Era uma fa­tia de sol, tal­vez um me­tro qua­drado ou nem isso. E, nos dias sem nu­vens, re­a­fir­mava sua pon­tu­a­li­dade ilu­mi­nando um pe­daço da cama dos meus pais, sem­pre por 40 mi­nu­tos, a par­tir das 13 ho­ras. Uma luz fil­trada, mas con­tí­nua, que aque­cia a col­cha e dei­xava a ca­be­ceira de ma­deira quase fe­bril.

Quem des­co­briu a no­vi­dade foi meu pai – a cama era dele e o sol nos vi­si­tava todo co­meço de tarde, atra­ves­sando a ja­nela de grade verde que se­pa­rava o dor­mi­tó­rio de um pe­queno jar­dim. Im­pru­dente, o pai es­pa­lhou a boa nova e a con­cor­rên­cia co­me­çou: todo mundo que­ria al­guns mi­nu­tos da­quele abraço en­vol­vente, que che­gava de graça e era tão pro­saico e sin­gelo que era im­pos­sí­vel fi­car in­di­fe­rente.

Eu era bem mais jo­vem e ainda mo­rava com os meus pais quando esse oá­sis foi no­tado e pa­ten­te­ado pela fa­mí­lia: era o nosso “aleph”. Nas ma­nhãs frias em que ia para a fa­cul­dade com uma crise aguda de bron­quite e ves­tindo uma blusa de lã mal ven­ti­lada que só com­pli­cava a si­tu­a­ção dos meus brôn­quios, ado­rava che­gar em casa para o al­moço com o ar­gu­mento ir­re­fu­tá­vel: eu era a ca­çula e nas­cera com bron­quite, res­pi­rava com pra­ti­ca­mente meio pul­mão, ti­nha um fô­lego dé­bil, es­pir­rava sem com­passo e com os olhos úmi­dos, ver­me­lhos, as­má­ti­cos. Ora, com esse triste pron­tuá­rio, era justo que eu me­re­cesse ser re­com­pen­sada com uma dose su­ple­men­tar de sol. Às ve­zes, con­ven­cia todo mundo e fi­cava mais tempo na­quele de­leite, de olhos fe­cha­dos, sen­tindo o ca­lor da col­cha ba­rata que imi­tava pat­chwork – tal­vez, uns 25 mi­nu­tos. Ou­tras ve­zes, com o rosto co­rado, a voz vi­go­rosa, os olhos rú­ti­los e bem aber­tos, eu era pu­bli­ca­mente des­mas­ca­rada na hora do al­moço e pre­ci­sava, en­tão, di­vi­dir a fa­tia de sol com mais al­guém.

As boas lem­bran­ças ocu­pam um baú es­pe­cial na me­mó­ria, mas os mo­men­tos má­gi­cos, como o qua­drado ama­relo que in­va­dia o quarto do meus pais à tarde, es­tão num lu­gar vip de co­or­de­na­das in­vi­o­lá­veis. Es­ses mo­men­tos são um alento para os dias di­fí­ceis, quando to­das as vias es­tão con­ges­ti­o­na­das e o corpo pre­cisa de ar e tam­bém de paz, re­ti­dão, si­lên­cio, re­clu­são. Não uma re­clu­são mo­nás­tica, mas um break para re­car­re­gar o re­fil da ins­pi­ra­ção e re­a­li­men­tar o en­tu­si­asmo, a von­tade de vi­ver e de cor­rer ris­cos, mer­gu­lhando em oce­a­nos des­co­nhe­ci­dos sem es­ca­fan­dro.

O pai mor­reu, a mãe se mu­dou, a irmã se ca­sou, a casa foi ven­dida e re­for­mada. É pro­vá­vel que o sol não en­con­tre mais a col­cha, nem a ja­nela de grade verde nem o pe­queno jar­dim. Mas ele está vivo den­tro de mim. Nos dias cin­zas, bri­lha aqui den­tro. E aca­lenta, aca­ri­cia, re­con­forta. É um sol de­fi­ni­tivo, um sol eterno, um sol de Oslo.

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