Crônicas

Laranja

domingo, 18 de abril de 2004 Texto de

Mi­nha ori­gem é ru­ral. Pre­zo mui­to as coi­sas do cam­po. Atu­al­men­te, em vi­a­gens a tra­ba­lho, atra­ves­so ro­do­vi­as (mui­to mal con­ser­va­das, co­mo a gran­de mai­o­ria, é ver­da­de) cu­jas mar­gens são pre­en­chi­das pe­la ve­ge­ta­ção, se­jam ma­tas ou plan­ta­ções cul­ti­va­das. Em cer­tos tre­chos, o do­mí­nio é da la­ran­ja.

Lem­bro-me de quan­do mo­rá­va­mos no sí­tio e sen­tá­va­mos nas bei­ra­das dos ter­rei­ros de ca­fé pa­ra chu­par de­ze­nas de la­ran­jas. A pre­fe­ri­da era uma fru­ta miú­da que cha­má­va­mos “la­ran­ja aba­ca­xi”. Nem sei se es­se no­me per­sis­tiu ou se a es­pé­cie ain­da exis­te, mas o fa­to é que era do­ce co­mo o mel. Ha­via adul­tos que con­su­mi­am quin­ze ou vin­te de­las de uma vez.

São cu­ri­o­sas as la­ran­jas. En­quan­to vo­cê as des­cas­ca, é pos­sí­vel ape­nas pre­ver o que há den­tro. Só na ho­ra de chu­pá-las é que se co­nhe­ce a es­sên­cia. Mui­tas la­ran­jas de cas­ca bo­ni­ta, da­que­las que lo­go dão água na bo­ca, re­ve­lam-se aze­das, às ve­zes sem o sa­bor pre­vis­to pe­las apa­rên­ci­as ou mes­mo apo­dre­ci­das.

E as­sim é a vi­da: uma ou vá­ri­as la­ran­jas ima­gi­ná­ri­as que, con­for­me o tem­po pas­sa, vo­cê vai des­cas­can­do e con­su­min­do. Em cer­tos di­as, elas es­tão do­ces, em ou­tros, aze­das ou po­dres. O que de­ci­di­da­men­te não dá é des­cas­car, des­cas­car e só en­con­trar la­ran­jas po­dres ou aze­das. Que­ro mi­nhas la­ran­jas do­ces de vol­ta. Que­ro po­der chu­pá-las até a úl­ti­ma go­ta de su­co.

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