Contos

Primitivos desejos

sexta-feira, 20 de agosto de 2010 Texto de


A meu pe­dido, o ve­lho his­to­ri­a­dor Natha­niel Pé­rez es­qua­dri­nhou com es­mero o mapa da­quela prós­pera zona ru­ral onde em al­gum ponto situava-se o pe­queno ran­cho. O lu­gar, contando-se tam­bém a ve­ge­ta­ção que o cir­cunda, mede não mais que meio al­queire, mas as­sim mesmo sig­ni­fica para o re­du­zi­dís­simo grupo que o co­nhece algo di­fí­cil de­mais para ser es­que­cido em meio aos in­con­tá­veis hec­ta­res de cana de açú­car.

Natha­niel res­gata das pro­fun­de­zas de suas ga­ve­tas ex­tre­ma­mente or­ga­ni­za­das có­pias ama­re­la­das de es­cri­tu­ras de com­pra e venda. Em pouco mais de um sé­culo de re­gis­tros ofi­ci­ais, fo­ram ao me­nos dez as fa­mí­lias pro­pri­e­tá­rias, um nú­mero con­si­de­rado muito ele­vado para fa­zen­das desse qui­late. Junto com os do­cu­men­tos, es­tão ano­ta­ções fei­tas pelo pró­prio his­to­ri­a­dor. En­tre elas, as que mais cha­mam a aten­ção tra­du­zem em nú­me­ros a pro­du­ção agrí­cola do lu­gar exa­ta­mente nos pe­río­dos em que foi ne­go­ci­ado.

Não sou es­pe­ci­a­lista em eco­no­mia, tam­pouco Natha­niel, mas am­bos con­cor­da­mos que a úl­tima coisa que um pro­pri­e­tá­rio de ter­ras como es­sas de­ve­ria fa­zer era vendê-las. A não ser que, es­con­dido sob um manto de ri­queza e pros­pe­ri­dade, hou­vesse algo ter­ri­vel­mente in­de­se­já­vel. Ao pro­cu­rar Natha­niel, eu já ou­vira fa­lar do que, per­tur­ba­das, al­gu­mas pes­soas pro­cu­ra­vam ocultar-me. Claro, ele tam­bém co­nhe­cia o se­gredo.

Mi­nha des­co­berta ocor­reu oca­si­o­nal­mente. Certo dia, eu es­tava aten­dendo es­tu­dan­tes na fa­cul­dade onde le­ci­ono his­tó­ria, quando, de re­pente, uma mu­lher es­tra­nha sentou-se di­ante de mim e cochichou-me pa­la­vras que, a prin­cí­pio, pareceram-me in­sen­sa­tas. Disse-me que já era hora de aca­ba­rem com aquilo, uma mal­di­ção da fa­zenda X so­bre a qual nin­guém que­ria fa­lar, mas ela, que já não ti­nha mais nada a per­der, fa­la­ria o quanto fosse ne­ces­sá­rio.

Sem qual­quer ce­rimô­nia, foi nar­rando pas­sa­gens en­tre­cor­ta­das por lap­sos que pa­re­ciam enclausurá-la na in­sa­ni­dade. Como ela não per­mi­tisse in­ter­ven­ções, re­solvi ouvi-la até o fim. Aos pou­cos, ela pa­re­ceu acalmar-se. An­tes, con­tudo, relatou-me o de­sa­pa­re­ci­mento do fi­lho e cul­pou a tal mal­di­ção por isso. De­pois, como quem é to­mada por uma sú­bita le­tar­gia, prostrou-se, sem que eu pu­desse questioná-la a res­peito das in­for­ma­ções in­cer­tas que ela des­pe­jara em mi­nha ca­beça. Mais tarde, avi­sada a di­re­ção da fa­cul­dade, vi­e­ram buscá-la dois en­fer­mei­ros de um hos­pi­tal psi­quiá­trico do qual, disseram-me, ela ha­via fu­gido na­quela ma­nhã.

O fato, in­de­pen­den­te­mente das con­di­ções men­tais da mu­lher, deixou-me per­tur­bado. Como sou cu­ri­oso por na­tu­reza, como, aliás, de­vem ser to­dos os ho­mens que tra­ba­lham com esta ins­ti­gante ci­ên­cia de­no­mi­nada his­tó­ria, re­solvi ave­ri­guar al­gu­mas ques­tões. Com certa di­fi­cul­dade, ob­tive o nome de mi­nha vi­si­tante des­co­nhe­cida e pos­te­ri­or­mente, com a ajuda de um amigo ad­vo­gado, con­se­gui in­for­ma­ções so­bre o de­sa­pa­re­ci­mento mis­te­ri­oso do fi­lho ao qual ela ha­via se re­fe­rido.

