Impressões

A guerra e a poesia

sexta-feira, 3 de setembro de 2010 Texto de


In­ces­san­te­mente, inin­ter­rup­ta­mente, a água tom­bava so­bre as ca­sas, so­bre o Largo de­serto. Um ou ou­tro urubu que fi­cava em riba da cu­me­eira ou al­guns bem-te-vis que da­vam seus mer­gu­lhos, pe­gando as ma­ri­po­sas vo­e­jan­tes so­bre os cu­pins. Nem almas-de-gato pi­a­vam. A erva cres­cia com viço ex­tra­or­di­ná­rio. Há pou­cos dias, quase não se no­tava o mato que che­gava agora a es­con­der um boi. O caruru-de-porco, o fe­de­goso brabo, a erva-de-santa-maria cres­ciam com uma pu­jança de fei­tiço. Ha­via no ar um cheiro de verde, de coisa apo­dre­cida, de se­mente ger­mi­nando.
(Tre­cho de ”O Tronco”, li­vro de Ber­nardo Élis, José Olym­pio Edi­tora, edi­ção de 2003)

Ber­nardo Élis, ro­man­cista de es­crita ím­par, mui­tas ve­zes com­pa­rado a Gui­ma­rães Rosa em seu es­tilo cru e re­gi­o­na­lista, es­cre­veu um dos li­vros que eu mais gosto. “O Tronco”, cujo en­redo cha­furda no vi­o­lento am­bi­ente dos co­ro­néis do cen­tro do Bra­sil, é uma in­crí­vel odis­seia que nos leva, pa­ra­do­xal­mente e si­mul­ta­ne­a­mente, à guerra e à po­e­sia.

Eu re­co­mendo para quem gosta de li­vros am­bi­en­ta­dos nos con­fins do Bra­sil e, quem sabe, nos con­fins do tempo. E mais que isso: nos con­fins de nos­sas al­mas.

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