Impressões

A cruzada da Xuxa

quinta-feira, 5 de julho de 2012 Texto de

Cena com a Xuxa no filme “Amor es­tra­nho amor”

A cru­zada da Xuxa para es­con­der atos de seu pas­sado pode ser in­ter­pre­tada de di­ver­sos mo­dos. Bom, eu não quero interpretá-la. Quero ape­nas di­zer que não dá para sim­ples­mente pas­sar uma bor­ra­cha no pas­sado. Nem no da Xuxa nem no meu nem no seu.

Acho que to­dos fa­ze­mos coi­sas das quais nos ar­re­pen­de­mos mais tarde. Eu já fiz mi­nha lista aqui mesmo no blog (para quem qui­ser co­nhe­cer o pas­sado te­ne­broso que me ator­menta, é só cli­car aqui). Não dá para en­cos­tar ati­tu­des que nos fa­zem mal. É a vida. E tam­bém é da vida a ine­xo­ra­bi­li­dade de atos con­cre­ti­za­dos.

A Xuxa quer por­que quer que to­dos es­que­çam que ela po­sou nua ou que pro­ta­go­ni­zou um filme em que sua per­so­na­gem faz sexo com uma cri­ança (“Amor es­tra­nho amor”, 1979). A cru­zada fica ainda mais com­pli­cada di­ante de ou­tro as­pecto ine­xo­rá­vel: ela é uma ce­le­bri­dade. E hoje, mais do que em qual­quer época, a so­ci­e­dade faz ques­tão de cha­fur­dar ili­mi­ta­da­mente na vida das ce­le­bri­da­des.

Es­con­der o pas­sado, como tenta fa­zer a todo custo nossa pró­pria na­ção (ao im­por si­gilo a tan­tos do­cu­men­tos his­tó­ri­cos ti­dos como com­pro­me­te­do­res), se­ria muito con­for­tá­vel, mas eu per­gunto: as pi­o­res co­bran­ças ou os pi­o­res tor­men­tos quanto ao nosso pas­sado não são aque­les cuja es­sên­cia mar­tela nos­sos pró­prios pen­sa­men­tos? Não é aqui den­tro que tra­va­mos a ver­da­deira ba­ta­lha con­tra nos­sos er­ros? De que vale apa­gar o pas­sado ex­ter­na­mente se ja­mais po­de­re­mos apartá-lo de nossa ca­beça?

O que pre­ci­sa­mos é en­con­trar a fór­mula certa para con­vi­ver com as par­tes do pas­sado que nos ator­men­tam. Quem sabe, apren­der com elas.

Aliás, o que a Xuxa de­ve­ria di­zer é: fiz mesmo e daí? Po­sei nua, fiz o filme po­lê­mico e nin­guém, a não ser eu e mi­nha cons­ci­ên­cia, tem nada a ver com isso. Por­que a vida é mi­nha. E de mais nin­guém.

Compartilhe