Contos

Arquiteto da loucura

quarta-feira, 21 de julho de 2010 Texto de

Por aí, em meio ao de­sa­tino des­sas ruas caó­ti­cas, chamam-me louco. Às ve­zes, sen­tado na sar­jeta ou dei­tado em be­cos, en­tre la­tas de lixo que me abri­gam do frio, pego-me a pen­sar: será que sou mesmo louco? Se­ria pos­sí­vel à mente hu­mana en­gen­drar uma farsa tão per­feita? Pode ha­ver uma cir­cuns­tân­cia mais ter­rí­vel que esta e ainda as­sim firmar-se como in­ver­dade? Riem-se de mi­nha an­gús­tia os pou­cos dis­pos­tos a ouvir-me. Pedem-me para contar-lhes de novo mi­nha his­tó­ria, de­pois abandonam-me so­zi­nho à mercê do de­ses­pero sem­pre pronto a exigir-me re­fém de seu cár­cere. Em meu ca­mi­nho, não se po­dem mais con­tar as oca­siões em que es­tive perto de pôr um fim a isso tudo. En­tre­tanto, não tive co­ra­gem no co­meço, e agora já acostumei-me ao con­fronto. Aprendi a es­pe­rar que a tur­bu­lên­cia vi­o­lenta de meus ner­vos se vá e deixe-me uma vez mais com o fi­apo de es­pe­rança ao qual me apego para sustentar-me à vida. Sou um des­gra­çado, fie-se nisto quem vier a ler-me um dia. Ser hu­mano al­gum de­ve­ria me­re­cer des­tino se­me­lhante, mas aqui es­tou, certo de mi­nha sina e ao mesmo tempo ater­ro­ri­zado di­ante dela. Peço-lhe: leia-me e diga-me se es­tou louco.

O ar­qui­teto Ro­dolfo Bah­nhof, cuja as­cen­dên­cia eu­ro­peia permite-lhe um bri­lhante iní­cio de car­reira, es­pe­ci­al­mente a par­tir de con­ta­tos com im­por­tan­tes mul­ti­na­ci­o­nais ins­ta­la­das no país, leva tam­bém uma in­ve­já­vel vida pes­soal. É ca­sado com Isa­dora Gu­ti­er­rez Bah­nhof, ar­tista plás­tica de re­nome na­ci­o­nal. Após cinco anos de vida con­ju­gal, Ro­dolfo e Isa­dora já con­tam dois fi­lhos, Ema­nuel e Ly­dia, mas de­vem pa­rar por aí: como um mal que se es­pa­lha nos tem­pos mo­der­nos, as ati­vi­da­des de am­bos não lhes per­mi­tem dedicar-se como sem­pre ne­ces­si­tam os fi­lhos.

Os qua­tro mo­ram num so­brado de porte mé­dio, com­prado pouco an­tes do ca­sa­mento e lo­ca­li­zado num bom bairro re­si­den­cial. Na parte de cima da re­si­dên­cia, fi­cam os quar­tos com ba­nhei­ros e uma sala onde a fa­mí­lia reúne-se à noite para ver te­le­vi­são, ou­vir mú­sica, ler ou sim­ples­mente divertir-se com as pe­ri­pé­cias das cri­an­ças, o me­nino com qua­tro e a me­nina com três anos. No tér­reo, há um am­plo li­ving, a co­zi­nha, a sala de al­moço, mais ba­nhei­ros, um cô­modo des­ti­nado para a des­pensa, o es­cri­tó­rio onde Ro­dolfo tra­ba­lha quando está em casa e o ate­liê de Isa­dora. Além disso, seguem-se uma área de ser­viço, chur­ras­queira, pis­cina e um jar­dim. Tra­ba­lham na casa uma go­ver­nanta, uma babá e um apo­sen­tado que cuida do jar­dim e tam­bém é uma es­pé­cie de faz-tudo.

