Parte 1

Se qui­ser co­nhe­cer bem um ho­mem co­nheça as ro­ti­nas dele. Isso vale para toda a forma de vida, até um ser mi­cros­có­pico re­pete in­ces­san­te­mente as mes­mas ações to­dos os dias. Isso sem­pre me fas­ci­nou. As ame­bas, por exem­plo, re­pe­tem o mesmo mo­vi­mento com seus pseu­dó­po­dos para ob­ter ali­men­tos. O ca­ra­mujo es­pa­nhol ar­ranca pe­que­nos pe­da­ços de solo para de­co­rar sua ca­ra­paça, tan­tas ve­zes ne­ces­sá­rias para deixá-la in­vi­sí­vel. Já o ga­vião car­ra­pa­teiro passa a vida su­bindo nas cos­tas de bois e ca­va­los para cap­tu­rar pa­ra­si­tas. Ma­ca­cos como o bu­gio ao en­tar­de­cer sem­pre emi­tem sons to­dos jun­tos no topo de uma ár­vore.

Nada se com­para, po­rém, às ro­ti­nas do ser hu­mano. Tudo o que o ho­mem criou até hoje foi por in­sis­tir em mé­to­dos e sis­te­mas. Não acre­dito em in­tui­ção, cri­a­ti­vi­dade, isso é uma ex­pli­ca­ção re­du­ci­o­nista de im­be­cis. Tho­mas Edi­son fez seis mil ex­pe­ri­men­tos até criar a lâm­pada. Gra­ci­a­li­ano Ra­mos re­es­cre­via to­dos seus li­vros inú­me­ras ve­zes até re­ti­rar to­dos os ex­ces­sos de es­tilo. E, além dos no­mes ilus­tres, me fas­ci­nam tam­bém os ho­mens pa­té­ti­cos que não se can­sam de re­pe­tir maus há­bi­tos para des­truí­rem suas vi­das.

É claro que ob­ser­var uma pes­soa na maior parte dos ca­sos é mais di­fí­cil do que qual­quer ou­tro ani­mal. As ci­da­des são abar­ro­ta­das de gente que po­dem se mo­vi­men­tar em gran­des ex­ten­sões, sem con­tar que elas têm um com­po­nente único e quase im­pe­ne­trá­vel: a vida pri­vada. A mai­o­ria das mi­nhas ob­ser­va­ções foi re­a­li­zada, en­tão, em am­bi­en­tes pú­bli­cos onde é pos­sí­vel en­xer­gar só uma pe­quena parte de seus há­bi­tos.

De­pois de dé­ca­das com essa vi­são li­mi­tada até pen­sei que a era dos re­a­lity shows pu­desse me dar mais sub­sí­dios para mi­nhas pes­qui­sas, mas o ser hu­mano age muito di­fe­rente quando sabe que está sendo ob­ser­vado, não é pos­sí­vel ex­trair ne­nhuma con­clu­são se­gura. Esse fra­casso des­ses cir­cos au­di­o­vi­su­ais, no en­tanto, mos­trou que a tec­no­lo­gia era de fato o me­lhor ca­mi­nho para atin­gir meus ob­je­ti­vos.

Câ­me­ras e mi­cro­fo­nes es­con­di­dos po­de­riam co­brir boa parte da vida pri­vada de al­guém, mas ainda exis­ti­riam la­cu­nas im­por­tan­tes nos ou­tros am­bi­en­tes freqüen­ta­dos. A so­lu­ção per­feita se­ria ter acesso aos sen­ti­dos hu­ma­nos e sa­ber, prin­ci­pal­mente, o que uma pes­soa ouve e vê 24 ho­ras por dia. Pas­sei ou­tros lon­gos anos atrás desse so­nho de fic­ção ci­en­tí­fica.

Quase toda mi­nha he­rança se foi nessa busca. Não dei a mí­nima. Não me in­te­res­sam ou­tros pra­ze­res, aju­dar a hu­ma­ni­dade, cons­ti­tuir fa­mí­lia, nada disso. Só que­ria co­nhe­cer o com­por­ta­mento de uma pes­soa como nunca an­tes al­guém ti­nha che­gado perto. E eu con­se­gui.

