Crônicas

Conselho de Nelson Rodrigues

sexta-feira, 15 de julho de 2005 Texto de

Nel­son Ro­dri­gues di­zia – não sei se tan­tas ou pou­cas ve­zes – que, em vez de ler mui­tos li­vros, as pes­soas de­ve­riam dedicar-se a re­ler al­guns, e re­ler sem­pre. Quem sou eu para con­tra­di­zer Nel­son Ro­dri­gues? No en­tanto, como qual­quer ou­tro re­les mor­tal, te­nho todo o di­reito de dis­cor­dar dele ou de quem quer que seja.

Não acho que de­va­mos co­nhe­cer pou­cas obras li­te­rá­rias, mesmo que mui­tas de­las não nos agra­dem ou se­jam de­san­ca­das pe­los crí­ti­cos. Mas faço essa ob­ser­va­ção com uma im­por­tante, e tal­vez de­ci­siva, res­salva: eu não me de­dico a ana­li­sar as­pec­tos como in­ten­ções do au­tor, que tipo de men­sa­gem está im­plí­cita no li­vro etc e tal. 

Acho que toda essa carga, di­ga­mos, fi­lo­só­fica não deixa de ser im­por­tante, mesmo para o grosso dos lei­to­res, pois, afi­nal de con­tas, a cada li­vro que se lê ou a cada nova des­co­berta, ve­nha de onde vier, o in­di­ví­duo forma-se em ter­mos cul­tu­rais. Mas, de ou­tro modo, é o tipo de coisa que, afora quando se trata dos es­tu­di­o­sos, fica me­lhor im­pli­ci­ta­mente.

Ou­tro dia mesmo, quando o filme “Guerra dos Mun­dos” foi lan­çado no Bra­sil, al­guém es­cre­veu que Ste­ven Spi­el­berg dava sus­ten­ta­ção, com a obra, à po­lí­tica de Bush em re­la­ção ao ter­ro­rismo. Acho esse tipo de aná­lise de uma sub­je­ti­vi­dade in­su­por­tá­vel. Para mim, é o mesmo que al­guém tomá-lo por ma­luco se você chupa li­mão.

O caso é que eu não con­cordo com Nel­son Ro­dri­gues por­que eu gosto de his­tó­rias. Sinto-me se­du­zido pe­las nar­ra­ti­vas e, con­fesso, pouco me im­porta o que o au­tor quis di­zer. O im­por­tante é o que eu quis com­pre­en­der. Perdoe-me por esse rom­pante de ar­ro­gân­cia e, por fa­vor, que não apa­reça al­guém di­zendo que te­nho ten­dên­cias di­ta­to­ri­ais. Não as te­nho, mesmo. Isto é, nada além do que a dose nor­mal do ser hu­mano.

Se eu se­guir o con­se­lho de Nel­son Ro­dri­gues, irei aprofundar-me em al­guns li­vros que con­si­dero como es­sen­ci­ais, es­miu­çar cada pa­rá­grafo, cada li­nha, ana­li­sar cada hi­pó­tese que sur­gir a res­peito da obra, de­co­rar tre­chos fun­da­men­tais, pas­sar a fa­zer parte da pró­pria obra. Não, obri­gado. Pre­firo pas­sar pe­los li­vros como passo pela vida, re­tor­nando a eles quando en­con­tro jus­ti­fi­ca­tiva para isso, que pode ser um sim­ples de­sejo.

Fico ima­gi­nando: se eu me de­ti­ver a uns pou­cos li­vros, relendo-os sem­pre, tal­vez che­ga­rei ao ponto de co­nhe­cer tão bem a obra que não me res­tará quase nada a in­ter­pre­tar. Es­ta­rei muito pró­ximo da­quilo que o au­tor quis trans­mi­tir e, dessa ma­neira, abri­rei mão das mi­nhas in­ten­ções para cada per­so­na­gem e si­tu­a­ção, irei aos pou­cos aban­do­nando meus so­nhos, des­truindo o que de me­lhor há nos li­vros – a pos­si­bi­li­dade de vi­a­jar­mos pela nossa pró­pria ima­gi­na­ção – e aden­trando o ter­reno árido da falta de op­ções, pois cai­rei na im­po­si­ção de uma idéia que me foi pas­sada pelo au­tor.

Por es­ses dias, aliás, vi de novo o ótimo filme “En­con­tros e De­sen­con­tros”. O fi­nal é ex­ce­lente. Na­quela cena em que os pro­ta­go­nis­tas tro­cam pa­la­vras que não che­gam ao co­nhe­ci­mento do te­les­pec­ta­dor, este é le­vado a ima­gi­nar o que po­de­ria acon­te­cer. O te­les­pec­ta­dor in­te­rage com a obra, passa a ser o au­tor. Ele de­fine o des­tino dos per­so­na­gens. Não é ex­tra­or­di­ná­rio que pos­sa­mos ter essa pos­si­bi­li­dade?

Nes­tes tem­pos de va­cas ma­gras glo­ba­li­za­das, faltam-nos exa­ta­mente es­sas op­ções às quais me re­firo. As chan­ces que nos ofe­re­cem são tão ra­ras que es­ta­mos de­sa­pren­dendo a so­nhar, a ver as coi­sas do nosso modo. Es­ta­mos nos ha­bi­tu­ando a con­su­mir tudo pronto. Dos san­duí­ches aos pro­gra­mas de te­le­vi­são, re­ce­be­mos tudo em­pa­co­tado. Nos­sas es­co­lhas restringem-se a cada dia que passa sem que ou­se­mos um con­tra­golpe. Essa pos­tura nos di­mi­nui. Pre­ci­sa­mos que­brar esse pa­ra­digma cruel que nos con­some como se fôs­se­mos uma obra única, boa ou ruim, mas uma só. Essa ini­ci­a­tiva am­pli­a­ria nos­sos ho­ri­zon­tes.

Quanto ao con­se­lho de Nel­son Ro­dri­gues, se eu o se­guisse (ler pou­cos li­vros), tal­vez eu nem pu­desse co­nhe­cer seu pró­prio le­gado, pois um dos mais ge­ni­ais es­cri­to­res bra­si­lei­ros cer­ta­mente não pos­sui pou­cas obras gran­di­o­sas.

En­fim, não vou fi­car re­lendo três ou qua­tro li­vros. Não vou vo­tar sem­pre no mesmo can­di­dato. Não vou ou­vir pou­cas mú­si­cas. Não vou me con­ten­tar com uma só ver­são de cada fato. Não vou me de­ter a meia dú­zia de so­nhos.

Mas, da mesma ma­neira, não quero que uma só idéia me es­cra­vize. Nem mesmo esta. 

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