O co­ti­di­ano de Ro­dolfo é fre­quen­te­mente atri­bu­lado, com vi­si­tas a ter­re­nos onde se­rão er­gui­dos pré­dios, acom­pa­nha­mento de me­di­ções, dis­cus­sões so­bre os pro­je­tos que ele pos­te­ri­or­mente leva ao pa­pel e mui­tas con­ver­sas te­lefô­ni­cas. Às ve­zes, sai logo cedo, após o café da ma­nhã, e só volta à noite, quando Isa­dora e as cri­an­ças já ter­mi­na­ram o jan­tar. Em ou­tras oca­siões, passa o dia tran­cado em sua sa­leta, con­cen­trado nos vá­rios pro­je­tos si­mul­tâ­neos que leva adi­ante. In­va­ri­a­vel­mente, debruça-se so­bre o tra­ba­lho até mesmo nos fins de se­mana. Já Isa­dora man­tém uma ro­tina mais or­ga­ni­zada. Quase nunca sai du­rante o dia, a não ser para re­sol­ver as­sun­tos pes­so­ais ou de Ro­dolfo e das cri­an­ças. Passa as ma­nhãs no ate­liê, al­moça por volta das duas, e apro­veita a tarde para fa­zer con­tato com agen­tes que co­mer­ci­a­li­zam seus qua­dros e pro­gra­mam suas ex­po­si­ções. Quando es­tas acon­te­cem, Isa­dora al­tera com­ple­ta­mente seu dia a dia para es­tar sem­pre pre­sente. As cri­an­ças fre­quen­tam a es­co­li­nha na parte da ma­nhã e de­pois têm a com­pa­nhia da babá. Pouco tra­ba­lho dão aos pais. Aos sá­ba­dos, ge­ral­mente a fa­mí­lia faz um pas­seio que con­tem­ple os an­seios de di­ver­são dos pe­que­nos.

Ro­dolfo, em­bora cons­tan­te­mente me­tido com seus pro­je­tos, não con­se­gue es­con­der o ciúme que sente por Isa­dora. Não chega a ser algo do­en­tio, mas em cer­tas oca­siões gera um grande re­bu­liço em sua con­cen­tra­ção pro­fis­si­o­nal, mesmo a ponto de fazê-lo in­ter­rom­per seu tra­ba­lho. Isso ocorre com frequên­cia em épo­cas de ex­po­si­ções. Isa­dora, com seus olhos ver­des, pele le­ve­mente mo­rena, corpo es­guio e uma ex­pres­são de sim­pa­tia, di­fi­cil­mente deixa de en­can­tar aque­les que con­vi­vem com ela, seja em seu co­ti­di­ano, seja por al­guns ins­tan­tes nes­sas con­ver­sas du­rante um evento ar­tís­tico. Houve um pe­ríodo, logo no co­meço do ca­sa­mento, em que Ro­dolfo reu­nia ab­so­luta cer­teza de que Isa­dora o traía com um de seus agen­tes. Certa noite, dis­posto a co­me­ter um de­sa­tino, ele seguiu-a a uma reu­nião, se­gundo ela, de tra­ba­lho. No res­tau­rante, o ma­rido ciu­mento pôde observá-la con­ver­sando ale­gre­mente com o tal agente, este acom­pa­nhado de seu na­mo­rado. A par­tir daí, Ro­dolfo ten­tou ser mais co­me­dido, mas nem sem­pre con­se­guia. Em ou­tra opor­tu­ni­dade, por pouco não es­pan­cou um ra­paz no meio de uma das ex­po­si­ções da mu­lher. O su­jeito re­al­mente foi ino­por­tuno, se­gu­rando a mão de Isa­dora por um longo pe­ríodo, num dos can­tos do sa­lão. Ex­tre­ma­mente edu­cada, ela não con­se­guia desvencilhar-se do ad­mi­ra­dor. Foi quando o ma­rido aproximou-se e, brus­ca­mente, aca­bou com a in­con­ve­ni­ên­cia.

Isa­dora, ao con­trá­rio, não de­mons­tra qual­quer con­tra­ri­e­dade com o as­sé­dio que vez ou ou­tra o ma­rido so­fre por causa de seu porte atlé­tico. Ro­dolfo, na época de es­tu­dante, fa­zia parte da equipe de pólo aquá­tico da uni­ver­si­dade, e até hoje pra­tica o es­porte re­gu­lar­mente com ex-colegas de es­cola que man­têm um time ape­nas para jo­gos amis­to­sos. Tal­vez por sentir-se ab­so­lu­ta­mente se­gura ou por prender-se a uma pos­tura não muito co­mum en­tre os que são apai­xo­na­dos, Isa­dora ja­mais permitiu-se à mais dis­creta cena de ciúme. Isso, con­tudo, não sig­ni­fica que ela trate Ro­dolfo fri­a­mente ou que não o de­seje. En­tre qua­tro pa­re­des, longe dos olha­res in­qui­si­do­res dos em­pre­ga­dos ou da pre­sença ino­cente das cri­an­ças, seu fogo arde. Seus seios gran­des são ca­pa­zes de ar­re­ba­tar o ma­rido num só ins­tante. Ela sabe que esse é o ponto fraco de Ro­dolfo. Ele li­te­ral­mente en­lou­quece. E ela aproveita-o em todo o seu vi­gor fí­sico. Numa de suas úl­ti­mas ex­po­si­ções, quando to­dos já ti­nham saído, ela puxou-o para um canto e ali mesmo, em meio às ta­ças e gar­ra­fas va­zias, atiçou-lhe até que os dois encheram-se de pra­zer. As­sim é Isa­dora, apa­ren­te­mente cal­cu­lista, mas um re­de­moi­nho sem rumo quando se en­trega à pai­xão.

