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Fernando BH entrevista Milton Leite e Ubiratan Brasil

sexta-feira, 23 de abril de 2004 Texto de

Fer­nando BH

Se jo­gar uma Copa do Mundo é o grande so­nho de mui­tos me­ni­nos que cres­cem chu­tando uma bola, a von­tade de par­ti­ci­par dela não é me­nor para os jor­na­lis­tas que amam o es­porte – en­tre eles, os atle­tas frus­tra­dos. As Olim­pía­das, en­tão, que en­glo­bam vá­rios es­por­tes, são ou­tra opor­tu­ni­dade fan­tás­tica de ver de perto algo que en­canta o pla­neta in­teiro pela tevê e de in­te­ra­gir com o evento ali, ao vivo. O jor­na­lista Ubi­ra­tan Bra­sil, que hoje es­creve no Ca­derno 2 do jor­nal “O Es­tado de S. Paulo”, mas tem quinze anos de ex­pe­ri­ên­cia nas re­da­ções de es­porte, e o jor­na­lista e lo­cu­tor Mil­ton Leite (foto), da ESPN Bra­sil – tam­bém fa­moso por em­pres­tar a sua voz à ver­são bra­si­leira dos fa­mo­sos jo­gos de vi­de­o­game da sé­rie “Fifa” –, ti­ve­ram essa opor­tu­ni­dade e re­la­ta­ram um pouco do que vi­ve­ram. Ubi­ra­tan foi às Co­pas de 94, nos Es­ta­dos Uni­dos, e 98, na França, e às Olim­pía­das de 96, em Atlanta.. Mil­ton vi­a­jou a Sid­ney, em 2000, além de tam­bém ter ido à França. En­tre tan­tas his­tó­rias, não po­de­ria fal­tar o caso da con­vul­são de Ro­naldo, já exaus­ti­va­mente dis­cu­tido na mí­dia, mas aqui con­tado pelo ân­gulo de quem co­briu o fato, não o dos pro­ta­go­nis­tas.

Per­gunta: De­pois de fa­zer uma grande co­ber­tura, como Olim­píada ou Copa do Mundo, além da ex­pe­ri­ên­cia, da ba­ga­gem que se ad­quire, abrem-se no­vas por­tas, vo­cês fi­cam mais vi­sa­dos no mer­cado?

Mil­ton Leite: Você se va­lo­riza, claro. É uma ex­pe­ri­ên­cia ini­gua­lá­vel. Você cresce em uma Olim­píada o que não cresce em qua­tro anos de tra­ba­lho.

Ubi­ra­tan Bra­sil: Su­po­nha­mos que vai ha­ver um cam­pe­o­nato mun­dial de um de­ter­mi­nado es­porte. Se você está num ou­tro país, não basta co­nhe­cer esse es­porte. É uma ou­tra ci­dade, ou­tra lín­gua, você está so­zi­nho. Se já co­briu uma Olim­píada, fica mais fá­cil. Em Atlanta, por exem­plo, fui o pri­meiro da mi­nha equipe a ir para lá. Che­guei dez dias an­tes, não co­nhe­cia nada e ti­nha que des­co­brir to­dos os ca­mi­nhos, de como en­con­trar as pes­soas cer­tas até me cre­den­ciar. En­tão, já se pega uma ba­ga­gem aí. E é muito mais fá­cil pe­gar para uma ou­tra com­pe­ti­ção do mesmo ní­vel uma pes­soa que já fez isso do que uma que não sa­berá o que fa­zer.

Mil­ton Leite: Há vá­rias coi­sas, numa co­ber­tura, que só se aprende fa­zendo. O que pode, o que não pode, a re­la­ção com o Bra­sil para en­viar ma­té­rias… En­fim, pega-se uma ex­pe­ri­ên­cia que quando se vai pela se­gunda vez, já não é mis­té­rio. Isso va­lo­riza, claro.

Per­gunta: Di­ante de tan­tas coi­sas que acon­te­cem em um grande evento, como se deve or­ga­ni­zar e se­le­ci­o­nar o que co­brir, prin­ci­pal­mente numa Olim­píada?

Mil­ton Leite: Você vai lá para co­brir per­so­na­gens, não para dar re­sul­ta­dos, que hoje es­tão dis­po­ní­veis na in­ter­net. Não pre­cisa se pre­o­cu­par com as in­for­ma­ções de vi­tó­rias, re­cor­des, re­sul­ta­dos de do­ping que saem a todo mo­mento e, de uma forma ou de ou­tra, você vai fi­car sa­bendo. O que faz a di­fe­rença é a sua pre­sença no evento, a sua per­gunta que só você vai fa­zer. Tem que ter cri­a­ti­vi­dade para des­co­brir um ân­gulo di­fe­rente para a ma­té­ria, ser cu­ri­oso, des­co­brir os per­so­na­gens.

