, em to­dos os sen­ti­dos, com o que su­gam de seus gran­des re­ba­nhos.

Daí mi­nha con­clu­são de que é exa­gero te­mer qual­quer onda de ódio, an­ti­pa­tia ou coi­sas do tipo con­tra os ju­deus. Se re­al­mente aque­les ga­tos pin­ga­dos que o filme de Mel Gib­son su­gere como res­pon­sá­veis pela morte de Cristo as­sim o fo­rem, não será pos­sí­vel afir­mar que eles re­pre­sen­ta­vam o pen­sa­mento e o de­sejo de seus se­gui­do­res. As­sim, acre­dito, tam­bém o deve ter sido na época da In­qui­si­ção, a pá­gina en­la­me­ada dos ca­tó­li­cos.

Da mesma forma, dis­cordo da tal “sa­ta­ni­za­ção” da mu­lher, que no filme en­carna o di­abo. Como bem me lem­brou nossa co­lu­nista Fer­nanda Vil­las Bôas, o di­abo de Mel Gib­son está mais para uma fi­gura an­dró­gina do que para uma Eva.

Parece-me que, muito mais do que con­cluir so­bre cul­pas, es­sas po­lê­mi­cas im­por­tam pelo seu ca­rá­ter re­tó­rico. Re­féns de uma mo­der­ni­dade que nos faz con­ver­sar muito mais com en­ge­nho­cas (como se re­fere o Gil­mar Dias em sua co­luna neste site) do que com pes­soas, e tam­bém re­féns do freqüente iso­la­mento que nos exige a de­tes­tá­vel luta pela so­bre­vi­vên­cia, en­con­tra­mos algo raro na opor­tu­ni­dade de dis­cu­tir so­bre as­sun­tos que pos­sam nos ar­re­ba­tar ver­da­dei­ra­mente. Quando surge essa opor­tu­ni­dade, in­de­pen­den­te­mente de suas ver­sões e di­fe­ren­tes con­clu­sões, nós te­mos a chance de no­vos des­co­bri­men­tos.

Os po­pu­la­res que cho­ra­vam quando as câ­me­ras de te­le­vi­são as fo­ca­li­za­vam di­ante do In­cor, na época de Tan­credo Ne­ves, de­certo fo­ram ma­ni­pu­la­dos pela in­crí­vel força da co­mu­ni­ca­ção. Eles iam para a frente do hos­pi­tal pre­pa­ra­dos para cho­rar. Em seu choro, ro­la­vam ou­tras tris­te­zas, como as frus­tra­ções do co­ti­di­ano. Boa parte dos que vão ao ci­nema ver o filme so­bre Cristo tam­bém já vão dis­pos­tos a cho­rar. Vêem no es­cu­ri­nho do ci­nema a pos­si­bi­li­dade de ex­tra­va­sar as emo­ções da vida que pas­sam quase sem­pre en­clau­su­ra­das. Vêem a pos­si­bi­li­dade de ame­ni­zar o peso da cruz. 

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