Há, en­tre­tanto, algo que Isa­dora não ima­gina. Ro­dolfo deixou-se le­var por uma re­la­ção ex­tra­con­ju­gal. Tudo en­tre ele e a amante ocorre de ma­neira ex­tre­ma­mente dis­creta. Ela vive um ca­sa­mento in­fe­liz e en­con­trou nele o que sem­pre bus­cou sem su­cesso no ma­rido: ca­ri­nho e aten­ção. Nem sem­pre Ro­dolfo con­se­gue dispensá-los a Gabi, mas, sem­pre que pode, o faz. Gabi, ape­sar de muito nova ainda, tam­bém tem um fi­lho pe­queno. Mora dis­tante do bairro de Ro­dolfo e sabe das li­mi­ta­ções e dos ris­cos de sua re­la­ção. Conheceram-se, por iro­nia, numa ex­po­si­ção de Isa­dora. Gabi con­cluía o curso de jor­na­lismo e pro­du­zia uma re­por­ta­gem para um jor­nal la­bo­ra­tó­rio da fa­cul­dade. Muito as­se­di­ada na­quela noite, Isa­dora não pôde atendê-la, o que pro­vo­cou o en­con­tro com Ro­dolfo. Este, para ser gen­til com a es­tu­dante, fez-lhe com­pa­nhia, fa­lou so­bre Isa­dora e tudo mais, em­bora no fim do en­con­tro res­tasse da parte da moça ape­nas o in­te­resse por ele. De­pois, tudo cor­reu como sem­pre: falaram-se por te­le­fone, mar­ca­ram um en­con­tro etc e tal. Na ver­dade, Ro­dolfo tenta desde o iní­cio dissuadir-se da ideia de con­du­zir a re­la­ção, mas até hoje não ven­ceu o de­sejo de li­dar tam­bém com uma mu­lher que não seja a sua, e isso, acre­dite ou não, o faz so­frer. Às ve­zes, no meio da noite, en­tre pe­sa­de­los, ele acorda com ter­rí­veis do­res de ca­beça. E, para seu bem, Isa­dora está ali, ao seu lado, para consolá-lo.

Re­la­ta­dos es­ses por­me­no­res, que, não du­vide, se­rão de­ci­si­vos ao fim desta his­tó­ria, pas­se­mos ao de­sen­ro­lar do fato prin­ci­pal. Desde que fo­ram mo­rar no so­brado, logo que se ca­sa­ram, Ro­dolfo e Isa­dora deparam-se quase di­a­ri­a­mente com um ra­paz de nome Ve­nân­cio. Com o per­dão da ex­pres­são, trata-se o tal de um corpo es­tra­nho para um bairro que, se não é lu­xu­oso, reúne mo­ra­do­res com di­nheiro su­fi­ci­ente para vi­ver bem. Ve­nân­cio vive mal­tra­pi­lho, apa­renta ter mais de qua­renta anos quando na ver­dade ainda não conta trinta, é um po­bre di­abo pe­ram­bu­lando pe­las ruas bem-cuidadas do bairro. Nos pri­mei­ros dias, assustaram-se com a pre­sença cons­tran­ge­dora, mas logo per­ce­be­ram que to­dos dali o co­nhe­ciam, forneciam-lhe co­mida, ci­gar­ros, di­nheiro, en­fim, garantiam-lhe uma quase-vida, uma so­bre­vida. Bem, Ro­dolfo, desde a uni­ver­si­dade, interessou-se em apoiar pro­je­tos so­ci­ais, e por isso não fo­ram pou­cas as oca­siões em que con­ver­sou com mo­ra­do­res de rua. De­pois da con­clu­são dos es­tu­dos, do ca­sa­mento, do in­gresso na pro­fis­são e mais adi­ante, do com­pro­misso ge­rado pe­los fi­lhos, Ro­dolfo afastou-se des­ses ca­pri­chos, ou se­riam res­pon­sa­bi­li­da­des so­ci­ais? O fato é que o tal Ve­nân­cio, de al­guma forma, des­per­tou nele esse lado con­des­cen­dente com os di­tos me­nos abas­ta­dos. En­fim, pro­cu­rou ajudá-lo.

