Contos

Na delegacia de polícia

segunda-feira, 26 de julho de 2010 Texto de


Sei lá, dou­tor, a ho­ra que eu en­trei no quar­to e vi aque­le ho­mão na­que­la po­si­ção foi tão en­gra­ça­do, mas tão en­gra­ça­do, que eu não con­se­gui se­gu­rar. Ima­gi­ne o se­nhor: uma pes­soa che­ga pra tra­ba­lhar to­do dia e to­do dia ele não es­tá lá, ele já foi pro ser­vi­ço de­le não sei on­de. To­do dia ele já saiu, o se­nhor me com­pre­en­de?

A gen­te faz as mes­mas coi­sas um san­to dia atrás do ou­tro, do mes­mo jei­ti­nho, por­que pra que fa­zer de ou­tro mo­do, o se­nhor não acha? Eu che­go, pe­go mi­nha cha­ve na por­ta­ria do pré­dio e su­bo. Nun­ca per­gun­to se ele já saiu. Por­que ele sem­pre já saiu, nun­ca nun­ca que ele es­tá em ca­sa.

Pra di­zer a ver­da­de, dou­tor, tem se­ma­na que pas­sa e eu nem ve­jo a ca­ra de­le. É di­to e fei­to, sa­be? É pe­gar a cha­ve, di­zer bom dia pa­ra o por­tei­ro e su­bir. Abrir a por­ta e já ir jun­tan­do uma ou ou­tra ba­gun­ça que fi­ca pe­lo chão. O se­nhor sa­be co­mo é ca­sa de ho­mem so­zi­nho, né?

A pri­mei­ra coi­sa que eu fa­ço é ir ao quar­to de­le e pe­gar a rou­pa su­ja pra la­var. Não gos­to nem um pou­qui­nho de la­var rou­pa de­pois das dez. Ah, não, is­so é que não. Aca­bo lo­go com es­sa his­tó­ria. Gos­to mes­mo é de ajei­tar o quar­to de­le, dei­xar o ba­nhei­ro bem lim­pi­nho, lus­trar os mó­veis, es­sas coi­sas, sa­be, dou­tor?

Ago­ra, o se­nhor acha que eu po­dia es­pe­rar uma coi­sa da­que­la? Ah, não, is­so é que não. Quem se acos­tu­ma a fa­zer tu­do igual não es­pe­ra na­da di­fe­ren­te, ora es­sa. Três ve­zes por se­ma­na é a mes­mís­si­ma coi­sa, sem ti­rar nem pôr.

Mas des­sa vez! Ah, dou­tor, nem me fa­le!

Ima­gi­ne o se­nhor: che­gar lá e dar com aque­le ho­mão na­que­la po­si­ção! Ah, não, is­so é que não. Ai, meu Deus! Co­mo eu pos­so con­tar ao dou­tor? Bom, ele ta­va lá, com a ca­be­ça en­ter­ra­da no tra­ves­sei­ro gran­dão de­le, os dois bra­ços de­bai­xo do tra­ves­sei­ro, as­sim, de jo­e­lho fin­ca­do no col­chão, sa­be? Ah, meu Deus! O se­nhor me des­cul­pe. Ele ta­va lá, de qua­tro mes­mo, ora es­sa.

A ca­ma de­le, dou­tor, fi­ca as­sim, olha, nes­sa po­si­ção, e a por­ta fi­ca bem aqui, o se­nhor com­pre­en­de? Quem en­tra já dá de ca­ra no pé da ca­ma. En­tão, o se­nhor ima­gi­ne uma coi­sa des­sa: aque­le ho­mão pe­la­do e de qua­tro!

Ah, dou­tor! Não ti­nha quem não ris­se. Ah, não, is­so é que não.

De ca­ra, eu le­vei um sus­to ven­do aque­las es­cu­ro­si­da­des to­das, afe! Me se­gu­rei na saia de tan­to sus­to, mas quan­do me deu von­ta­de de rir, ai, aque­la ri­sa­da veio de um jei­to que só ven­do. Aque­le ho­mão pe­la­do de qua­tro de bun­da pra ci­ma, de ca­ra pra mim! Quer di­zer, de bun­da pra mim!

Co­mo eu ia sa­ber do pro­ble­ma de­le, ora es­sa? Eu nun­ca sou­be des­se pro­ble­ma de co­lu­na, não, dou­tor! Diz que tra­va, né? Ah, dou­tor, ago­ra eu sei. Me dá até uma pon­ta­di­nha de pe­na. Mas na ho­ra, co­mo eu po­dia sa­ber, dou­tor? Ah, não, is­so é que não.

Eu ri mes­mo. Fei­to lou­ca! Não sei o que me deu. Ain­da mais quan­do ele co­me­çou a vi­rar a ca­be­ça pro meu la­do! Ah, dou­tor! Eu fui rin­do, rin­do que não po­dia mais co­mi­go. Fui rin­do, rin­do e in­do de fas­to até a sa­la. Dei­tei no ta­pe­te e a ri­sa­da era tan­ta que sem que­rer eu er­guia as per­nas. Eu gar­ga­lha­va e er­guia as per­nas.

O se­nhor sa­be co­mo é uma boa ri­sa­da, não sa­be, dou­tor? A gen­te fi­ca não sei de que jei­to.

Quan­do vi, o des­gra­ça­do ti­nha le­van­ta­do, dou­tor! Não, ago­ra ele não ta­va mais de qua­tro, não! Não ta­va mais de bun­da pra ci­ma, não! Nem ti­nha mais dor na co­lu­na! Ti­nha na­da, não, dou­tor! Eu não po­dia pa­rar de rir. E quan­do vi, o des­gra­ça­do sen­tou bem em fren­te de on­de eu ta­va dei­ta­da no ta­pe­te, rin­do, rin­do.

E sen­ta­do lá bem fol­ga­dão, ele co­me­çou a rir de mim. Eu ia lá lem­brar que eu ti­nha ti­ra­do a cal­ci­nha por­que ela ta­va me aper­tan­do to­di­nha? Ah, dou­tor, não quei­ra sa­ber o que é uma cal­ci­nha te pe­gan­do, te aper­tan­do. Ah, não, is­so é que não. E o des­gra­ça­do fa­zen­do aque­la bal­búr­dia to­da por cau­sa dis­so. Ele fa­lou as­sim: que po­si­ção mais es­drú­xu­la, do­na Mar­ga­ri­da! E ria fei­to bes­ta.

Ele ria fei­to bes­ta, dou­tor! Ah, te­nha dó...

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