Parte 2
Es­pé­cie E – 2 de abril de 2014

Ao acor­dar E fi­cou na cama chei­rando seu tra­ves­seiro por cerca de três mi­nu­tos. Pôs as mãos nos ca­be­los e os jo­gou para trás. Le­van­tou e foi be­ber água. Esse com­por­ta­mento tem se mos­trado o mais freqüente ao des­per­tar. O cheiro que ele apre­cia sen­tir de ma­nhã foi ana­li­sado como sendo o do seu pró­prio suor, isso pode re­ve­lar al­guma ten­dên­cia ho­mos­se­xual.

Nesta ma­nhã ele não in­ge­riu qual­quer ali­mento an­tes do ba­nho, pos­tura co­mum em dias que apa­renta es­tar com pressa ou acorda tarde. Po­rém, mesmo as­sim hoje tam­bém se mas­tur­bou du­rante quase oito mi­nu­tos. Esse cos­tume vem se re­pe­tindo mesmo nos dias em que acorda com o pê­nis flá­cido. Neste dia ana­li­sado, por exem­plo, como em vá­rias ou­tras ve­zes, li­gou o chu­veiro e fi­cou es­fre­gando seu pê­nis com uma mão até enrijecê-lo para sair o jato de es­perma, que sem­pre faz ques­tão di­re­ci­o­nar nos azu­le­jos. Co­mu­mente ele pro­nun­cia tam­bém o nome de uma ou duas mu­lhe­res. Nesta ma­nhã foi San­dra, pes­soa já ci­tada em aná­li­ses an­te­ri­o­res, mas nunca vista por ele nesse meio tempo.

A par­tir daí E teve um modo de vida co­mum a ou­tros ti­pos es­tu­da­dos, a ‘vida en­ce­nada’ como eu qua­li­fico. To­mou o ôni­bus para o tra­ba­lho sem con­ver­sar com nin­guém no ponto. No per­curso, como faz cos­tu­mei­ra­mente, en­ca­rou al­gu­mas mu­lhe­res que pa­re­ciam lhe atrair, mas pro­cu­rou des­viar o olhar quando era no­tado. Ao che­gar à re­par­ti­ção pú­blica que tra­ba­lha cum­pri­men­tou quem via pelo lo­cal com ce­rimô­nia, mas sem ani­ma­ção apa­rente.

Sua fun­ção era pre­en­cher e che­car for­mu­lá­rios para de­pois enviá-los por com­pu­ta­dor a ou­tras ci­da­des. Como nos ou­tros dias, hoje tam­bém não foi pro­du­tivo. Sendo di­reto, E en­ro­lava ao má­ximo seu dia de ta­re­fas. Treze ca­fés, dis­cus­sões so­bre jo­gos de fu­te­bol, in­tri­gas so­bre ou­tros co­le­gas de tra­ba­lho e adu­la­ções com seu su­pe­rior to­ma­vam me­tade do dia. 

Quando es­tava sen­tado em sua mesa ele tam­bém vi­rava a tela do com­pu­ta­dor num ân­gulo que não per­mi­tisse ser vista por quem pas­sasse por perto. Ele aces­sou por três ho­ras um site que ou­tro co­lega de ser­viço ha­via lhe in­di­cado ou­tro dia, di­zendo que a rede in­terna não con­se­guia blo­quear. Era um tipo de bate-papo, E usava no­mes fal­sos e fler­tava com mu­lhe­res e ho­mens. Ao que pa­re­cia co­nhe­cia al­gu­mas da­que­las pes­soas, não pes­so­al­mente, mas de ou­tras opor­tu­ni­da­des vir­tu­ais. Ape­nas em cur­tos es­pa­ços de tempo no dia E re­a­li­zou suas ta­re­fas pro­fis­si­o­nais de forma me­câ­nica, sem re­vi­sar con­tas ou no­mes.

