Primeiros socorros | Márcio ABC

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Primeiros socorros

quarta-feira, 28 de julho de 2010 Texto de

No de­do um fal­so bri­lhan­te
Brin­cos iguais ao co­lar
E a pon­ta de um tor­tu­ran­te
Ban­daid no cal­ca­nhar...

(Tre­cho da mú­si­ca “Dois pra lá, dois pra cá”, de João Bos­co e Al­dir Blanc)

- Bom, vo­cê po­de não acre­di­tar, fi­lho... Aliás, às ve­zes nem eu mes­mo acre­di­to...

Di­zen­do is­so, o ve­lho far­ma­cêu­ti­co de­bru­çou-se so­bre a es­cri­va­ni­nha on­de de­ci­fra­va, com seus gros­sos ócu­los, uma ter­rí­vel re­cei­ta mé­di­ca. Mas o ne­to, um po­e­ta ado­les­cen­te cu­jas ener­gi­as ame­a­ça­vam ex­plo­dir-lhe as têm­po­ras di­an­te de uma his­tó­ria ro­mân­ti­ca, não lhe da­va sos­se­go. Na ver­da­de, não o de­sa­cre­di­ta­va. Que­ria, is­to sim, ani­má-lo a con­tar-lhe aque­le epi­só­dio que até ho­je é lem­bra­do pe­los mais an­ti­gos da­que­la rua de co­mér­cio mo­vi­men­ta­do, mui­to tran­qui­la num pas­sa­do ain­da per­to.

- Vo­cê não se lem­bra mais, po­bre ve­lhi­nho?

O jo­vem de tra­ços acen­tu­a­dos co­mo são os tra­ços dos po­e­tas de­se­nha­va no can­to da bo­ca um meio sor­ri­so irô­ni­co, bem en­fi­a­do pa­ra o la­do do avô. Es­te, de­sis­tin­do dos gar­ran­chos do pa­pel tim­bra­do de um des­ses dou­to­res que não sa­bem na­da de na­da, fez o olhar do­brar a es­qui­na dos aros pre­tos. Ba­lan­çou a ca­be­ça.

- Vai ano­tar?

- Não, vovô. Guar­do tu­do aqui. Te­nho ca­be­ça boa... ain­da.

- O que vo­cê quer sa­ber mais do que já se sa­be?

- Nun­ca ou­vi de vo­cê, a tes­te­mu­nha prin­ci­pal.

- Ah, sim... Meu que­ri­do, não con­fie nas tes­te­mu­nhas...

Riu. Tos­siu um pou­co.

- Es­tá qua­se na ho­ra de ir­mos. Sir­va-me de meu co­nha­que e eu con­ta­rei o que vo­cê qui­ser.

O po­e­ta tam­bém sor­riu.

- Vo­cê sa­be que não po­de.

- A um in­te­res­sa­do, uma tes­te­mu­nha tu­do po­de.

Riu. Um pou­co me­nos ago­ra, mas riu. Tos­siu. Um pou­co mais. Atrás das len­tes, seus olhos bri­lha­vam ao ob­ser­var a be­bi­da es­cor­ren­do, dou­ra­da, pa­ra a bo­ca da pe­que­na ta­ça.

- Is­so, is­so, es­tá óti­mo.

Sor­veu um cur­to go­le. O ne­to tam­bém ser­via-se. O ve­lho não o cen­su­rou.

- Um brin­de, meu que­ri­do, um brin­de a al­guém que ain­da se in­te­res­sa por uma his­tó­ria tão bo­ni­ta.

O po­e­ta não sou­be. Tal­vez o sem­blan­te de fe­li­ci­da­de ex­pos­to pe­lo avô, por ele es­ti­ma­do. Quem sa­be a ân­sia de ou­vir o ca­so. O po­e­ta não sou­be, mas ao ou­vir o ve­lho seus olhos en­che­ram-se de lá­gri­mas.

- Va­mos, di­ga-me.

Dis­far­çou um ar­rou­bo. Vi­rou-se pa­ra de­por a ta­ci­nha so­bre a me­sa e apro­vei­tou pa­ra lim­par os olhos.

- Es­tou pron­to. Sou to­do ou­vi­dos.

- Ele era um su­jei­to di­fe­ren­te, sa­be?

- Co­mo as­sim, di­fe­ren­te?

- É di­fí­cil ex­pli­car. Só mes­mo quem o co­nhe­ceu po­de en­ten­der. Não era co­mo nós. Sim, sim, éra­mos mais jo­vens que ele, é ver­da­de, mas mes­mo as­sim ha­via al­go em sua per­so­na­li­da­de que não po­día­mos ex­pli­car.

