Contos

Bicho ensinado

quinta-feira, 23 de junho de 2005 Texto de

O ca­va­li­nho aver­me­lha­do de cri­na lon­ga não pas­sou um dia se­quer de sua vi­da mi­se­rá­vel sem que dei­xas­sem de ar­ran­car-lhe o cou­ro - aque­les da bei­ra es­tra­da, no meio do Mor­ro Al­to. Pu­se­ram-lhe so­bre o lom­bo to­da a sor­te de tra­lhas, de gen­tes e de mer­ca­do­ri­as.

Des­de mui­to ce­do, fos­se pe­la von­ta­de do ve­lho ou dos fi­lhos, so­fria as agru­ras de ter nas­ci­do bi­cho, e en­tão ter caí­do nu­mas mãos co­mo aque­las.

An­tes mes­mo que o sol rai­as­se, pas­sa­va à nos­sa por­ta, quei­xan­do-se de pas­so a pas­so dos maus bo­ca­dos a que lhe im­pu­nham.

- Eia, ani­mal va­ga­bun­do. An­da, di­a­bo!

A voz es­tri­den­te do ve­lho emen­da­va-se ao re­lin­cho en­tris­te­ci­do do ca­va­li­nho. A ca­da pou­co, as es­po­ras afi­a­das do do­no ati­ça­vam-lhe as fe­ri­das que se abri­am em fi­os de san­gue lo­go abai­xo das cos­te­las.

- Bom dia, se­nho­ra...

Em fren­te ao nos­so quin­tal, o ve­lho des­gra­ça­do in­ter­rom­pia a ju­di­a­ção pa­ra se fin­gir de san­to. Di­zia o cum­pri­men­to à mi­nha mãe e se­guia es­tra­da afo­ra, cu­tu­can­do o ani­mal. As ces­tas de ver­du­ras e fru­tas pen­di­am de ca­da la­do co­mo se fos­sem ex­ten­são de gor­das an­cas que no po­bre ca­va­lo já não mais exis­ti­am.

Pe­lo meio da ma­nhã, o tro­te na ter­ra ba­ti­da anun­ci­a­va o re­tor­no. Uma sa­cu­di­de­la em meu es­pí­ri­to fa­zia-me sus­pen­der qual­quer que fos­se a ta­re­fa. Co­mo uma obri­ga­ção de mi­nha par­te, eu cor­ria pa­ra a cer­ca e o via em seu tras­la­do. Em­bo­ra vi­ves­se pe­na­li­za­do, aque­la ho­ra em que vol­ta­va com os ces­tos va­zi­os e com o ve­lho sem mui­ta pres­sa pa­re­cia ser um ins­tan­te de alí­vio em seu lon­go dia. Até che­gar ao meio do Mor­ro Al­to, não lhe me­ti­am as es­po­ras, tam­pou­co sa­pe­ca­vam-lhe o re­lho.

O sos­se­go do ca­va­li­nho aver­me­lha­do de cri­na lon­ga, con­tu­do, nun­ca se fa­zia du­ra­dou­ro. Pe­la ho­ra do al­mo­ço, os dois demô­ni­os que iam pe­la ida­de es­co­lar pre­pa­ra­vam-no pa­ra no­va vi­a­gem, e lá que tro­ta­va o ani­mal, pu­xan­do a char­re­te ru­mo ao co­lé­gio.

Os es­tu­dan­tes não eram mui­to di­fe­ren­tes do ve­lho. À dis­tân­cia, po­dia-se ou­vir eco­a­rem as re­pri­men­das se­gui­das de pau­la­das no lom­bo do so­fre­dor.

Ain­da à tar­de­zi­nha, mui­tas ve­zes pu­nha-se o ve­lho à es­tra­da, num ou ou­tro ser­vi­ço a mais, ou quem sa­be a um pas­seio ao bo­te­co. Sem­pre por per­to da nos­sa ca­sa, as es­po­ras fun­ci­o­na­vam e o ju­di­a­do ani­mal ver­tia san­gue por aque­las cha­gas que cres­ci­am.