No fim do ex­pe­di­ente despediu-se tam­bém com ce­rimô­nia e sem ani­ma­ção. Ca­mi­nhou até um su­per­mer­cado e com­prou pão e mor­ta­dela. To­mou seu ôni­bus, en­ca­rou as mu­lhe­res e des­ceu perto de sua casa. Pa­rou em um bar, não cum­pri­men­tou os vi­zi­nhos e pe­diu no bal­cão uma cer­veja de lata. Em casa fi­cou de cu­eca, fez o san­duí­che, abriu a cer­veja e li­gou no no­ti­ciá­rio te­le­vi­sivo. Sentou-se no sofá.

Ter­mi­nou o pão e a be­bida e ar­ro­tou. Foi ao ba­nheiro uri­nar. Pa­rou no es­pe­lho e fi­cou a olhar seu rosto. Pa­re­cia pro­cu­rar im­per­fei­ções, ru­gas, es­pi­nhas e man­chas. De­pois olhou em seus olhos com uma ex­pres­são de con­tem­pla­ção. Essa ação era re­pe­tida quase to­dos os dias, sem mo­tivo apa­rente, ele não de­mons­trava ale­gria nem tris­teza. Só se olhava sem mo­tivo. Sem ação. Sem pa­la­vras.

Vol­tou para a sala, pe­gou sua pasta e re­ti­rou um pa­pel. Era um te­le­fone de uma mu­lher que con­ver­sara pelo com­pu­ta­dor du­rante o tra­ba­lho. Su­zana. Li­gou e ti­mi­da­mente se apre­sen­tou. E men­tiu so­bre sua idade e sua po­si­ção econô­mica. Ela ti­nha uma voz sur­presa com o te­le­fo­nema e acei­tou o en­con­tro que E propôs para o fi­nal de se­mana. Ele fa­zia isso quase to­dos os dias, mas em três anos de mo­ni­to­ra­mento nunca com­pa­re­ceu a ne­nhum. Pa­rece que sen­tia pra­zer só de se apro­xi­mar de um pos­sí­vel en­con­tro.

Es­co­vou os den­tes, leu o li­vro de Lu­cas na bí­blia (cap. 10), apa­gou as lu­zes e deitou-se. Dor­miu cinco mi­nu­tos de­pois.

Parte 3
Es­pé­cie M – 22 de março de 2011 

Mais uma vez pode-se di­zer que o dia de M não tem 24 ho­ras. São pou­cas ho­ras de ati­vi­da­des, po­rém, não há como ne­gar, in­ten­sas.

Pela cla­ri­dade e os sons de mui­tos au­to­mó­veis por perto M acorda já pró­ximo do meio dia. Ela se le­vanta e vai até o ba­nheiro. Não olha para o es­pe­lho. Abaixa sua calça, senta-se no vaso sa­ni­tá­rio e urina. Le­vanta, se veste sem se lim­par e ca­mi­nha até a sala. Liga um apa­re­lho de som em alto vo­lume. A mú­sica é 20th Cen­tury Man, do The Kinks.

Deita no sofá e co­meça a fu­mar ci­gar­ros que es­ta­vam numa mesa pró­xima. Esse ato dura 14 mi­nu­tos. M se le­vanta e sai pela porta com a mesma roupa que dor­miu e sem ver seu rosto ainda.

Ela ca­mi­nha até uma ave­nida pró­xima de sua casa e toma um ôni­bus. É um tra­jeto re­pe­tido em vá­rias ou­tras ve­zes, as­sim o mo­to­rista a cum­pri­menta com um aceno de ca­beça. Ela le­vanta a mão para um cum­pri­mento mo­desto e se di­rige para a ca­traca ra­pi­da­mente. Senta no lado do cor­re­dor em um banco va­zio e passa a se­gu­rar a barra do as­sento da frente com uma das mãos.

