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Osmose

quinta-feira, 10 de julho de 2008 Texto de

En­trou um in­seto no meu ou­vido di­reito. Não que faça muita di­fe­rença ter sido no di­reito ou no es­querdo, mas es­tou sendo fiel aos fa­tos. Ele en­trou no ou­vido di­reito, e lá se en­con­tra até hoje. Tem mais de duas se­ma­nas que isso acon­te­ceu e a es­sas ho­ras ele já deve es­tar morto. Por­que se ainda es­ti­vesse vivo, pelo me­nos da­ria para ou­vir seu zum­bido de de­ses­pero ou seu mo­vi­mento, có­ce­gas, en­fim, vida. E não sinto nada. 

Eu es­tava quase dor­mindo, com o lado es­querdo do rosto en­cos­tado no tra­ves­seiro – por­tanto com o di­reito a des­co­berto – quando ouvi um zum­bido muito pró­ximo. Ins­tin­ti­va­mente fiz o gesto na­tu­ral de es­pan­tar o in­seto com a mão di­reita, e o zum­bido tornou-se mais forte, pro­va­vel­mente por­que ele se apro­xi­mou da ore­lha di­reita para fu­gir do meu tapa. E foi aí que eu senti, con­cre­ta­mente, que ele es­tava na mi­nha ore­lha. Espantei-o ou­tra vez e deu no que deu. Ele en­trou di­reto. Nes­sas al­tu­ras o sono já ti­nha ido pra cu­cuia, seja lá o que isso queira di­zer. Levantei-me com có­ce­gas na ore­lha e corri para pro­vi­den­ciar ál­cool, pen­sando que com o cheiro forte o mos­quito sai­ria tonto, mas sai­ria. En­gano meu. No que es­premi o al­go­dão en­char­cado de ál­cool den­tro do ou­vido senti uma li­geira có­cega e só. De­pois disso, mais ne­nhum si­nal de vida no lo­cal.

Mar­quei hora no otor­rino para que ele exa­mine o lo­cal mais de­ta­lha­da­mente. Não posso di­zer que sinto dor ou algo pa­re­cido. Nem incô­modo chega a ser. Mas mi­nha au­di­ção do lado di­reito está sem dú­vida obum­brada, meio opaca. Sinto desse lado um peso di­fe­rente do nor­mal. E não me re­firo ao peso do mos­quito, isso não. O peso é ge­ral, lo­ca­li­zado no meu lado di­reito da per­cep­ção de sons. Pode não ser o corpo dele, que já deve ter se des­ma­te­ri­a­li­zado den­tro do meu ou­vido ou do meu cé­re­bro, mas a es­tra­nha sen­sa­ção de uma com­pa­nhia diu­turna cer­ta­mente é con­seqüên­cia de sua per­ma­nên­cia den­tro de mim du­rante todo esse tempo.

Só te­nho medo que ele seja ela, que es­ti­vesse pre­nha na hora do aci­dente e meio des­nor­te­ada em con­seqüên­cia de seu es­tado. Vai que mor­reu, os fi­lho­tes nas­ce­ram du­rante sua ago­nia etí­lica, se adap­ta­ram ao novo am­bi­ente e se en­ca­mi­nha­ram para meu cé­re­bro, onde es­tão se re­pro­du­zindo. Pre­ciso avi­sar ao mé­dico que tam­bém exa­mine o es­tra­nho som que às ve­zes emito quando falo. Não posso afir­mar, mas o som ar­ra­nhado e muito agudo pouco se as­se­me­lha à ma­neira como eu fa­lava an­tes da che­gada de meu hós­pede.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br « vol­tar

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