Ubi­ra­tan Bra­sil: Numa Olim­píada, o ideal é des­co­brir ou­tras coi­sas, al­gum de­ta­lhe que o faça se so­bres­sair do res­tante. Não basta ter as in­for­ma­ções, os re­sul­ta­dos e fa­zer o tri­vial. É pre­ciso ca­çar his­tó­rias. Em Atlanta, des­co­bri que um ame­ri­cano que com­pe­tia no cai­a­que era a grande sen­sa­ção por­que, seis me­ses an­tes da Olim­píada, ha­via sido atin­gido por um raio e quase mor­reu. Ele teve que fa­zer uma su­per pre­pa­ra­ção e ga­nhou uma me­da­lha. Mesmo sendo um atleta que nin­guém co­nhe­cia no Bra­sil, que dis­pu­tava um es­porte sem ex­pres­são aqui, era uma his­tó­ria que in­te­res­sava.

Per­gunta: É fá­cil en­trar em con­tato com os atle­tas e iden­ti­fi­car es­ses per­so­na­gens?

Ubi­ra­tan Bra­sil: Não, a vila olím­pica é como uma caixa forte, a pre­o­cu­pa­ção com a se­gu­rança é muito grande e será maior em Ate­nas.

Mil­ton Leite: A vila olím­pica é só de atle­tas.

Ubi­ra­tan Bra­sil: Ti­nha que pe­dir e mar­car um dia e hora para a se­gu­rança. O má­ximo onde se con­se­guia che­gar era num es­paço res­trito pró­ximo ao re­fei­tó­rio, no dia em que ga­nhava esse passe. Se desse sorte de en­con­trar al­guém e esse atleta me aten­der, ótimo… Mas de­pois do aten­tado a bomba em 96, fi­cou mais di­fí­cil.

Mil­ton Leite: Era mais fá­cil mar­car com o atleta para ele ir ao cen­tro de im­prensa e dar a en­tre­vista.

Per­gunta: E como é se de­pa­rar com atle­tas de ponta, trans­mi­tir com­pe­ti­ções que en­vol­vem o país? Dá para se­gu­rar o lado fã, o lado tor­ce­dor?

Mil­ton Leite: A mi­nha re­la­ção de amor com o es­porte ter­mina quando en­tro para trans­mi­tir. Quando es­tou ali, quero que se dane se o meu time está ga­nhando ou per­dendo, quero eu ga­nhar, fa­zer bem o meu tra­ba­lho. Na fi­nal da Copa de 98, eu es­tava muito mais em­pol­gado com o fato de es­tar trans­mi­tindo aquele jogo do que com a pos­si­bi­li­dade de o Bra­sil ga­nhar ou não.

Per­gunta: Qual mo­mento cada um de vo­cês des­taca como mar­cante em suas vi­das du­rante uma co­ber­tura?

Ubi­ra­tan Bra­sil: Gos­tei de co­brir a his­tó­ria da bomba na Olim­píada de 96. Não ti­nha nada a ver com es­porte e nos pe­gou des­pre­ve­ni­dos. Numa sexta-feira à noite, éra­mos pou­cas pes­soas no cen­tro de im­prensa, pois, por causa do fuso ho­rá­rio, a mai­o­ria dos jor­na­lis­tas não es­tava lá, e quando aca­bá­va­mos de sair, ou­vi­mos a ex­plo­são. De re­pente, você achando que seu dia ti­nha aca­bado e es­tava ape­nas co­me­çando… Eu ha­via pla­ne­jado uma folga no sá­bado para pas­sear por Atlanta e logo às oito da ma­nhã es­tava na co­le­tiva do FBI. Foi le­gal acom­pa­nhar isso. Uma coisa que sur­giu do nada e não tí­nha­mos a me­nor idéia do que se tra­tava.

Mil­ton Leite: Era um so­nho desde cri­ança par­ti­ci­par de uma Copa, aquela era a mi­nha Copa e me pre­pa­rei muito para ela. Di­fi­cil­mente ha­verá ou­tra chance tão fan­tás­tica, pri­meiro por ter sido na França, um país es­pe­ta­cu­lar. Fi­quei 45 dias lá e trans­miti to­dos os jo­gos do Bra­sil do es­tá­dio. Fiz a par­tida de aber­tura, pelo fato de o Bra­sil ser en­tão o atual cam­peão, e tam­bém a fi­nal, isto é, par­ti­ci­pei dos me­lho­res mo­men­tos e ainda vi­a­jei para Mar­se­lha, Nan­tes, vi­a­jei de trem-bala…

Per­gunta: Como foi aquela tarde da der­rota para a França, com toda a con­fu­são em torno do Ro­naldo?