A ou­tra mão, do lado que dá para a ja­nela, M usa para es­fre­gar sua perna. Faz isso du­rante toda a vi­a­gem, que dura 53 mi­nu­tos. Desce tam­bém num lu­gar já visto ou­tras ve­zes. Ca­mi­nha por uma rua de terra até a casa de um ho­mem cha­mado por ela de Fir­mino. Ele atende a porta num tom de voz gros­seiro per­gun­tando quem é. M se iden­ti­fica e a porta é aberta de­pois de três mi­nu­tos.

M tira do bolso uma nota de di­nheiro amas­sada, mos­tra e diz que­rer 10 gra­mas. É im­pos­sí­vel ver o va­lor pelo ân­gulo de sua vi­são, mas pela re­a­ção de Fir­mino supõe-se ser pouco. Ele diz que aquilo não com­pra nada e que ela já es­tava lhe de­vendo de ou­tras opor­tu­ni­da­des por isso não te­ria des­conto ne­nhum.

M co­meça a di­zer que está na fis­sura por uma dose e que já co­meça a tre­mer sem con­trole. Pede por fa­vor um pouco da subs­tân­cia que aponta em uma pra­te­leira. Fir­mino a manda cair fora en­quanto não ar­ran­jar mais di­nheiro. M res­ponde que não tem como con­se­guir na­quele dia. Ele re­truca que ela que se vire e se não pa­gasse os atra­sa­dos iria le­var chumbo tam­bém.

M sai pi­sando firme e ca­mi­nha até o ponto de ôni­bus no­va­mente. Pega o ôni­bus que a leva de volta a sua casa. No per­curso de novo es­frega uma das mãos na perna e se­gura a barra do banco, agora com mais força e pres­são.

Des­ceu do co­le­tivo e ca­mi­nhou ra­pi­da­mente até sua casa. Foi até a co­zi­nha e sob a pia pe­gou um saco de lixo. Numa pra­te­leira re­co­lheu um li­qui­di­fi­ca­dor e na sala um ce­lu­lar e um apa­re­lho de Blu-ray. Car­re­gando o saco com os pro­du­tos saiu de novo e mais uma vez to­mou o ôni­bus. Re­pe­tiu os ges­tos com as mãos e em seu colo apoiou o saco de lixo.

Vol­tou à casa de Fir­mino. Teve a mesma re­cep­ção gros­seira, dessa vez res­pon­dida à al­tura. M disse quase gri­tando que­rer pa­gar sua dí­vida e com o que so­brasse le­va­ria mais droga. Fir­mino olhou o con­teúdo do saco e co­me­çou a rir. Disse que aquilo não pa­ga­ria nem a me­tade do que de­via, mas de­pois em tom amá­vel fa­lou que a dei­xa­ria le­var uma dose, con­tanto que pa­gasse o res­tante de­pois.

M co­me­çou a sor­rir. Disse obri­gado com um tom de voz emo­ci­o­nado. Re­ce­beu um pe­queno saco de plás­tico que guar­dou den­tro da calça, na vi­ri­lha. Saiu e su­biu cor­rendo em seu ôni­bus, nem olhou na cara do mo­to­rista. Não ha­via dois as­sen­tos li­vres, por isso pa­rece ter pre­fe­rido fi­car de pé os 53 mi­nu­tos. Lim­pou o rosto de suor vá­rias ve­zes e ba­tia o pé di­reito in­sis­ten­te­mente.

Um ho­mem no­tou sua im­pa­ci­ên­cia e ofe­re­ceu seu banco. De­mo­rou nove se­gun­dos para res­pon­der. Disse ‘não’ sem nem olhar para o ho­mem.

Em casa, M fe­chou to­das as fe­cha­du­ras, as ja­ne­las e li­gou seu som. Pe­gou o sa­qui­nho plás­tico, que con­ti­nha um vi­dri­nho com um ade­sivo es­crito 10 gra­mas. Foi até a co­zi­nha e pe­gou uma in­je­ção e uma cor­di­nha de bor­ra­cha na ga­veta de ta­lhe­res. En­fiou a agu­lha no vi­dri­nho e su­gou boa parte. Im­pos­sí­vel ver quan­tos mg.

