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Jornalismo e eleições

sexta-feira, 30 de julho de 2010 Texto de


Capa do NY Ti­mes com Obama eleito: jor­nal de­cla­rou apoio 

É co­mum nos Es­ta­dos Uni­dos jor­nais apoi­a­rem um certo can­di­dato, por exem­plo, à pre­si­dên­cia. O New York Ti­mes, jor­nal mais fa­moso e in­flu­ente do mundo, deu apoio a Obama. O apoio é de­cla­rado. O lei­tor é in­for­mado cla­ra­mente pelo veí­culo so­bre os mo­ti­vos da op­ção. A co­ber­tura jor­na­lís­tica, en­tre­tanto, pro­cura ser isenta. O no­ti­ciá­rio, ao me­nos em tese, não fa­vo­rece o can­di­dato es­co­lhido. Se­ria uma boa no Bra­sil?

Sem­pre que essa dis­cus­são é le­vada à mesa por es­tra­te­gis­tas e di­re­to­res de em­pre­sas de co­mu­ni­ca­ção, uma das prin­ci­pais con­si­de­ra­ções é que o bra­si­leiro não tem ideia do que seja esse tipo de pos­tura. A his­tó­ria da im­prensa no Bra­sil aponta para ou­tra di­re­ção. As­sim, o pú­blico le­va­ria tal­vez muito tempo para con­fiar num veí­culo que se pro­pu­sesse a dar apoio a este ou àquele can­di­dato.

Ou seja, o veí­culo te­ria uma grande ame­aça em seu ca­mi­nho, a mais ter­rí­vel de to­das: a pos­sí­vel perda de sua even­tual cre­di­bi­li­dade, con­quis­tada mui­tas ve­zes em dé­ca­das ou sé­culo.

O fato é que os jor­nais, as emis­so­ras de TV ou qual­quer ou­tro veí­culo de co­mu­ni­ca­ção têm por trás de suas pá­gi­nas, de suas ima­gens, de seus sons, en­fim, de seus me­ca­nis­mos, ho­mens com pre­fe­rên­cias, com pai­xões, com ideias, com opi­niões.

Na hora da co­ber­tura jor­na­lís­tica, é claro, há acima de­les uma li­nha edi­to­rial – que de­pende da se­ri­e­dade de cada veí­culo – ca­paz de fa­zer com que as pre­fe­rên­cias, as pai­xões, as ideias e as opi­niões deem lu­gar à in­ces­sante busca por algo que no jor­na­lismo re­pre­senta uma es­pé­cie de elo per­dido: a ob­je­ti­vi­dade.

Não se­ria, en­tão, mais ade­quado e ho­nesto que os veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção dis­ses­sem ao seu pú­blico “apoi­a­mos fu­lano, mas ja­mais dei­xa­re­mos de lado nosso com­pro­misso com você, cuja pre­fe­rên­cia pode ser di­fe­rente da nossa”? 

Não se­ria me­lhor para o pró­prio pú­blico?

Não sei.

Num país onde a im­prensa é sem­pre tida como uma das ins­ti­tui­ções mais con­fiá­veis, sendo que parte dessa con­fi­ança tal­vez se deva exa­ta­mente ao mo­delo que ado­ta­mos, não será fá­cil para nin­guém se de­ci­dir a que­brar esse pa­ra­digma.

Tam­bém aqui pa­rece va­ler para a so­ci­e­dade o ve­lho dito po­pu­lar: o que os olhos não veem o co­ra­ção não sente. 

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