Quan­do meu pai avi­sou-me que em bre­ve eu me mu­da­ria pa­ra a ci­da­de por con­ta dos es­tu­dos, uma es­tra­nha sen­sa­ção de con­for­to tres­pas­sou-me a al­ma. En­fim, eu não mais se­ria tes­te­mu­nha da­que­le so­fri­men­to. Mas, por ou­tra, pa­re­cia-me ha­ver nes­se sen­ti­men­to uma trai­ção de mi­nha par­te, per­mi­tin­do que a ju­di­a­ção per­sis­tis­se.

Nos di­as que se se­gui­ram, o olhar tris­to­nho do ca­va­li­nho atin­gia-me em cheio, co­mo um ami­go que co­bra de um ou­tro a jus­ti­fi­ca­ti­va da omis­são. Mes­mo as­sim, na­da pu­de fa­zer na­que­la oca­sião.

Um ano mais tar­de, en­tre­tan­to, al­go mu­dou. Eu ha­via con­se­gui­do, nas ho­ras va­gas da es­co­la, uma ocu­pa­ção no co­mér­cio e, em­bo­ra fos­se pou­co, re­ce­bia um sa­lá­rio ao fim de ca­da mês. As­sim, tra­tei com meu pai e de­ci­di com­prar o ca­va­li­nho ao ve­lho ver­du­rei­ro.

Fo­mos até lá nu­ma ma­nhã em que o sol pa­re­cia re­com­pen­sar-me pe­la boa ação. Quan­do fi­ze­mos a pro­pos­ta, o ve­lho pren­deu-se a um mu­xo­xo an­tes de as­sen­tir. Mas, atrás de­le, a ve­lha, de­bru­ça­da na ja­ne­la, mos­trou as gen­gi­vas des­den­ta­das:

- Es­te aí não vai, não se­nhor. Nem quan­do os me­ni­nos se fo­ram ele quis ir...

O ve­lho ex­pli­cou:

- En­si­nei mui­to bem o lu­gar de­le, o se­nhor de­ve de en­ten­der...

O cer­to era que por mais que se ten­tas­se le­var o ca­va­li­nho pa­ra ou­tros ares, o bi­cho em­pa­ca­va an­tes mes­mo de dei­xar o meio do Mor­ro Al­to. Acho que o me­do das tor­tu­ras ti­nha-o en­fei­ti­ça­do.

Nas mi­nhas fé­ri­as, eu re­tor­na­va à nos­sa ca­sa e, dia após dia, as­sis­tia à ago­nia do ani­mal. A ca­da tem­po­ra­da, ele se mos­tra­va mais es­que­lé­ti­co. Em fren­te ao nos­so quin­tal, mes­mo que não lhe afer­ro­as­sem mais as es­po­ras, cos­tu­ma­va aper­tar o pas­so, co­mo se as ve­lhas fe­ri­das o lem­bras­sem de quem era ou, do jei­to que nos dis­se o ve­lho, qual era o seu lu­gar.

O ca­so é que, por fim, aqui fi­co, nes­ta lu­ta con­tra mi­nhas von­ta­des, tre­pa­do em ci­ma de tu­do que me en­si­na­ram, pa­ra, dum ga­lo­pe só, evi­tar dar lá no ran­cho da bei­ra es­tra­da e ta­car um bru­to coi­ce nas ven­tas do ve­lho dos di­a­bos.

E, no en­tan­to, de ou­tro mo­do, di­zem-me uns co­nhe­ci­dos que lá já não exis­te mais o ve­lho e tam­pou­co o ca­va­li­nho, que se fo­ram des­ta pa­ra ou­tra faz é tem­po, os dois num mes­mo dia. Por mim, me­lhor as­sim, mas sei que não me li­vro de­les tão ce­do, do ve­lho e do bi­cho, da ava­re­za e da sub­mis­são, des­ses ma­les des­ta vi­da, que vão e vol­tam, vão e vol­tam, as­sim co­mo eu ho­je, as­sim co­mo on­tem o ca­va­li­nho aver­me­lha­do de cri­na lon­ga.

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