Sen­tada na sala, ar­re­ga­çou uma das man­gas da blusa, amar­rou o braço e co­me­çou a pro­cu­rar uma veia. Ha­via mui­tos pon­tos ro­xos, não era ta­refa fá­cil. De­mo­rou 52 se­gun­dos. Injetou-se. Sen­tiu uma dor mí­nima, es­tava bem acos­tu­mada com isso.

Re­ti­rou a bor­ra­cha, co­lo­cou a se­ringa na mesa e foi para o quarto deitar-se.

As al­te­ra­ções de sen­tido em M nes­ses mo­men­tos são im­pre­vi­sí­veis. Ela co­me­çou a ver as por­tas de seu guarda-roupa ba­te­rem so­zi­nhas. O som dessa su­posta vi­são es­tava alto, por isso ela le­van­tou e amar­rou as al­ças das por­tas com len­çóis.

Ela po­dia ver tam­bém a mú­sica no am­bi­ente. The Kinks ainda to­cava, agora a mú­sica Al­cohol. Tal­vez ela te­nha es­co­lhido essa mú­sica de pro­pó­sito, é muito pro­vá­vel. O ve­lho demô­nio do ví­cio que a can­ção di­zia es­tava flu­tu­ando no ar. Ela en­xer­gava um ve­lho de cha­péu, barba branca, mui­tas ru­gas, com as mãos e um terno cinza su­jos. Ele be­bia gar­ra­fas de rum, te­quila, scotch, vodka como a le­tra di­zia. M con­se­guia sen­tir o cheiro do ál­cool no ar e gar­ga­lhava da­quela apa­ri­ção.

Dei­tada tam­bém sen­tia na pele pe­que­nas vi­bra­ções que lhe tra­ziam muito pra­zer. Dois mi­nu­tos de­pois fe­chou os olhos e co­me­çou a ou­vir uma ca­cho­eira e sen­tir uma brisa no ar. O re­la­xa­mento a fez dor­mir pelo resto do dia. 

Parte 4
Es­pé­cie S – 1º de ju­nho de 2013

S de­mons­tra muito ânimo. Nos dias ana­li­sa­dos acorda sem­pre an­tes de seu ma­rido, por volta das 6h da ma­nhã. Pre­para ovos co­zi­dos, ferve o leite, corre até a uma pa­da­ria pró­xima, varre sua va­randa, ali­menta seu cão, co­loca rou­pas na má­quina de la­var, co­loca água em seus va­sos de plan­tas, tudo até as 7h.

Seu ma­rido se le­vanta por volta desse tempo e toma ba­nho por quase meia hora. Ela aguarda sen­tada a mesa nesse pe­ríodo. Quando ele sai os dois pouco con­ver­sam. Hoje fa­lam da conta do gás que pre­cisa ser paga. Ele come e bebe o que tem na mesa, le­vanta, diz tchau e vai em­bora.

Só aí S come al­guma coisa. Gosta de pão sem mi­olo e leite frio que busca na ge­la­deira. Vai para o quin­tal, senta numa es­cada e fuma dois ci­gar­ros. De volta para casa vai di­reto para o ba­nheiro. Tira as rou­pas, liga o chu­veiro e senta-se em­baixo da du­cha. Deixa o jato cair prin­ci­pal­mente na ca­beça e no meio das per­nas.

S não usa pro­du­tos de be­leza, mas per­ma­nece mais de vinte mi­nu­tos sob a água. Sua pele branca chega a se en­ru­gar. Sem pressa se en­xuga. Veste-se e penteia-se. Chama seu cão, Antô­nio, um pas­tor ale­mão, e desce até sua ga­ra­gem.

