Urnas mostram inquietação do eleitorado | Márcio ABC

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Urnas mostram inquietação do eleitorado

terça-feira, 16 de novembro de 2004 Texto de

O se­gun­do tur­no das elei­ções mu­ni­ci­pais bra­si­lei­ras tra­du­ziu-se nu­ma ver­da­dei­ra ba­ta­lha tra­va­da en­tre PT e PSDB. E o re­sul­ta­do, in­dis­cu­tí­vel, deu aos tu­ca­nos a vi­tó­ria nu­mé­ri­ca e tam­bém, di­ga­mos, no cam­po do sta­tus. Con­quis­tar ca­pi­tais co­mo Por­to Ale­gre, Cu­ri­ti­ba e, es­pe­ci­al­men­te, São Pau­lo foi de­ci­si­vo pa­ra as am­bi­ções da no­va opo­si­ção na­ci­o­nal. Cla­ro que os pe­tis­tas tam­bém ti­ve­ram su­as gló­ri­as. Já no pri­mei­ro tur­no, por exem­plo, ti­nham fi­ca­do com Be­lo Ho­ri­zon­te e Re­ci­fe, por exem­plo, cen­tros de gran­de im­por­tân­cia po­lí­ti­ca e elei­to­ral. Bem, is­so tu­do, en­tre­tan­to, já foi des­trin­cha­do pe­los veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção e por seus ana­lis­tas po­lí­ti­cos nos úl­ti­mos di­as. Na ver­da­de, que­ro ser­vir-me des­ses nú­me­ros ape­nas pa­ra fun­da­men­tar uma bre­ve te­o­ria a res­pei­to do elei­tor bra­si­lei­ro.

Se re­lem­brar­mos as elei­ções pa­ra pre­si­den­te e go­ver­na­do­res, há dois anos, quan­do o PT saiu co­mo gran­de ven­ce­dor, po­de­mos con­cluir que hou­ve, nes­se cur­to pe­río­do his­tó­ri­co, uma rá­pi­da trans­for­ma­ção, ao me­nos de boa par­te do elei­to­ra­do. On­de es­tá a sus­ten­ta­ção elei­to­ral ob­ti­da pe­lo PT em 2002? As der­ro­tas em ci­da­des es­tra­té­gi­cas do sul-su­des­te dei­xam os pe­tis­tas em es­ta­do de aler­ta pa­ra 2006, mas mos­tram tam­bém co­mo é in­qui­e­to e frá­gil em su­as con­vic­ções o elei­to­ra­do bra­si­lei­ro. De­cer­to é pre­ci­so ad­mi­tir que o elei­tor com­por­ta-se de ma­nei­ra dis­tin­ta quan­do a elei­ção é na­ci­o­nal e quan­do é mu­ni­ci­pal. Na dis­pu­ta lo­cal, co­mo foi ago­ra, pe­sam mui­to os no­mes, tal­vez até mais do que os pró­pri­os par­ti­dos. Co­nhe­ço ci­da­des pe­que­nas on­de fa­zen­dei­ros fo­ram elei­tos pe­lo PT. Em ou­tras, par­ti­dos des­co­nhe­ci­dos en­ca­be­ça­dos por gen­te co­nhe­ci­da che­ga­ram à Pre­fei­tu­ra com um pé nas cos­tas. Con­tu­do, é pre­ci­so le­var em con­ta tam­bém que nos gran­des cen­tros ur­ba­nos a mi­li­tân­cia po­lí­ti­ca com ba­se em agre­mi­a­ções é mais só­li­da. E foi exa­ta­men­te aí on­de os tu­ca­nos fi­ze­ram a fes­ta.

A in­qui­e­ta­ção do elei­tor pa­re­ce ter uma ex­pli­ca­ção ló­gi­ca: a de que su­as es­pe­ran­ças são sem­pre frus­tra­das por seus lí­de­res po­lí­ti­cos. To­do mun­do já sa­be que os pro­ble­mas de um país, prin­ci­pal­men­te quan­do es­te país tem tan­tos pro­ble­mas, não po­dem ser re­sol­vi­dos de uma ho­ra pa­ra ou­tra. O go­ver­no Lu­la, por exem­plo, não com­ple­tou ain­da dois anos. Há, po­rém, um sen­ti­men­to ge­ral a res­pei­to da ne­ces­si­da­de de pro­vi­dên­ci­as ime­di­a­tas e enér­gi­cas em di­ver­sos se­to­res, o que po­de­ria re­pre­sen­tar um alen­to à so­ci­e­da­de. A fal­ta des­se alen­to tra­duz-se em in­qui­e­ta­ção, com­pro­me­te con­vic­ções cons­truí­das so­bre as es­tru­tu­ras do en­tu­si­as­mo, pro­duz no elei­tor a sen­sa­ção de que é pre­ci­so ten­tar de ou­tra ma­nei­ra. Não são os pe­tis­tas os res­pon­sá­veis por es­se sen­ti­men­to, as­sim co­mo não fo­ram os tu­ca­nos num pas­sa­do re­cen­te, nem Col­lor no iní­cio da dé­ca­da de no­ven­ta, e as­sim por di­an­te. Na ver­da­de, são to­dos eles jun­tos: o his­tó­ri­co do po­der pú­bli­co bra­si­lei­ro, em que os an­sei­os po­pu­la­res são sa­cri­fi­ca­dos em no­me do in­te­res­se po­lí­ti­co-elei­to­ral. Quer um exem­plo cla­ro? As elei­ções mu­ni­ci­pais mal aca­ba­ram e as dis­cus­sões já se vol­tam pa­ra 2006, quan­do ha­ve­rá no­va ba­ta­lha nas ur­nas. Des­de já, as ca­be­ças do po­der e das opo­si­ções vis­lum­bram as tei­as que irão cons­truir pa­ra ven­cer as pró­xi­mas elei­ções. Não há elei­tor que agüen­te tan­to cir­co e tão pou­co pão.

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