Com o pas­sar do tempo, po­rém, Ro­dolfo per­ce­beu que o com­por­ta­mento de Ve­nân­cio e tal­vez seu es­tado men­tal não o co­lo­ca­vam en­tre as pes­soas mi­se­rá­veis que que­rem ser aju­da­das. Ve­nân­cio era ar­re­dio a qual­quer tipo de au­xí­lio que não fosse para sua so­bre­vi­vên­cia. Até mesmo rou­pas me­nos sur­ra­das era di­fí­cil fazê-lo acei­tar. Por ve­zes, Ro­dolfo pen­sou em cha­mar pro­fis­si­o­nais do ser­viço so­cial para ten­tar tirá-lo da rua e dar-lhe um norte, mas foi dis­su­a­dido pe­los pró­prios vi­zi­nhos. Sem­pre di­ziam que es­sas ten­ta­ti­vas ha­viam sido in­fru­tí­fe­ras em ou­tras opor­tu­ni­da­des. Ve­nân­cio ia, mas sem­pre vol­tava do mesmo jeito, sem­blante ale­gre, expressando-se gen­til­mente com as pes­soas do bairro, como se fosse uma de­las, como se sua si­tu­a­ção nunca o in­co­mo­dasse. Ro­dolfo, en­tão, resignou-se, mas já se ti­nha feito sim­pá­tico ao ou­tro, que ra­ra­mente dei­xava de vir falar-lhe. Ve­nân­cio sentia-se fe­liz quando Ro­dolfo, numa ou ou­tra tarde, o con­vi­dava para, sen­ta­dos no lado de den­tro das gra­des que cer­ca­vam o so­brado, be­be­ri­ca­rem umas do­ses de co­nha­que. O dono do so­brado en­con­trava ali, na­quela re­la­ção in­co­mum, uma certa paz de es­pí­rito, parecia-lhe pa­gar as­sim as dí­vi­das por seus pe­ca­dos. Mas não era ape­nas isso. Ve­nân­cio im­pres­si­o­nava tam­bém pe­las opi­niões a res­peito de ima­gens ar­qui­tetô­ni­cas que lhe eram mos­tra­das por seu in­ter­lo­cu­tor. A Ro­dolfo, não era di­fí­cil ima­gi­nar que em al­guma época Ve­nân­cio fora um es­cul­tor, um ar­tista plás­tico ou algo as­sim.

Me­ses e al­guns anos cor­re­ram: sem­pre que pos­sí­vel, Ro­dolfo be­be­ri­cava com Ve­nân­cio. As con­ver­sas ba­nais do iní­cio da ami­zade tornaram-se a cada en­con­tro mais den­sas. Era in­crí­vel para Ro­dolfo en­con­trar na­quele po­bre ho­mem tan­tas ideias. Cer­ta­mente, ha­via um pas­sado di­fe­rente da­quela mi­sé­ria que o cer­cava agora. Isso intrigava-o bas­tante, mas o ou­tro ja­mais permitia-lhe vas­cu­lhar sua vida pes­soal. Ro­dolfo, en­tão, pla­ne­jou algo até certo ponto sen­sato: ten­ta­ria des­ven­dar aquele mis­té­rio atra­vés de uma con­versa cada vez mais ín­tima. Con­fiou a Ve­nân­cio mui­tos de seus pen­sa­men­tos, de suas von­ta­des e até mesmo de seus se­gre­dos. Um dia, mesmo que de modo su­per­fi­cial, che­gou a falar-lhe de Gabi. A prin­cí­pio, parecia-lhe uma boa ideia. Além de fa­zer parte de seu jogo, ser­vi­ria tam­bém como um de­sa­bafo, pois a re­la­ção, em­bora pra­ze­rosa, inquietava-o cons­tan­te­mente. Mais tarde, con­tudo, con­si­de­rou que houve um exa­gero e arrependeu-se da ini­ci­a­tiva. Suspeitou-se ví­tima de um tres­va­rio. Logo, des­con­ver­sou so­bre o caso, mas se­guiu atraindo Ve­nân­cio para seu jogo. Contou-lhe de seu ca­sa­mento, de seus fi­lhos, de seu tra­ba­lho, de sua fa­mí­lia. Nos úl­ti­mos me­ses, Ve­nân­cio che­gava a en­trar no lo­cal de tra­ba­lho de Ro­dolfo, onde pros­se­guiam com as con­ver­sas do dia an­te­rior. Isa­dora, uma vez, e ape­nas uma vez, mostrou-se pre­o­cu­pada e per­gun­tou ao ma­rido se não ha­ve­ria uma certa in­sen­sa­tez na­que­les en­con­tros. Ele fin­giu não ou­vir e Isa­dora, como era bem de seu fei­tio, não vol­tou ao as­sunto.