O Fusca verde é ali­sado por ela quando ca­mi­nha até a porta do veí­culo. Antô­nio en­tra pri­meiro já co­nhe­ce­dor desse pas­seio. Senta-se no lado do ca­rona. S alisa agora o vo­lante e sus­pira. Com os pés des­cal­ços pisa os pe­dais sem pressa. Na ma­nhã de sol e ainda de pouco mo­vi­mento, con­duz o veí­culo sem dar qual­quer seta no tra­jeto. Mas vai de­va­gar, de­mo­rando sem­pre para tro­car de mar­chas. O cão es­pia a rua com parte do na­riz para fora da ja­nela.

Ela pára no mesmo lu­gar de sem­pre, perto de um posto de saúde. Afasta o banco para trás, deixa Antô­nio dei­tar em seu colo e co­meça acariciá-lo. S olha o mo­vi­mento da rua, nota to­das as pes­soas que pas­sam no seu raio de vi­são. Um ri­tual va­ga­roso, hoje de 2 ho­ras e 11 mi­nu­tos, até que ra­pi­da­mente diz ‘sai Antô­nio’, ajusta o banco e ar­ranca com o carro. 

Sua vista e seu alvo es­tão em um Gol branco no qual a pou­cos ins­tan­tes uma mu­lher e uma cri­ança en­tra­ram. S per­se­gue o veí­culo com cui­dado, sem che­gar perto de­mais, mas olhando com aten­ção os mo­vi­men­tos das ro­das e as se­tas do Gol. A ou­tra mu­lher era uma das tan­tas pes­soas que S ob­ser­vou en­quanto es­ta­ci­o­nada. Ela ha­via le­vado a cri­ança no posto mé­dico.

Os car­ros se­guem até ou­tro bairro. A mu­lher es­ta­ci­ona em frente a uma casa e desce com a cri­ança. S pára pró­xima do ou­tro lado da rua e ob­serva. Pri­meiro en­tra a cri­ança na casa e de­pois a mu­lher, que an­tes olha para trás e nota o Fusca. S des­via o olhar. 

Mais uma vez ela afasta o banco, o cão deita-se em seu colo e S co­meça a ob­ser­var tudo a sua volta. 

Por lon­gas cinco ho­ras isso se re­pete até a mu­lher e a cri­ança saí­rem de novo da casa. Dessa vez S fica imó­vel, es­pera os dois en­tra­rem no Gol e ro­da­rem até do­brar a es­quina. Só de­pois é que S de­cide sair com seu carro e vol­tar à per­se­gui­ção.

Sem per­der de vista o carro, S nota que se di­ri­gem a um su­per­mer­cado pró­ximo. Des­cem no es­ta­ci­o­na­mento e a mu­lher ca­mi­nha com a cri­ança até a en­trada. S es­ta­ci­ona tam­bém e sai do Fusca. O cão geme. Ela vira-se e diz ‘fica aí qui­eto Antô­nio’.

São 15h42 e o su­per­mer­cado não está muito cheio, mas por seu ta­ma­nho S de­mora a avis­tar os dois no­va­mente. Es­tão na fila do açou­gue. S olha cinco me­tros longe. Co­meça a aper­tar suas pró­prias mãos como se agar­rasse ou es­pe­rasse algo.

A cri­ança con­versa algo com a mu­lher e se afasta. S a se­gue. Pa­ram no cor­re­dor de do­ces.

– Oi me­nino lindo! Como você se chama? – S per­gunta meio sem jeito.

Ele abaixa a ca­beça, olha para chão e não res­ponde.

– Você quer um do­ci­nho? Me diz qual que eu com­pro para você.

A cri­ança aponta para um cho­co­late de em­ba­la­gem co­lo­rida, mas não le­vanta sua ca­beça.

– Este? Que ótimo! Vou le­var três. Dois para você e um para mim. Vem co­migo, vou pa­gar e te dou já.

Os dois ca­mi­nham pelo cor­re­dor até o caixa. S pede para o me­nino pas­sar pri­meiro para re­ce­ber o cho­co­late. Ela se­gura os do­ces en­quanto paga e quando ter­mina o me­nino le­vanta os bra­ci­nhos.

– Va­mos até aqui fora, tem muita gente an­dando, nem vai dar para você co­mer di­reito.