O ra­paz, de vinte e pou­cos anos, era tra­ba­lha­dor ru­ral e su­miu en­quanto cor­tava cana, exa­ta­mente na fa­zenda ci­tada pela mu­lher. Sem ainda deter-me à im­por­tân­cia da si­tu­a­ção que eu co­me­çava a vi­ven­ciar, pro­cu­rei con­ver­sar com pes­soas mais an­ti­gas da fa­cul­dade, mas, para mi­nha sur­presa, nin­guém sa­bia ab­so­lu­ta­mente nada so­bre o caso. Foi, en­tão, que, tei­moso, in­vesti mi­nhas fi­chas no pro­fes­sor apo­sen­tado e his­to­ri­a­dor Natha­niel Pé­rez. No co­meço, ele mostrou-se he­si­tante, mas de­pois de muita in­sis­tên­cia de mi­nha parte, disse-me o que sa­bia, in­clu­sive so­bre a des­co­nhe­cida que in­va­diu mi­nha sala. Ela tra­ba­lhara por al­gum tempo como em­pre­gada de um ex-proprietário da fa­zenda X. Com o su­miço do fi­lho, en­lou­que­cera, atri­buindo o fato a uma mal­di­ção da qual ou­vira fa­lar por acaso numa con­versa do ex-patrão. En­tão, olhei para ele e perguntei-lhe o que ha­via de ver­dade em tudo aquilo. 

Natha­niel in­cor­pora o per­fil de al­guém que se re­vela um tanto re­ser­vado, mas ape­nas apa­ren­te­mente. De­pois que o cu­tu­cam e, prin­ci­pal­mente, quando ele passa a con­fiar em seu in­ter­lo­cu­tor, seus co­nhe­ci­men­tos, ad­qui­ri­dos du­rante mais de se­tenta anos de exis­tên­cia, dos quais ao me­nos cin­quenta de­di­ca­dos à pes­quisa dos acon­te­ci­men­tos re­gi­o­nais, são di­vi­di­dos ge­ne­ro­sa­mente, quase sem­pre a par­tir de um sem­blante que pa­rece trans­mi­tir certo re­ceio so­bre a rica he­rança que di­fi­cil­mente con­se­guirá pas­sar a ou­tra pes­soa tão in­te­res­sada em man­ter viva a his­tó­ria como ele pró­prio. Na ver­dade, a lenda que en­volve o pe­queno ran­cho lo­ca­li­zado num ponto re­moto da fa­zenda X nunca es­ti­vera en­tre os prin­ci­pais ob­je­tos de es­tudo de Natha­niel. Quando soube do as­sunto que me le­vara até ele, limitou-se a um sor­riso con­tido:

Ah, aquela his­tó­ria?

Bem, ao me­nos, ele a co­nhe­cia, em­bora a con­si­de­rasse bas­tante obs­cura. Ele mesmo es­ti­vera no tal ran­cho, aliás, em duas oca­siões. Na pri­meira, ainda muito jo­vem, quando pro­cu­rava re­en­con­trar, junto com ami­gos, o rumo de uma tri­lha per­dida. Na se­gunda, já adulto, fora mo­vido pela in­tensa cu­ri­o­si­dade sur­gida de um co­men­tá­rio feito por um amigo que ti­nha sido pro­pri­e­tá­rio da­que­las ter­ras. De cara, avisou-me:

Nada do que você te­nha ou­vido pode ser tido como fato, é im­por­tante sa­ber disso…

Eu as­senti. Meu de­sejo era co­nhe­cer o tal se­gredo, que, aliás, não era mais tão se­gredo as­sim. Natha­niel, en­tão, explicou-me re­su­mi­da­mente a lenda que se cri­ara em torno do ran­cho. Diz-se que há ali, ha­bi­tando suas tá­buas pre­ga­das so­bre um di­mi­nuto ali­cerce de ti­jo­los, algo so­bre­na­tu­ral. Aos que não o co­nhe­cem, nada acon­tece, mesmo se es­tes aden­tram a re­du­zida área co­berta de zinco. Há, in­clu­sive, no­tí­cias de gente que já se so­cor­reu do mau tempo abri­gada na ve­lha cons­tru­ção. O pró­prio Natha­niel diz não se lem­brar de qual­quer coisa es­tra­nha que pu­desse ter ocor­rido quando lá es­teve pela pri­meira vez, quando ainda não co­nhe­cia a lenda do ran­cho.