Há um ano, pela época do Na­tal, Ro­dolfo e Isa­dora saí­ram numa noite para com­prar pre­sen­tes para as cri­an­ças, os em­pre­ga­dos, o pai e a mãe dele, que vi­riam para a ceia, e, claro, tam­bém para Ve­nân­cio, em­bora não ima­gi­nas­sem o que po­de­ria satisfazê-lo. No fim, aju­da­dos pelo tempo lá fora, afeito a for­tes pan­ca­das de chuva, lembraram-se de le­var uma capa que po­de­ria ser­vir para cobrir-lhe em dias mo­lha­dos. Ao re­tor­na­rem, en­con­tra­ram di­ante do por­tão da ga­ra­gem o pró­prio Ve­nân­cio, com uma touca de lã en­fi­ada na ca­beça. Ha­via ape­nas uma ga­roa, mas ele es­tava en­char­cado. Propuseram-lhe que fosse até a área de ser­viço e se en­xu­gasse, mas ele es­tava es­tra­nho na­quela noite. Nem uma pa­la­vra se­quer respondeu-lhes, dirigindo-lhes ape­nas um olhar enig­má­tico. Ro­dolfo ainda ten­tou me­lho­rar o hu­mor do ou­tro, entregando-lhe o pre­sente. Pode ser útil ainda hoje, meu ra­paz. Foi o que disse a ele, mas não houve qual­quer res­posta. Ve­nân­cio ape­nas de­sem­bru­lhou o pa­cote e ves­tiu, des­con­fi­ado, a capa de couro. Ro­dolfo en­fiou o carro na ga­ra­gem e vol­tou à rua, mas Ve­nân­cio já não se en­con­trava mais ali. An­tes de dor­mir, ainda pu­xou con­versa com Isa­dora a res­peito da re­a­ção inu­si­tada do ra­paz, muito dis­tante do jeito fes­tivo que o ca­rac­te­ri­zava. Tal­vez fosse a época, respondeu-lhe a mu­lher. Há pes­soas que fi­cam as­sim, me­lan­có­li­cas, quando chega o Na­tal. Ro­dolfo con­cor­dou que essa po­de­ria ser uma ex­pli­ca­ção ra­zoá­vel, mas não dor­miu con­ven­cido. Ha­via algo mais. Ve­nân­cio es­tava es­tra­nho, muito es­tra­nho.