- Co­mo vo­cês o co­nhe­ce­ram?

- Aqui. Ele sim­ples­men­te apa­re­ceu. Pe­diu em­pre­go. Te­ve sor­te.

- Mas vo­cês não sa­bi­am quem ele era, de on­de veio?

- Sa­bía­mos ape­nas que mo­ra­va nu­ma pen­são e que a mãe mor­re­ra pou­co an­tes que ele se mu­das­se pa­ra cá. Era uma pes­soa re­ser­va­da. Não era fá­cil que al­guém pu­des­se imis­cuir-se em sua vi­da.

- Mas não ti­nha nin­guém por aqui?

- Não. Ape­nas nós. Ami­gos um pou­co mais no­vos que ele. Tal­vez mais co­le­gas do que ami­gos. Às ve­zes, saía­mos pa­ra al­gu­ma fes­ta, al­gum bar, mas is­so não acon­te­cia com frequên­cia. Nos­sas re­la­ções eram mui­to mais pro­fis­si­o­nais, vo­cê com­pre­en­de?

- Sim, con­ti­nue, vovô.

- Acon­te­ceu que, não se sa­be exa­ta­men­te quan­do, ela co­me­çou a vir. Um dia, bus­ca­va al­go­dão. No ou­tro, al­gum xa­ro­pe. Ou um re­mé­dio qual­quer. Ál­co­ol, es­sas coi­sas.

- Era uma cli­en­te co­nhe­ci­da?

- Não, não. Até o des­fe­cho, nun­ca nos in­te­res­sa­mos. E quan­do nos in­te­res­sa­mos, ela eva­po­rou. Sim­ples­men­te su­miu. Não sou­be­mos mais de­la. Na­que­les di­as que an­te­ce­de­ram o in­ci­den­te, ape­nas con­ver­sá­va­mos so­bre seus atri­bu­tos. Era uma mo­ça de be­le­za for­mi­dá­vel. Ele apai­xo­nou-se com­ple­ta­men­te.

Fez um si­nal pa­ra o jo­vem po­e­ta, que ime­di­a­ta­men­te, sem ques­ti­o­ná-lo, de­bru­çou a gar­ra­fa so­bre uma ta­ça e de­pois so­bre a ou­tra.

- Ele fa­la­va de­la pa­ra vo­cês?

- De mo­do al­gum!

O ve­lho sen­tiu a be­bi­da lam­ber-lhe a gar­gan­ta, fe­chou os olhos e ba­lan­çou a ca­be­ça.

- Ele fa­la­va mui­to pou­co. Eu dis­se a vo­cê: era di­fe­ren­te. Era re­ca­ta­do. Pa­re­cia guar­dar to­das as su­as opi­niões, tu­do o que sen­tia. Mas nós vía­mos a re­a­ção de­le quan­do ela en­tra­va. No co­me­ço, zom­ba­mos, é ver­da­de. Mas as coi­sas fo­ram se tor­nan­do mais sé­ri­as. Da par­te de­le, é cla­ro.

Ras­pou a gar­gan­ta. Tom­bou mais um pou­co da ta­ça.

- Mas ela não cor­res­pon­dia em na­da?

- Ora, e cor­res­pon­der a quê? Ele mal a en­ca­ra­va. Es­tou di­zen­do: era um su­jei­to es­qui­si­to. A ver­da­de é es­sa.

- Bem, bem, e co­mo as coi­sas se de­ram?

- Ha­via al­gum tem­po que ela vi­nha à far­má­cia. Co­mo eu dis­se, no iní­cio, zom­bá­va­mos de­le. Fa­lá­va­mos coi­sas en­gra­ça­das pa­ra que ele re­a­gis­se. Que ele era mais ve­lho que ela. Que ela era ain­da um be­bê per­to de­le. Fa­zía­mos es­sas go­za­ções que tem­po ne­nhum é ca­paz de mu­dar. Quan­do ve­mos um ami­go nes­se es­ta­do, vo­cê de­ve sa­ber... Al­go se diz a ele.

- E ele na­da?

- Ne­nhum pio.

O po­e­ti­nha vi­rou a ta­ça. E ago­ra, sem que o avô fi­zes­se qual­quer men­ção, ele mes­mo repôs o co­nha­que. Vi­e­ram per­gun­tar se de­ve­ri­am cha­mar o tá­xi. O ve­lho fez um si­nal com a mão. O ne­to fe­chou a por­ta do es­cri­tó­rio. Sen­tou-se di­an­te do avô.

- Es­tá bem, ago­ra va­mos em fren­te. Con­te-me o des­fe­cho.