So­bre os que vão para ali­men­tar a cu­ri­o­si­dade ou para certificarem-se de que nada de fan­tás­tico existe é que re­caem as con­sequên­cias da força que lá age. Es­tes nunca de­vem abrigar-se de­baixo da­quele te­lhado. Natha­niel contou-me isso e, li­geiro, emoldurou-se numa fei­ção de quem conta uma his­tó­ria de ter­ror a uma cri­ança. Por fim, an­tes que eu pu­desse sentir-me com­ple­ta­mente cons­tran­gido, ele caiu numa boa gar­ga­lhada, pedindo-me que não me sen­tisse ofen­dido, pois ele mesmo, du­rante anos, quase acre­di­tara que algo de so­bre­na­tu­ral pu­desse re­al­mente ema­nar do tal ran­cho. Hoje, en­tre­tanto, ti­nha cer­teza de que nada ha­via de er­rado, a não ser a mente do ser hu­mano, ca­paz de criar si­tu­a­ções a par­tir de seus pró­prios de­se­jos e ne­ces­si­da­des. Por um ins­tante, fitei-o sem com­pre­en­der ao certo o que ele que­ria me di­zer.

Meu caro pro­fes­sor, se o se­nhor, en­volto num de­sejo muito pró­prio de to­das as pes­soas, que é vis­lum­brar ou mesmo in­te­ra­gir com o des­co­nhe­cido, se o se­nhor for até esse ran­cho, é bem pro­vá­vel que lhe pa­re­cerá ha­ver al­gum epi­só­dio in­co­mum. É isso o que tem acon­te­cido com esse lu­gar.

Não con­tente, pros­se­gui com mi­nha en­tre­vista:

O se­nhor viu algo quando lá es­teve pela se­gunda vez, mo­vido por cu­ri­o­si­dade?

É o que eu lhe disse. Se nós de­se­ja­mos que lá exista algo ex­tra­or­di­ná­rio, pro­va­vel­mente ire­mos vi­ven­ciar sen­sa­ções di­fe­ren­tes da­que­las às quais es­ta­mos acos­tu­ma­dos…

O caso não pa­re­cia ser as­sim tão sim­ples. Cla­ra­mente, per­cebi o incô­modo que se apos­sara de Natha­niel di­ante de mi­nha per­gunta. En­tão, de­cidi ir em frente:

Mas, en­fim, o se­nhor viu ou sen­tiu algo?

A essa al­tura de nossa con­versa, o ve­lho his­to­ri­a­dor levantou-se de sua con­for­tá­vel pol­trona e foi à vi­draça do es­cri­tó­rio que dava para um vasto jar­dim. Ali, com o olhar fixo num ponto ima­gi­ná­rio do ho­ri­zonte en­so­la­rado, ele pa­re­ceu re­vi­ver, por seu sem­blante tenso, a ex­pe­ri­ên­cia de quase três dé­ca­das an­tes. Mas, ao con­trá­rio do que eu su­pu­nha, evi­tou qual­quer re­lato. O que ele me disse foi ainda mais ex­ci­tante:

Pro­fes­sor, agora que o se­nhor co­nhece a his­tó­ria, seu de­sejo é co­nhe­cer o lu­gar?

A prin­cí­pio, um ca­la­frio rondou-me o peito, mas num se­gundo pude recompor-me e responder-lhe afir­ma­ti­va­mente. Por que eu não iria? Essa per­gunta, in­vo­lun­ta­ri­a­mente, saiu-me como um sus­surro, mas o su­fi­ci­ente para ser ou­vido por Natha­niel. Ele voltou-se a mim, em­ble­má­tico:

Foi o que eu pen­sei an­tes de ir até lá…

Con­ver­sa­mos ainda por um bom tempo, an­tes de com­bi­nar­mos a ex­pe­di­ção. Te­ría­mos que se­guir um ca­mi­nho al­ter­na­tivo, para que não fôs­se­mos no­ta­dos. O dono da fa­zenda X ha­via proi­bido qual­quer pes­soa de aproximar-se do ran­cho. O fato é que para qual­quer pro­pri­e­tá­rio da­que­las ter­ras, quanto me­nos co­men­tá­rios hou­ver a res­peito da tal lenda, me­lhor será para que sua des­va­lo­ri­za­ção seja evi­tada. Nos úl­ti­mos anos, aliás, o único fato novo que en­vol­via a tal mal­di­ção es­tava guar­dado com uma mu­lher con­si­de­rada com­ple­ta­mente in­sana. So­bre esse as­pecto da his­tó­ria, Natha­niel jurou-me não crer que o cor­ta­dor de cana te­nha sido ví­tima da su­posta mal­di­ção. As­sim como tam­bém não acre­di­tava que os de­sa­pa­re­ci­men­tos an­te­ri­o­res ti­ves­sem al­guma li­ga­ção com o ran­cho. Essa ob­ser­va­ção, en­tre­tanto, intrigou-me, não pela opi­nião do his­to­ri­a­dor, mas pela no­vi­dade que ele me apre­sen­tava. Até ali, eu ja­mais sou­bera que ou­tros ca­sos de su­miço de gente ti­nham li­ga­ção, mesmo que ape­nas atra­vés de es­pe­cu­la­ções, com o ran­cho da fa­zenda X. 

Como todo bom his­to­ri­a­dor, Natha­niel mais uma vez re­me­xeu em seus ar­qui­vos, até abrir uma pasta com re­cor­tes de jor­nais an­ti­gos da re­gião. Desde 1934, sete pes­soas ha­viam de­sa­pa­re­cido sem dei­xar ves­tí­gios. Nos ca­sos mais re­cen­tes, ocor­ri­dos em 1984 e 1994, os jor­nais trou­xe­ram alu­sões à tal mal­di­ção, mas sem­pre se res­guar­dando de even­tu­ais sen­sa­ci­o­na­lis­mos. Dois re­gis­tros, con­tudo, não po­diam ser des­men­ti­dos: os de­sa­pa­re­ci­dos são to­dos do sexo mas­cu­lino e os de­sa­pa­re­ci­men­tos se de­ram de dez em dez anos, sem­pre na­que­les de fi­nal 4, exa­ta­mente como o que atra­ves­sá­va­mos: 2004.

Não se as­suste com coin­ci­dên­cias, meu caro pro­fes­sor. Elas acon­te­cem muito mais ve­zes do que nós ima­gi­na­mos.

An­tes de sair, nossa in­cur­são ao ran­cho já de­vi­da­mente acer­tada para a tarde do dia se­guinte, ainda fiz mais uma per­gunta a Natha­niel. E a po­lí­cia, di­ante de to­dos es­ses ca­sos, nunca es­ti­vera no ran­cho? Sim, ha­via es­tado, mas nada de in­co­mum fora en­con­trado.

No dia se­guinte, mal pude es­pe­rar pelo ho­rá­rio mar­cado. Saí­mos às qua­tro. A par­tir desse ho­rá­rio, a pro­ba­bi­li­dade de ser­mos fla­gra­dos em nossa aven­tura era me­nor. Du­rante a noite, al­gu­mas dú­vi­das ainda ti­nham sur­gido em mi­nha mente. Se hou­vesse uma mal­di­ção, ela se­ria mo­ti­vada pelo quê? Natha­niel mais uma vez sor­riu ao responder-me que ha­via feito uma mi­nu­ci­osa pes­quisa so­bre as ori­gens do ran­cho. Ne­nhuma cons­tru­ção an­te­rior, ne­nhum as­sas­si­nato re­gis­trado no lo­cal, ne­nhum ce­mi­té­rio an­tigo, nada que pu­desse sus­ci­tar qual­quer mal­di­ção como as que se veem em fil­mes e na li­te­ra­tura. Di­rigi du­rante apro­xi­ma­da­mente qua­renta mi­nu­tos por uma es­trada ve­lha em meio a uma faixa de mata que se in­si­nu­ava, pro­va­vel­mente vir­gem, en­tre o ca­na­vial, até que os tri­lhos de ro­da­gem sim­ples­mente de­sa­pa­re­ce­ram. Natha­niel olhou-me de sos­laio, en­tre di­ver­tido e re­sig­nado:

Da­qui em di­ante, va­mos a pé…

Às cinco e meia, avis­ta­mos, afun­dada no ca­na­vial, a man­cha de ve­ge­ta­ção que ro­de­ava o ran­cho. A ex­ci­ta­ção cres­cia em mim a cada passo. Fo­mos em si­lên­cio. Con­forme nos apro­xi­má­va­mos do lu­gar, mi­nha an­si­e­dade pa­re­cia transformar-se em ten­são; de­pois, con­fesso, em medo. Re­pen­ti­na­mente, pen­sei em mi­nha fa­mí­lia, que eu não via há três dias, pe­ríodo em que eu le­ci­o­nava fora de mi­nha ci­dade. Meu co­ra­ção já ame­a­çava dis­pa­rar, quando, numa bra­çada de­ci­dida, Natha­niel afas­tou al­gu­mas ga­lha­das e o ran­cho abriu-se bem di­ante de nos­sos olhos. Por um ins­tante, pa­rei com­ple­ta­mente de an­dar. Com isso, o his­to­ri­a­dor adiantou-se qua­tro ou cinco pas­sos. Eu mal con­se­guia di­zer pa­la­vra, mas as­sim mesmo se­gui até ele. 

Ha­via em re­dor da cons­tru­ção di­ver­sos ti­pos de ár­vo­res, ar­bus­tos, fo­lha­gens e ca­pins. A ve­ge­ta­ção, em cer­tos pon­tos, che­gava a grudar-se às pa­re­des de tá­buas bem pre­ga­das. Não ha­via ja­ne­las. Natha­niel foi na di­re­ção da única porta e já es­tava para le­var a mão ao trinco, quando eu pedi que ele não a abrisse. Mas ele não me deu a me­nor aten­ção. Ágil, des­tra­vou o fer­ro­lho e es­can­ca­rou a porta. Ainda do lado de fora, vi ape­nas um cô­modo va­zio, de chão ba­tido. Natha­niel fitou-me:

Aí está: o ran­cho mal­dito…

He­si­tante, es­prei­tei as pa­re­des lá den­tro. O sol, que se pu­nha no lado oposto ao da porta, enfiava-se por al­gu­mas aber­tu­ras da ma­deira, cri­ando fi­a­pos lu­mi­no­sos que con­fe­riam ao in­te­rior da cons­tru­ção rús­tica um as­pecto quase ar­tís­tico. Com o re­ceio esvaindo-se aos pou­cos, a res­pi­ra­ção já quase res­ta­be­le­cida, che­guei o mais perto que pude, até es­ti­car o pes­coço e, com a ca­beça já den­tro do ran­cho, observá-lo in­tei­ra­mente ino­cente, sem se­quer um ruído es­tra­nho que pu­desse compor-se a par­tir do con­tato do vento com o zinco. Natha­niel, por sua vez, es­tava cir­cu­lando lá den­tro, como se es­tu­dasse uma ocu­pa­ção para o lu­gar. De­pois de al­guns mi­nu­tos, fe­cha­mos a porta e fi­ca­mos olhando um para o ou­tro. En­tão, Natha­niel deu-me aquela in­for­ma­ção que vol­tou a enregelar-me a alma:

Bem, meu caro, agora que você tam­bém co­nhece o ran­cho, é pre­ciso que saiba do se­guinte: ja­mais houve, com qual­quer das pes­soas que aqui es­ti­ve­ram, uma sen­sa­ção es­tra­nha se­quer en­quanto elas es­ti­ve­ram acom­pa­nha­das, você com­pre­ende? Ape­nas vindo so­zi­nho, é que você po­derá sa­ber o que existe aí den­tro…

Esse era o se­gredo. As­sim ha­via sido com os pro­pri­e­tá­rios da­que­las ter­ras, com ele mesmo e com um se­leto grupo de cu­ri­o­sos que ja­mais ti­ve­ram co­ra­gem de vol­tar, explicou-me o his­to­ri­a­dor, ao que acres­cen­tei:

E, quem sabe, com as pes­soas que de­sa­pa­re­ce­ram…

Natha­niel não se ma­ni­fes­tou so­bre meu adendo. Ape­nas pros­se­guiu com sua ex­pli­ca­ção. Di­fi­cil­mente, as pes­soas, mesmo as cu­ri­o­sas, deixam-se le­var so­zi­nhas ao ran­cho. Quando surge um ou ou­tro aven­tu­reiro, este pro­cura al­guém para acompanhá-lo. En­tão, en­con­tram ape­nas um ran­cho ve­lho e ino­fen­sivo e, dessa ma­neira, vol­tam frus­tra­dos e dis­pos­tos a des­men­tir qual­quer lenda a res­peito do lo­cal. En­quanto com­pre­en­dia como os as­pec­tos so­bre­na­tu­rais do ran­cho eram man­ti­dos em se­gredo, em mi­nha ca­beça re­ti­nia a ideia ner­vosa de re­tor­nar no dia se­guinte. As­sim como ou­tros, eu encontrava-me frus­trado por não ter visto ou sen­tido a pre­sença so­bre­na­tu­ral, mas, ao con­trá­rio de­les, eu ga­nhara aquela pre­ci­osa in­for­ma­ção, que agora re­no­vava mi­nhas ex­pec­ta­ti­vas e ao mesmo tempo fazia-me tre­mer por re­ceio do des­co­nhe­cido.