Ainda se­gu­rando o doce no alto, S leva o me­nino até o es­ta­ci­o­na­mento e até o Fusca. 

– Esse é o Antô­nio, meu ca­chor­ri­nho. Não pre­cisa ter medo, ele não morde – diz mos­trando o cão na ja­nela.

– Vou abrir a porta para você co­mer sen­tado no banco. Antô­nio, vai lá para trás.

O me­nino senta e re­cebe o cho­co­late. Co­meça a co­mer e sorri. S fica com a res­pi­ra­ção ace­le­rada e tam­bém sorri. Agacha-se e fica olhando de mais perto a cri­ança. De­pois aca­ri­cia seus ca­be­los e per­gunta.

– Está gos­toso que­rido?

Ele res­ponde afir­ma­ti­va­mente com a ca­beça.

– Quer ir na mi­nha casa? Lá posso te fa­zer um bolo. De qual que você gosta?

– Não gosto de bolo… – res­ponde um pouco bir­rento.

– Tá bom bra­vi­nho. Do que você gosta? – diz sor­rindo.

– Eu que­ria uma pizza agora…

– É mesmo? Eu sei fa­zer uma bem gos­tosa.

– Do quê?

– Pre­sunto, queijo, to­mate e ce­bola.

– Não gosto de ce­bola.

– Tudo bem, eu não co­loco.

– Tá bom.

– En­tão va­mos – diz S exul­tante.

Fe­cha a porta do me­nino, dá a volta e en­tra no carro. Agora com pressa liga o carro e sai em ve­lo­ci­dade. Sem­pre sor­rindo S liga o rá­dio.

– Vou co­lo­car uma mú­sica para a gente ou­vir – diz.

Uma mú­sica in­fan­til co­meça a to­car e S canta a le­tra – Sem­pre que o re­lâm­pago se apaga, Ouve-se o ru­gido do tro­vão, Flash que in­cen­deia a queda d’água, Oiá, Oiá, Oiá, As­tro que atra­vessa a at­mos­fera, Luz es­tro­bos­có­pica cla­rão, Guizo de gra­nizo so­bre a terra, Oiá – o me­nino dá ri­sada e S se es­força mais para fa­zer vo­zes en­gra­ça­das.

A vi­a­gem se­gue nessa can­to­ria e S fica com os olhos ma­re­ja­dos quando chega perto de sua casa.

O carro en­tra na ga­ra­gem e os três saem. O me­nino con­ti­nua co­mendo e per­gunta onde está sua mãe.

– Ela vem já, mas an­tes ela pe­diu para eu fa­zer um pa­pa­zi­nho para você. Uma pizza bem gos­tosa!

Ele sorri e acom­pa­nha S para den­tro da casa.

Na co­zi­nha o me­nino senta-se a mesa e S vai para a pia. Co­meça a cor­tar to­ma­tes.

– Você gosta de muito queijo?

– Gosto.

– Pode dei­xar, vou co­lo­car bas­tante. E nada de ce­bola – ela ri.

Às 17h21 seu ma­rido en­tra em casa. Olha os dois na co­zi­nha e faz uma cara feia.

– Quem é esse me­nino?

– Um fi­lho de uma amiga – diz S sem jeito e sem con­ti­nu­ando a re­ti­rar fa­tias de queijo de uma em­ba­la­gem de iso­por.

O ho­mem se­gura S pelo braço e a ar­rasta até o quarto.

– Olha pra mim! Ele não vai vol­tar, pára de fa­zer isso. Você vai aca­bar fo­dendo nós dois.

– Seu in­sen­sí­vel, você nem lem­bra mais dele!

S leva um soco no queixo e cai na cama.

– Eu não agüento mais, além de per­der um fi­lho te­nho que cui­dar de uma doida…

S co­meça a cho­rar dei­tada na cama.

– Anda, me fala, onde você pe­gou essa cri­ança dessa vez?

S anota em um pe­daço de pa­pel o en­de­reço.