- Bem, um cer­to dia, sem que es­pe­rás­se­mos, ele nos cha­mou pa­ra sair. Ima­gi­ne vo­cê nos­sa sur­pre­sa. Tra­ba­lhá­va­mos jun­tos ha­via pe­lo me­nos um ano. E nun­ca, nun­ca mes­mo, ele nos con­vi­dou a coi­sa al­gu­ma. Sem­pre eram os ou­tros que o cha­ma­vam pa­ra is­so e aqui­lo.

- E vo­cês?

- Bem, mes­mo que ti­vés­se­mos o mais im­por­tan­te dos com­pro­mis­sos, tí­nha­mos de dar um jei­to. Vo­cê sa­be: cu­ri­o­si­da­de ma­ta.

Riu aque­le ri­so en­fer­ru­ja­do, se­gui­do de uma bre­ve tos­se. Ago­ra, ape­nas olhou pa­ra a ta­ça que aca­ri­nha­va en­tre os de­dos.

- Nós fo­mos a um bar aqui per­to. Es­tá­va­mos em qua­tro. Os três mo­ços que tra­ba­lha­vam aqui e ele. Pe­di­mos nos­sas cer­ve­jas, co­me­ça­mos a co­mer al­guns pe­tis­cos, tu­do com a mai­or na­tu­ra­li­da­de. Não que­ría­mos dar a en­ten­der que es­tá­va­mos an­si­o­sos.

- Mas es­ta­vam.

- Sim, cla­ro, não vía­mos a ho­ra de ou­vir­mos o que ele ti­nha a nos di­zer.

- E o que foi que ele dis­se, vovô?

- Ele não nos dis­se gran­de coi­sa, es­sa é a ver­da­de. Fi­ca­mos de cer­to mo­do de­cep­ci­o­na­dos.

- Co­mo as­sim?

- Fo­mos pa­ra o bar es­pe­ran­do uma gran­de re­ve­la­ção da­que­le su­jei­to tí­mi­do, in­tros­pec­ti­vo, do qual gos­tá­va­mos por­que ti­nha um ca­ris­ma, al­go di­fí­cil de ex­pli­car, co­mo eu dis­se a vo­cê, al­go que nos fa­zia es­ti­má-lo.

O ve­lho pa­rou por um ins­tan­te com o mo­vi­men­to da ta­ça. Fi­tou a pa­re­de, mas o ne­to sou­be que ele olha­va atra­vés de­la, tal­vez pa­ra um pas­sa­do já ina­ces­sí­vel co­mo são to­dos os pas­sa­dos.

- Vovô?

- Sim, sim...

O ve­lho ba­lan­çou afir­ma­ti­va­men­te a ca­be­ça. To­mou ou­tro go­le.

- Ele nos dis­se is­to: “Te­nho uma es­tra­nha sen­sa­ção”.

O jo­vem po­e­ta re­me­xeu-se na ca­dei­ra. Lan­çou mão de um úl­ti­mo go­le e vol­tou a en­cher a ta­ça.

- Uma es­tra­nha sen­sa­ção??? Só is­so?

O avô riu.

- Des­de quan­do vo­cê to­ma co­nha­que?

- Des­de ho­je. Va­mos lá, vovô, va­mos lá...

- Bem, ele ex­pli­cou va­ga­men­te a sen­sa­ção. Sa­bía­mos que ele es­ta­va apai­xo­na­do. E ele sa­bia que nós sa­bía­mos dis­so. Pa­ra su­as pos­si­bi­li­da­des, até que ele fa­lou bas­tan­te na­que­la noi­te. O di­a­bo é que ele mes­mo não en­ten­dia o que o atraía tan­to na ga­ro­ta, en­ten­de?

- Se eu en­ten­do? Ora es­sa, al­guém que se apai­xo­na nun­ca sa­be di­rei­to o mo­ti­vo des­sa atra­ção!

- Sim, mas ele acha­va que ha­via al­go mais, al­go que ele pre­ci­sa­va des­co­brir. Al­gum as­pec­to da mo­ça! Um de­ta­lhe no ros­to, o jei­to de an­dar, os olhos, o ca­be­lo, a voz? Não, meu que­ri­do, ele não sa­bia!

- E vo­cês o aju­da­ram?

- Bem, nós evi­ta­mos qual­quer zom­ba­ria a par­tir da­que­le mo­men­to. No fun­do, que­ría­mos que ele to­mas­se co­ra­gem e dis­ses­se a ela o que sen­tia.

- E ele fez is­so?

- Não, ab­so­lu­ta­men­te. Nun­ca...

- En­ten­do, en­tão va­mos ao que in­te­res­sa?