Foi sentindo-me dessa ma­neira que pas­sei a noite. Sem dar de­ta­lhes, avi­sei mi­nha fa­mí­lia so­bre meu atraso e aguar­dei o dia se­guinte com an­si­e­dade. Às qua­tro ho­ras da tarde, re­fiz o ca­mi­nho do dia an­te­rior. Dessa vez, en­tre­tanto, eu es­tava só. Quando desci de meu carro, per­cebi que de­ve­ria apressar-me. Uma barra es­cura formava-se no ho­ri­zonte, ame­a­çando tra­zer pe­sa­dos agua­cei­ros. Aos pou­cos, o vento au­men­tava, mas ainda era bas­tante per­cep­tí­vel o tri­lho de ve­ge­ta­ção amas­sada que no dia an­te­rior dei­xá­ra­mos em meio ao ca­na­vial e ao ca­pin­zal que vi­nha a se­guir. A cerca de du­zen­tos me­tros do ran­cho, ob­ser­vei as ime­di­a­ções: nem si­nal de con­ver­sas de tra­ba­lha­do­res ru­rais ou ou­tras vo­zes; só o ruído de pe­que­nos ani­mais sil­ves­tres e o canto, que me pa­re­ceu es­tra­nha­mente dis­tante, dos pás­sa­ros. Por um ins­tante, he­si­tei quanto à sequên­cia de meu pro­jeto.

Passou-me pela ca­beça o fato de que em mo­mento al­gum eu tra­tara aquela si­tu­a­ção com se­ri­e­dade. Não fora a pos­si­bi­li­dade de ha­ver ali, no lu­gar de uma lenda, al­gum tipo de jus­ti­ça­mento apli­cado a tra­ba­lha­do­res, o as­sunto a atrair mi­nha aten­ção. Nem mesmo com as ví­ti­mas dos de­sa­pa­re­ci­men­tos mis­te­ri­o­sos eu me pre­o­cu­pei. Meu ob­je­tivo era ou­tro, algo ba­nal: ma­tar uma sim­ples cu­ri­o­si­dade, certificar-me de que o ran­cho ve­lho que eu ha­via visto há vinte e qua­tro ho­ras não po­dia ser a fonte de uma força des­co­nhe­cida. Ao perder-me en­tre es­ses pen­sa­men­tos, mal per­cebi que con­ti­nuei an­dando em di­re­ção ao ran­cho e que já es­tava atra­ves­sando as úl­ti­mas fo­lha­gens que se fe­cha­vam em re­dor da cons­tru­ção.

Ali, ob­ser­vando as pa­re­des de ma­deira e o te­lhado de zinco, uma sen­sa­ção opres­sora recaiu-me so­bre os sen­ti­dos. O vento zu­nia forte agora e, ao ba­lan­çar as fo­lhas de zinco, pa­re­cia en­toar uma triste me­lo­dia, cu­jas no­tas eu não po­dia de­ci­frar, em­bora so­as­sem ní­ti­das em meus tím­pa­nos. As­sim, ao passo que, em vez de dis­pa­rar ame­dron­tado, meu co­ra­ção mar­chava num com­passo de me­lan­co­lia, rebentou-me, sú­bito, o de­sejo de cor­res­pon­der à busca que pa­re­cia ema­nar de cada cen­tí­me­tro da­quele ran­cho e expandir-se a cada ra­jada da­quele vento; uma busca so­li­tá­ria por al­guém ca­paz de man­ter em se­gredo as von­ta­des pri­mi­ti­vas de uma na­tu­reza su­pos­ta­mente vir­gem. O ho­ri­zonte es­cu­re­cia a cada mi­nuto, o vento zu­nia e a porta do ve­lho ran­cho, pen­dendo para lá e para cá, es­can­ca­rava, di­ante de meus olhos va­ci­lan­tes, a fome de seu de­sejo.

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