Crônicas

O vazio da história

terça-feira, 30 de outubro de 2012 Texto de

Em al­gu­mas ho­ras, sai a úl­tima edi­ção do Jor­nal da Tarde, um dos mais ino­va­do­res veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção da his­tó­ria bra­si­leira. Mas quero fa­lar do de­pois. De­pois de ama­nhã. Quando o Jor­nal da Tarde não cir­cu­lar, ha­verá no ar uma es­pé­cie de im­plo­são cós­mica que trans­for­mará numa mo­lé­cula única to­dos os tex­tos, to­das as fo­tos, to­dos os anún­cios, to­das as ca­pas, tudo que já foi pu­bli­cado ali. E de­pois, mais nada. Só o va­zio an­tes ocu­pado por ideias, dis­cus­sões, ge­ni­a­li­da­des, bes­tei­ras etc e tal. Só o va­zio.

Eu gos­ta­ria de, caso pu­desse, en­viar uma men­sa­gem de ca­ri­nho aos co­le­gas do Jor­nal da Tarde. Eu posso ima­gi­nar como eles – ou boa parte de­les – es­tão agora. É uma ex­pe­ri­ên­cia ter­rí­vel pela qual já pas­sei.

A pri­meira de­las, ainda nos anos 1980, quando ti­ve­mos (eu e meu só­cio) que fe­char nosso pri­meiro jor­nal – ou “jor­nal­zi­nho”, como to­dos di­ziam. De­pois de três anos de cir­cu­la­ção, fal­tou di­nheiro para to­car o pro­jeto adi­ante. Duas ce­nas me mar­ca­ram na­quele dia. Quando a úl­tima edi­ção saiu com a man­chete avi­sando so­bre o fe­cha­mento, uma lei­tora cor­reu à nossa pe­quena re­da­ção. Quase sem fô­lego, fora bus­car o di­nheiro do res­tante da as­si­na­tura. A ou­tra cena foi quando abai­xa­mos a porta. Ao pas­sar a chave, eu me dei conta de que não tí­nha­mos mais nada.

Anos de­pois, a se­gunda ex­pe­ri­ên­cia foi com o Diá­rio de Bauru. Trau­má­tica ao ex­tremo. Ha­vía­mos mon­tado uma grande equipe e feito um jor­na­lismo de pri­meira li­nha. Mas tudo nau­fra­gou no mesmo pro­blema: a falta de re­torno fi­nan­ceiro.

Na se­mana pas­sada, por coin­ci­dên­cia, con­ver­sei com uma pes­soa que se lem­bra do Diá­rio. Mas não se lem­bra que eu tra­ba­lhei lá. Con­versa vai, con­versa vem, disse-me exa­ta­mente as­sim: “Você se lem­bra do Diá­rio? Coi­tado, sol­tava uma tinta nas mãos da gente!”. Nada so­bre as gran­des re­por­ta­gens, nada so­bre os fu­ros, nada so­bre as ca­pas, nada so­bre as fo­tos, nada so­bre as ou­sa­dias. Ape­nas a tinta nas mãos.

Hoje, acho que su­til­mente en­cos­tado pelo jor­na­lismo, sinto exa­ta­mente a falta dessa tinta. Do cheiro da tinta.

Tra­ves­tida de mo­derna e sá­bia, a so­ci­e­dade vai aos pou­cos per­dendo o gosto pelo pal­pá­vel, pelo to­que, pela pro­xi­mi­dade, pelo cheiro. Atrás de vi­so­res e de te­las, so­mos lin­dos e des­co­la­dos, avan­ça­dos e in­te­li­gen­tes. Mul­ti­pli­cada pela in­fi­ni­dade de in­for­ma­ções cujo todo é ina­tin­gí­vel, a su­per­fi­ci­a­li­dade nos cega. As­si­na­mos cor­rendo em­baixo de um texto que não sa­be­mos de onde vem e que não te­mos tempo para ler, mas que deve ser bom por­que tanta gente vai atrás…  Con­de­na­mos a Veja sem nunca ter posto as mãos num exem­plar se­quer… Ata­ca­mos a Globo por­que sem­pre é ba­cana de­mons­trar nosso es­pí­rito crí­tico… En­deu­sa­mos o Jo­a­quim sem nunca ter lido qual­quer de suas con­si­de­ra­ções…

Acho que es­ta­mos vi­rando rá­pido de­mais as pá­gi­nas. É an­gus­ti­ante. Por­que no fim o que está so­brando é só mesmo um va­zio que cresce e, por sua am­pli­tude, faz pa­re­cer que está cheio.

Palavras-chave

Compartilhe