Mil­ton Leite: Fal­tando três ho­ras para o jogo, eu já es­tava lá. Na Copa do Mundo, os téc­ni­cos são obri­ga­dos a dar a es­ca­la­ção uma hora an­tes do jogo, por­que eles sa­bem que é im­por­tante a mí­dia es­tar com es­sas in­for­ma­ções – não é como aqui no Bra­sil, que o téc­nico acha que ga­nha o jogo es­con­dendo a es­ca­la­ção. Uma hora an­tes, en­tão, pas­sa­ram a re­la­ção e es­tava o Ed­mundo, não o Ro­naldo. Es­tá­va­mos eu e o Tos­tão e li­ga­mos para o An­dré Kfouri, nosso re­pór­ter, per­gun­tado ‘Cadê o Ro­naldo?’. Foi uma cor­re­ria… Ha­via tenda den­tro da con­cen­tra­ção do Bra­sil, re­pór­te­res, links ao vivo, he­li­cóp­tero e mesmo as­sim não vi­ram que o Ro­naldo não es­tava com a Se­le­ção na saída para o es­tá­dio. Fal­tando meia hora, che­gou um xe­rox ma­nus­crito, em in­glês, as­si­nado por um mé­dico, di­zendo que o Ro­naldo ti­nha um pro­blema de tor­no­zelo, se não me en­gano, e que ha­via ido para o hos­pi­tal. Só vinte mi­nu­tos an­tes é que veio a in­for­ma­ção de que ele iria jo­gar. Aí veio a dis­cus­são se po­de­ria ou não jo­gar. Saiu a no­tí­cia de que o Ri­cardo Tei­xeira teve que des­cer da tri­buna e pres­si­o­nar o pes­soal da Fifa para dei­xa­rem escalá-lo. Tanto que, na­quele jogo, o Bra­sil nem fez aque­ci­mento no gra­mado.

Per­gunta: O Ro­naldo che­gou no ves­tiá­rio em cima da hora pe­dindo para jo­gar e o Za­galo, di­ante do pe­dido, acei­tou…

Mil­ton Leite: Fi­ca­ram com medo de ele não jo­gar e o Bra­sil per­der a fi­nal.

Per­gunta: Será que houve pres­são do pa­tro­ci­na­dor da Se­le­ção?

Mil­ton Leite: Não acre­dito que fa­riam isso. O Ro­naldo é um pro­duto muito bom para a Nike ar­ris­car e ele ter um troço den­tro do campo. Ia pe­gar mal.

Per­gunta: De­pois da fi­nal, como foi se re­ve­lando a ver­dade do que ha­via ocor­rido?

Mil­ton Leite: De­pois do jogo, fo­mos para o cen­tro de im­prensa. O Juca Kfouri es­tava che­gando para fa­zer o Car­tão Verde, da TV Cul­tura. Ele disse ‘Aca­bei de fa­lar com o Dunga’ – que era a fonte dele na época – ‘Ele não quer abrir de jeito ne­nhum, mas houve um pro­blema com o Ro­naldo na con­cen­tra­ção’. Até que va­zou a his­tó­ria da con­vul­são. O Tos­tão, que é mé­dico, me fa­lou: ‘Se ele teve essa con­vul­são, colocá-lo para jo­gar foi um crime, por­que ele po­de­ria ter mor­rido den­tro do campo’. A des­carga que se tem em uma con­vul­são é tão gi­gan­tesca, é tanta adre­na­lina, que é como se ele ti­vesse aca­bado de cor­rer uma ma­ra­tona e en­trado em campo para jo­gar fu­te­bol. A his­tó­ria co­me­çou a va­zar na noite de do­mingo e es­tou­rou na segunda-feira.

Ubi­ra­tan Bra­sil: Na se­gunda, es­tá­va­mos os re­pór­te­res plan­ta­dos na porta do ho­tel, a um quilô­me­tro da en­trada, de­baixo de chuva, es­pe­rando al­guém fa­lar al­guma coisa. Aí, apa­re­ce­ram o mé­dico Lí­dio To­ledo e o Ro­naldo. Al­guém ti­nha que con­tar uma his­tó­ria, dar uma jus­ti­fi­ca­tiva. Lembro-me que o pri­meiro a abrir o bico foi o Ro­berto Car­los.

Mil­ton Leite: Nin­guém guarda se­gredo num grupo tão grande.

(Ter­mi­nada a en­tre­vista, con­ver­sando com o jor­na­lista Ubi­ra­tan Bra­sil, ele me con­tou como é im­por­tante a fi­gura da fonte, da­quela pes­soa que passa ao jor­na­lista uma in­for­ma­ção si­gi­losa. Du­rante as Eli­mi­na­tó­rias para a Copa de 94, por exem­plo, um jo­ga­dor da Se­le­ção con­fi­den­ciou a ele e ou­tros dois re­pór­ters que o grupo es­tava ra­chado. Al­guns ques­ti­o­na­vam a pos­tura do téc­nico Par­reira, ou­tros de­fen­diam, ge­rando as fa­mo­sas “pa­ne­li­nhas”. Va­zada a his­tó­ria, a as­ses­so­ria de im­prensa da Se­le­ção fi­cou atô­nita, perguntando-se quem te­ria de­la­tado o pro­blema. Como fonte deve ser pre­ser­vada, nem eu conto agora…)

En­tre­vista co­le­tiva ce­dida ao grupo de alu­nos do curso “Lin­gua­gem e re­vo­lu­ção no jor­na­lismo es­por­tivo”, do Se­nac. São Paulo, 20 de março de 2004.

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