Contos

Síndrome rara

terça-feira, 12 de maio de 2009 Texto de

For­mi­dá­veis mostram-se as pers­pec­ti­vas da fe­li­ci­dade! Ali está, per­cor­rendo a orla da praia de Bo­ta­fogo, o ser­vi­dor pú­blico Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas. Ja­mais foi visto mais exul­tante. – São mis­te­ri­o­sos os ca­mi­nhos do Se­nhor – re­ci­tou, benzendo-se sob sua rí­gida re­li­gi­o­si­dade, um co­lega muito an­tigo da re­par­ti­ção onde tra­ba­lha­ram jun­tos por mais de duas dé­ca­das. – Ca­ra­lho! – admirou-se o co­lega do fu­te­bol das quin­tas. Am­bos, e ou­tros, nunca ima­gi­na­riam Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas num mo­mento de fe­li­ci­dade ex­posta.

Mas, a des­peito dos mis­té­rios da re­li­gião ou dos ca­ra­lhos do fu­te­bol, o fato é que o acon­te­ci­mento aqui está, en­tre toda essa gente su­ada do meio do dia. E a mim só resta este pen­sa­mento: ser fe­liz sim, mas nes­sas cir­cuns­tân­cias?

Tudo co­me­çou há pou­cos me­ses, no sá­bado de Car­na­val, du­rante o tra­di­ci­o­nal des­file de blo­cos, ali pela hora do al­moço. Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas es­tava de­bru­çado na ja­nela de seu apar­ta­mento no quinto an­dar, quando, bem perto dele, es­po­ca­ram di­ver­sos ro­jões e fo­gos de ar­ti­fí­cio. O mau hu­mor transformou-se em algo lú­gu­bre e, logo, num sal­ti­tar es­tra­nho que o le­vou a dar duas vol­tas pelo quarto até cair, de­sa­cor­dado, na cama.

Vi­e­ram a mu­lher neu­ró­tica com a qual ele mal con­ver­sava nos úl­ti­mos tem­pos a não ser para meter-lhe uns sa­fa­nões e a en­te­ada sar­denta ado­les­cente de quem ele pas­sara a não mais to­mar co­nhe­ci­mento desde que ela respondeu-lhe sem pa­pas na lín­gua a uma de­sar­ra­zo­ada re­pre­en­são.

Vendo-o sem sen­ti­dos, cha­ma­ram o mé­dico. – Tal­vez o susto te­nha pro­vo­cado al­gum trauma, mas ele ape­nas dorme pro­fun­da­mente – disse o dou­tor. – Nem mesmo pre­ci­sa­re­mos aplicar-lhe um tranqüi­li­zante – acres­cen­tou. E os três ri­ram da pi­a­di­nha, en­quanto lá em­baixo os fo­liões bo­ta­vam o bloco na rua.

Como se Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas não acor­dasse até o fim da tarde, a mu­lher neu­ró­tica li­gou para o amante sa­rado e avi­sou que o sá­bado es­tava per­dido. Às oito, a en­te­ada sar­denta ado­les­cente ba­tendo papo pela in­ter­net em seu quarto, e a mu­lher neu­ró­tica as­sis­tindo à TV na sala, deu-se a ba­ra­funda. Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas apa­re­ceu nu em pelo e de ga­ti­nhas.

A mu­lher neu­ró­tica ber­rou e a en­te­ada sar­denta ado­les­cente logo apa­re­ceu cor­rendo. Ves­ti­ram o su­jeito e o dei­ta­ram, mas nada dele fi­car na cama. Ros­nando e debatendo-se, in­sis­tia em deitar-se so­bre o ta­pete, não sem an­tes dar al­gu­mas lam­bi­di­nhas nos pró­prios chi­ne­los. Quando, in­tri­ga­das, as duas ten­ta­ram forçá-lo a su­bir no col­chão, ele la­tiu gra­ve­mente.