- Acho que al­guém aqui me pe­diu pa­ra con­tar uma his­tó­ria!

O ve­lho me­teu-se um ar zom­be­tei­ro, irô­ni­co. De­pois, gar­ga­lhou. E tos­siu.

- Es­tá cer­to, es­tá cer­to... Con­te-a, va­mos lá.

- O que mais ha­ve­ria pa­ra con­tar, se­não o que vi­mos na­que­la tar­de­zi­nha? Ele a es­pe­rou o dia to­do. Seus olhos não po­di­am dis­far­çar. Quan­do ela che­gou, ele foi aten­dê-la. Nós con­ti­nu­a­mos com nos­sas ta­re­fas, co­mo não po­de­ria dei­xar de ser. Até que ou­vi­mos um mo­vi­men­to brus­co atrás de uma das pra­te­lei­ras. Eu fiz si­nal pa­ra os ou­tros que con­ti­nu­as­sem a agir na­tu­ral­men­te, en­quan­to ou­vía­mos aque­les sus­pi­ros, co­mo se hou­ves­se um pran­to que não pu­des­se ser li­ber­ta­do.

- Mas vo­cê foi até eles?

- Sim, fui. Pé an­te pé, cui­da­do­sa­men­te. Eu ima­gi­na­va que, fi­nal­men­te, ele qui­se­ra in­ter­rom­per seu so­fri­men­to. Pen­sei que ele ti­ves­se re­sol­vi­do di­zer tu­do a ela. Ele ha­via se abai­xa­do. Por ci­ma da pra­te­lei­ra, num dos cor­re­do­res, eu só po­dia ver os ca­be­los de­la.

- Mas ela fa­zia al­go? Fa­la­va al­go?

- Ela ape­nas olha­va pa­ra ele, atrás de si. Ele es­ta­va se­gu­ran­do uma das per­nas da me­ni­na. Ela do­bra­va uma per­na pa­ra que ele pu­des­se se­gu­rá-la e equi­li­bra­va-se na ou­tra, apoi­an­do-se na pra­te­lei­ra. Ao avis­tá-lo, vi que ele son­da­va cui­da­do­sa­men­te a ba­ta­ta da per­na di­rei­ta da mo­ci­nha. E bem bai­xi­nho ele di­zia: é is­so, é is­so. Bei­ja­va-a na ba­ta­ta da per­na. E bei­ja­va com tan­to ar­dor que o ban­daid que ali es­ta­va – o ban­daid que to­dos os di­as ali es­ta­va e que fi­nal­men­te fo­ra des­co­ber­to por ele co­mo o ob­je­to de sua atra­ção – ele o bei­ja­va com tan­to ar­dor que o ban­daid des­co­lou-se da per­na. Foi quan­do vi­mos. Sim, nós vi­mos, eu e ele...

- Vi­ram o quê, vovô? Por fa­vor, di­ga...

- Vi­mos que ali, na ba­ta­ta da per­na da ga­ro­ta, a par­tir da mar­ca bran­ca dei­xa­da na pe­le pe­lo fre­quen­te uso do ban­daid, exa­ta­men­te da­li, ex­pan­dia-se um ti­po de cha­ga, uma fe­ri­da ver­me­lha, la­te­jan­te, as­sus­ta­do­ra.

- Só vo­cês es­ta­vam ali?

- Sim, ape­nas a ga­ro­ta, ele e eu. Ago­ra ha­via um si­lên­cio en­sur­de­ce­dor pai­ran­do so­bre a at­mos­fe­ra da far­má­cia. Pa­re­cia que es­tá­va­mos fo­ra da re­a­li­da­de, não sei se pos­so ex­pli­car aque­les mo­men­tos. Eu pu­de vê-la com um le­ve sor­ri­so nos lá­bi­os, en­quan­to olha­va pa­ra ele, pa­ra sua ex­pres­são en­lou­que­ci­da.

- Mas ela ria de quê? Do que ela ria, afi­nal?

O ve­lho vi­rou a ta­ça sem sa­ber se ha­via ain­da al­gu­ma go­ta. Sus­pi­rou.

- Quem po­de sa­ber? Se­ria do que nós só sa­be­ría­mos de­pois, se­ria de al­gu­ma sen­sa­ção de in­fi­ni­ta gló­ria ao sa­ber an­tes do que nós só sa­be­ría­mos de­pois? Do que pa­pai con­se­guiu en­co­brir na San­ta Ca­sa pa­ra evi­tar mai­o­res po­lê­mi­cas? Do que al­guns me­ses de­pois en­lou­que­ce­ria o mé­di­co res­pon­sá­vel pe­lo ca­so? E quem sa­be até mes­mo pa­pai, que tam­bém se foi tão ce­do?