Ela ouve o ma­rido e o me­nino an­dando para abrir a porta. De­pois o som de um carro saindo. Con­ti­nua a cho­rar e acaba ador­me­cendo so­zi­nha.

Parte 5
En­con­tros – 15 de abril de 2015

Re­a­li­zei meu so­nho por quase seis anos. In­vadi os sen­ti­dos e a mente de des­co­nhe­ci­dos com um pra­zer enorme. Não me ar­re­pendo dos im­plan­tes que fiz em pa­ci­en­tes de hos­pi­tais pú­bli­cos, das pes­soas que su­bor­nei e pre­ci­sei eli­mi­nar.

E de­pois de tudo isso me per­gunto se em al­gum mo­mento pen­sei no avanço da ci­ên­cia. Ou sendo mais ho­nesto com mi­nha classe, se só es­tava pen­sando na gló­ria e di­nheiro que con­se­gui­ria. Ne­nhuma das al­ter­na­ti­vas. Sou um vi­ci­ado na vida alheia, um ho­mem que des­truiu sua vida num so­nho egoísta. 

Ve­lho e can­sado não con­sigo mais pros­se­guir e não quero dei­xar nada do que criei para os ou­tros. Hoje vou pôr fogo em todo meu pré­dio, in­clu­sive em mim mesmo. Vou mor­rer no meio das má­qui­nas ma­ra­vi­lho­sas que criei.
Não fiz ne­nhuma con­clu­são psi­co­ló­gica ou so­ci­o­ló­gica. As es­pé­cies que ob­ser­vei fo­ram tão so­mente meu ví­cio. Mas con­fesso que me afei­çoei com eles. Nessa vida eles fo­ram o que mais pró­ximo en­con­trei como ami­gos. Os vejo hoje como iguais a mim – pes­soas que pas­sa­ram anos cri­ando ar­ti­fí­cios ela­bo­ra­dos para sa­tis­fa­ze­rem seus de­se­jos.

Por isso mais cedo pro­cu­rei cada um de­les e me apre­sen­tei, sem, po­rém, con­tar meus se­gre­dos. S es­tava numa ca­deia, seus rap­tos de cri­an­ças fi­nal­mente ti­ve­ram um fim. Disse que eu era um pa­rente dis­tante de sua mãe e con­tei que ha­via de­po­si­tado uma grande quan­tia na conta de seu ma­rido. Eles po­de­riam usar os ser­vi­ços dos me­lho­res ad­vo­ga­dos do país e logo ela sai­ria da pri­são.

Pro­cu­rei E no ho­rá­rio do al­moço. Ele come num mo­desto res­tau­rante por quilo. Sen­tei junto dele numa mesa co­le­tiva do es­ta­be­le­ci­mento e disse que era um ri­val an­tigo do seu chefe. En­tre­guei um en­ve­lope com fo­tos com­pro­me­te­do­ras de seu chefe, que es­tava de­ter­mi­nado a afas­tar E de suas fun­ções se­den­tá­rias. O di­re­tor da sua re­par­ti­ção pú­blica era um pe­dó­filo. Com tudo o que aprendi nas mi­nhas pes­qui­sas era muito fá­cil vas­cu­lhar com­pu­ta­do­res alheios. 

Quanto a M só pude fa­lar com ela de­pois de su­bor­nar os di­re­to­res de uma clí­nica para de­pen­den­tes quí­mi­cos em que ela foi tran­cada. Disse a ela que era um pa­dre que fora en­vi­ado para con­ver­sar com os pa­ci­en­tes. M es­tava fe­liz, de apa­rên­cia jo­vem e com os ca­be­los bri­lhan­tes e la­va­dos como nunca ti­nha visto. Con­tudo, pa­re­cia um robô, só fez re­pe­tir as ati­vi­da­des de sua te­ra­pia. Dei­xei uma se­ringa com ela, fa­lei que era parte de seu tra­ta­mento.

Quem sou eu para jul­gar meus ami­gos que­ri­dos. Hoje eu só vou atra­pa­lhar meu ri­tual.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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