Crônicas

‘Moça bonita não paga’

sexta-feira, 24 de agosto de 2012 Texto de

Que me des­cul­pem os que mo­ram em ruas de feira, mas adoro ir à feira. Sei que é vi­sí­vel o trans­torno que ela traz, não só à mo­vi­men­ta­ção dos mo­ra­do­res e ao ba­ru­lho desde cedo, como tam­bém à su­jeira que só ter­mina de ser re­ti­rada à tarde. Mas pre­firo ir à feira a com­prar cer­tos pro­du­tos em su­per­mer­ca­dos. São sem­pre mais fres­cos e com pre­ços que vão bai­xando à me­dida que a ma­nhã passa. A tal da xepa.

O que sem­pre me cha­mou a aten­ção são as fa­las dos fei­ran­tes, cada um à sua moda, ven­dendo seu pro­duto com hu­mor e às ve­zes até com rima. Desde que eu mo­rava na La­goa – e lá se vão 20 anos – cos­tu­mava ano­tar es­ses fa­la­res e ainda guardo al­guns, de di­fe­ren­tes fei­ras da Zona Sul ca­ri­oca.

Um ven­de­dor de ver­du­ras gri­tava: “É só pe­dir li­cença, en­trar no jar­dim e me­xer na horta”. Ou­tro lem­brava fi­lo­so­fi­ca­mente que não se deve adiar as com­pras: “Não te benzo nem te curo, ama­nhã você tá duro!”. Um ven­de­dor de tem­pe­ros se quei­xava: “Será pos­sí­vel que nessa feira só se com­pra fruta-do-conde?” E ou­tro de­sa­fi­ava os mo­ra­do­res do bairro: “Mo­ra­dor da La­goa só come peixe??? Olha o aba­caxi aqui, pes­soal.” E ape­lava, à moda de um can­di­dato a pre­si­dente da­quela época: ”Não me deixe só, fre­gue­si­nha, mi­nha bar­raca pre­cisa de você!”

Os mais ma­li­ci­o­sos pro­vo­ca­vam os fre­gue­ses: “Tá pro­cu­rando sua mu­lher, fre­guês? Tá aqui, na bar­raca do Chi­cão, pro­vando a de­li­ci­osa me­lan­cia. Pode vir, tá tudo aqui!”. Um ven­de­dor de caju, no Jar­dim Bo­tâ­nico, se ga­bava: “Eu tra­ba­lho por es­porte, ma­dame, posso dar des­conto bom!” Como seu co­lega de feira: “Sou fa­zen­deiro, rico e sol­teiro. Por isso meu pro­duto é ba­rato, mi­nha gente!” 

Ou­tro ven­de­dor de fruta se or­gu­lhava de seu pro­duto: ”Coisa boa hoje! Aba­caxi bom, doce e ama­re­li­nho por den­tro. Aba­caxi branco passa longe da mi­nha bar­raca.” Con­tra re­cla­ma­ções so­bre man­gas fi­a­pen­tas, um ven­de­dor da feira da Pça. Nossa Se­nhora da Paz, em Ipa­nema, já ofe­re­cia a so­lu­ção: ”Essa tem fi­apo, mas aqui já leva o fio den­tal de brinde…”. Da bar­raca de le­gu­mes, na mesma feira, ouvia-se a ame­aça: “Se não le­var agora, não come!” 

À per­gunta da fre­guesa se o ba­na­neiro ti­nha banana-da-terra, veio a res­posta: ”Ora, mi­nha amiga, to­das as ba­na­nas vêm da terra. Brin­ca­dei­ri­nha, hoje não tem, não.” Ou “Pre­cisa de tem­pero? O alho eu te­nho aqui. É pe­gar e le­var, só não es­quece de pa­gar…”

Quer li­mão, fre­guesa? Tá ver­di­nho! Quando ela res­pon­deu que já ti­nha, veio o contra-ataque: -En­tão leva pra vi­zi­nha!

Or­gu­lho dos pro­du­tos é o que não falta: “Essa ate­moia tá uma de­lí­cia, viu só? Tava es­pe­rando pela se­nhora!” E seu vi­zi­nho não fi­cava atrás: “Olhem só que manga linda, capa da Veja, fre­guesa!” E me di­zia, en­quanto cor­tava um pe­daço para prova: ”Pre­para seu co­ra­ção! Gran­des emo­ções es­tão pra acon­te­cer!…”. O que ven­dia be­rin­jela in­for­mava en­quanto eu as exa­mi­nava: “Es­tão per­fei­tas. E sem bi­cho! Com bi­cho é mais caro!…”

E di­ante do meu co­men­tá­rio de que como pro­fes­sora eu não po­dia fre­quen­tar as bar­ra­cas de pre­ços al­tos na La­goa, ouvi a resposta:”Ah, você é pro­fes­sora? Mi­nha mommy tam­bém!…”

Uma pena que a al­ga­zarra ator­do­ante de uma Bolsa de Va­lo­res não possa ser subs­ti­tuída pela al­ga­zarra poé­tica dos fei­ran­tes do Rio. So­nhar não custa…

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