- En­tão é ver­da­de? O que di­zem é mes­mo re­al?

O ve­lho fi­tou no­va­men­te um pon­to qual­quer na pa­re­de do es­cri­tó­rio. Mas, cla­ro, não era pa­ra lá que olha­va.

- O que é a ver­da­de, meu que­ri­do? É o que nos con­tam se­ri­a­men­te? É o que nos con­fes­sam? É so­men­te o que ve­mos? Não sei o que é ver­da­de ou o que é re­al. Sei ape­nas o que vi.

- Sim, sim, e o que o se­nhor viu exa­ta­men­te?

- Quan­do fi­ze­ram a au­tóp­sia, só pa­pai e eu es­tá­va­mos aguar­dan­do. O mé­di­co cha­mou ape­nas pa­pai, mas eu es­prei­tei pe­la pe­que­na fres­ta da por­ta que um des­cui­do de­les per­mi­tiu. A úni­ca coi­sa que ou­vi per­fei­ta­men­te da par­te do mé­di­co foi: “Não ha­via, o se­nhor com­pre­en­de? Não ha­via! Co­mo po­de ser?”. E da bo­ca de pa­pai: “Co­mo é pos­sí­vel um co­ra­ção de­sa­pa­re­cer nu­ma sa­la de au­tóp­sia, meu ca­ro?”.

- Mas... E o que o mé­di­co ex­pli­cou?

- Quan­do ou­vi aqui­lo, eu os dei­xei e saí de lá. Eu pre­ci­sa­va to­mar ar. Es­ta­va su­fo­can­do. Pa­re­cia que eu não res­pi­ra­va des­de que tu­do ti­nha acon­te­ci­do, ho­ras an­tes, na far­má­cia; des­de o mo­men­to em que eu vi aque­la ba­ta­ta da per­na da ga­ro­ta: uma cha­ga abrin­do-se, alar­gan­do-se em tor­no da área mar­ca­da pe­lo ban­daid. Uma cha­ga re­ve­lan­do um pe­que­no co­ra­ção, que pa­re­cia cres­cer a ca­da se­gun­do, pul­san­do, pul­san­do. E no ar a voz en­tre­cor­ta­da do nos­so ami­go res­so­an­do co­mo se dei­xas­se a gar­gan­ta es­pre­men­do-se en­tre pa­re­des es­trei­tas: “Eu dei a vo­cê, dei a vo­cê meu co­ra­ção”.

A bo­ca do jo­vem po­e­ta es­ta­va en­tre­a­ber­ta. O ve­lho fi­ta­va o na­da. Um ins­tan­te de­pois, co­mo se ti­ves­sem sin­cro­ni­za­do seus mo­vi­men­tos, am­bos vol­ta­ram-se pa­ra a gar­ra­fa de co­nha­que so­bre a es­cri­va­ni­nha. Mas ela já es­ta­va va­zia.

(Fim)

Ve­ja abai­xo Elis Re­gi­na can­tan­do “Dois pra lá, dois pra cá”

Ve­ja abai­xo a le­tra de “Dois pra lá, dois pra cá”

Sen­tin­do o frio
Em mi­nha al­ma
Te con­vi­dei prá dan­çar
A tua voz me acal­ma­va
São dois prá lá
Dois prá cá...

Meu co­ra­ção trai­ço­ei­ro
Ba­tia mais que o bongô
Tre­mia mais que as ma­ra­cas
Des­com­pas­sa­do de amor...

Mi­nha ca­be­ça ro­dan­do
Ro­da­va mais que os ca­sais
O teu per­fu­me gar­dê­nia
E não me per­gun­tes mais...

A tua mão no pes­co­ço
As tu­as cos­tas ma­ci­as
Por quan­to tem­po ron­da­ram
As mi­nhas noi­tes va­zi­as...

No de­do um fal­so bri­lhan­te
Brin­cos iguais ao co­lar
E a pon­ta de um tor­tu­ran­te
Band-aid no cal­ca­nhar...

Eu ho­je, me em­bri­a­gan­do
De wisky com gua­ra­ná
Ou­vi tua voz mur­mu­ran­do
São dois prá lá
Dois prá cá...

No de­do um fal­so bri­lhan­te
Brin­cos iguais ao co­lar
E a pon­ta de um tor­tu­ran­te
Band-aid no cal­ca­nhar...

Eu ho­je, me em­bri­a­gan­do
De wisky com gua­ra­ná
Ou­vi tua voz mur­mu­ran­do
São dois prá lá
Dois prá cá...

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