Cha­ma­ram o mé­dico.  – Sem dú­vida, uma sín­drome rara – cons­ta­tou o dou­tor, exa­lando um in­dis­far­çá­vel cheiro etí­lico. A mu­lher neu­ró­tica e a en­te­ada sar­denta ado­les­cente entreolharam-se. – Va­mos deixá-lo no ta­pete esta noite e ver como as coi­sas evo­luem – animou-se o dou­tor, dei­xando ra­pi­da­mente o lo­cal e avi­sando que es­ta­ria à dis­po­si­ção no dia se­guinte, caso não hou­vesse evo­lu­ção no qua­dro.

A mu­lher neu­ró­tica acor­dou no do­mingo e, com uma das mãos, to­cou le­ve­mente as cos­tas do ma­rido. Pre­gui­ço­sa­mente, ele es­ti­cou bra­ços e per­nas, sol­tou um breve ge­mido e, quase ao mesmo tempo, um peido, e virou-se de bar­riga pra cima, mem­bros er­gui­dos, a ga­nir. Pri­meiro um ga­nido quase ca­ri­nhoso, de­pois um ga­nido quase uivo, sis­te­má­tico, e por fim la­ti­dos al­tos e es­tri­den­tes.

O dou­tor che­gou às dez. – Re­al­mente, uma sín­drome rara! – ex­cla­mou ao dei­xar o quarto e dar de cara com a mu­lher neu­ró­tica.

Sem que hou­vesse pro­fi­la­xia co­nhe­cida para os dias que vi­riam, de­ci­di­ram interná-lo. Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas foi para o hos­pi­tal, a en­te­ada sar­denta ado­les­cente desabalou-se a pas­sar o resto do Car­na­val com uns ami­gos não sei de onde e o amante sa­rado instalou-se em Bo­ta­fogo.

Os dias cor­re­ram. O Car­na­val aca­bou. A mu­lher neu­ró­tica vol­tou ao sa­lão onde tra­ba­lhava. A en­te­ada sar­denta ado­les­cente vol­tou a fin­gir que es­tu­dava. O amante sa­rado vol­tou para a praia. 

Três se­ma­nas de­pois, o mé­dico cha­mou a fa­mí­lia. – Te­nho boas e más no­tí­cias – co­me­çou – e vou dar pri­meiro a má – avi­sou. A mu­lher neu­ró­tica e a en­te­ada sar­denta ado­les­cente entreolharam-se. – De­ci­di­da­mente, é uma sín­drome rara – ad­ver­tiu pe­sa­da­mente, os olhos pre­ga­dos na blu­si­nha que nem es­ti­cando po­dia co­brir os dois pei­ti­nhos du­ros da en­te­ada sar­denta ado­les­cente. – Mas posso di­zer – voltou-se as­sus­tado e sor­ri­dente para a mu­lher neu­ró­tica – que nosso pa­ci­ente está muito fe­liz.

To­cou uma si­neta e, ao seu ru­mor, aden­trou o con­sul­tó­rio uma linda en­fer­meira pu­xando uma co­leira. Logo em se­guida, ar­fante, de shor­ti­nho ver­me­lho de bo­li­nhas e ca­mi­seta ca­vada cheia de de­se­nhos com os­sos em pe­que­nos la­ços, Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas sal­ti­tou fe­liz en­tre o mé­dico e a fa­mí­lia.

E agora veja: ali mesmo, ao lado da bar­raca de água de coco, Mé­rio Tron­coso Pa­to­pas, de gros­sas lu­vas e jo­e­lhei­ras, de qua­tro, ca­beça em­pi­nada e bun­di­nha re­bo­lante, vai à re­bo­que da co­leira que lhe foi en­cai­xada e agora é pu­xada pelo amante sa­rado da mu­lher neu­ró­tica. Perto do Posto Ma­ne­qui­nho, ele fa­reja a cal­çada e lambe o tra­seiro des­cui­dado de uma po­o­dle en­fei­tada de la­ci­nho. Todo fe­liz, er­gue a pata di­reita na frente de um poste e, pela orla do shor­ti­nho ver­me­lho de bo­li­nhas, escapa-lhe o pipi, de onde jorra um mijo dou­rado que bri­lha ao sol gos­toso das onze.

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