Quando o dia mal ama­nhe­cia, Ro­dolfo acor­dou como sem­pre o fa­zia ao pri­meiro cla­rão, an­tes mesmo que o sol apon­tasse. Desde a uni­ver­si­dade, acostumou-se a le­van­tar bem cedo. E as­sim o fa­ria dali a pouco, quando abrisse de vez os olhos, afa­gasse Isa­dora ainda dei­tada ao seu lado e se es­pre­gui­çasse gos­to­sa­mente como um atleta que cos­tuma aten­der a to­das as exi­gên­cias do fí­sico. Houve, en­tão, um pe­sa­delo, ou se­ria a mais ter­rí­vel re­a­li­dade? Ro­dolfo não es­tava em sua cama, muito me­nos ao lado de sua mu­lher. Ro­dolfo encontrava-se na rua, jo­gado num beco qual­quer, numa re­gião que ele não po­dia dis­tin­guir. Aos pou­cos, ainda sem sa­ber se es­tava so­nhando ou tal­vez de­li­rando numa fe­bre re­ben­tada de­pois da noite chu­vosa, ten­tou erguer-se. Na pe­num­bra, su­til­mente vi­si­tada pe­los pri­mei­ros raios de sol, res­pi­rou um cheiro ruim, pro­va­vel­mente vindo das la­tas de lixo que se en­fi­lei­ra­vam abar­ro­ta­das na­quele fim de rua. Escorou-se na pa­rede onde dor­mira en­cos­tado e pôs-se em pé. Não, não po­dia ser um so­nho. Tudo pa­re­cia muito real para um so­nho. Deu dois pas­sos à frente, a luz do dia já co­me­çava a ilu­mi­nar o beco. Olhou para si mesmo e um frio subiu-lhe pelo es­pi­nhaço quando re­co­nhe­ceu em seu corpo a capa de couro que na noite pas­sada ele dera a Ve­nân­cio. Ime­di­a­ta­mente, vieram-lhe à ca­beça ideias muito ruins. Lembrou-se de como Ve­nân­cio es­tava es­tra­nho, de como ha­via de­sa­pa­re­cido mis­te­ri­o­sa­mente. Te­meu pela vida da mu­lher e dos fi­lhos. O des­gra­çado po­de­ria ter se es­con­dido den­tro da ga­ra­gem, en­trado no so­brado du­rante a ma­dru­gada e, en­tão, de al­guma ma­neira, tal­vez com um so­ní­fero ou coisa pa­re­cida, con­se­guira dominá-lo, levando-o em se­guida para aquele beco. Uma mis­tura de ódio e medo percorreu-lhe a alma, abateu-se so­bre ele um ter­rí­vel tor­por, obrigando-o a encostar-se no­va­mente à pa­rede suja e úmida de um bar­ra­cão de onde já saíam al­guns ca­mi­nhões car­re­ga­dos de fru­tas, ver­du­ras e le­gu­mes. Ro­dolfo distinguiu-os já em plena cla­ri­dade que ilu­mi­nava o beco de fora a fora. En­tão, aprumou-se ou­tra vez, sem sa­ber se o tor­por o ha­via do­mi­nado por se­gun­dos ou mi­nu­tos. Res­pi­rou fundo e pro­cu­rou an­dar, pre­ci­sava sair dali o mais rá­pido pos­sí­vel, en­con­trar um te­le­fone e li­gar para casa, ou me­lhor, para a po­lí­cia. Sim, não fa­zia ideia de onde es­tava, e a po­lí­cia po­de­ria che­gar muito an­tes do que ele pró­prio em sua casa. An­dou de­pressa para sair do beco e, ao pas­sar por um dos ca­mi­nhões, ou­viu do mo­to­rista aquela per­gunta es­tar­re­ce­dora que o fez gelar-se por de­baixo da capa:

Ora essa, de capa nova? E onde vai com tanta pressa, Ve­nân­cio?

A você que cum­priu até aqui o com­pro­misso de ler-me, apresento-me: sou Ro­dolfo Bah­nhof, ma­rido de Isa­dora Gu­ti­er­rez Bah­nhof, pai de Ema­nuel e Ly­dia, amante de Gabi. Sou eu mesmo den­tro de um corpo es­tra­nho, este de Ve­nân­cio. Es­tou agora di­ante de meu so­brado, vendo meus fi­lhos, mi­nha mu­lher e um ho­mem que ou­trora fui eu en­tra­rem no carro para sair a pas­seio. Olho para eles e não acre­dito que essa seja a re­a­li­dade. A todo ins­tante, so­nho sair deste que é o mais me­do­nho dos cár­ce­res, mas a cada mi­nuto a es­pe­rança esvai-se junto com mi­nhas lem­bran­ças, que tam­bém vão se apa­gando dia após dia. Leio este pa­pel que es­crevi num pas­sado re­cente e mui­tas des­sas si­tu­a­ções já me fo­gem à re­cor­da­ção. Sinto es­tar mur­chando den­tro de mim toda a me­mó­ria de Ro­dolfo. Se­rei mesmo um louco? Por co­mi­se­ra­ção a este po­bre di­abo em que me trans­for­mei, responda-me. Se me dis­ser que sou louco, tal­vez uma úl­tima fe­li­ci­dade possa ainda abraçar-me. Se con­cluir que não, que nunca es­tive louco e que mi­nha his­tó­ria é real, en­tão en­lou­que­ce­rei.

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