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Leia entrevista com o fotojornalista João Correia Filho

segunda-feira, 16 de junho de 2003 Texto de

O jor­na­lista e fo­tó­grafo ou o fo­to­jor­na­lista (como quei­ram) João Cor­reia Fi­lho, tra­tado por Gandhi en­tre os ami­gos, fa­lou co­migo por e-mail. Em pauta, fo­to­gra­fia, guerra, Gui­ma­rães Rosa e a busca pelo novo. Se­gue a e-mailvista (en­tre­vista por e-mail) na ín­te­gra.

Márcio ABC – Você me per­mite chamá-lo de ci­gano da fo­to­gra­fia? Como você ex­plica sua in­qui­e­tude quanto ao tra­ba­lho? Você não pára: ora aqui, ora acolá. Um fo­tó­grafo deve ser in­qui­eto?

João Cor­reia Fi­lho – Não sei se in­qui­eto é a pa­la­vra cor­reta, mas acho que os fo­tó­gra­fos es­tão sem­pre em busca de uma nova his­tó­ria, um novo ân­gulo. Faz parte da pro­fis­são. E isso se aplica tanto ao fo­to­jor­na­lismo como à fo­to­gra­fia de forma ge­ral. Mesmo em um es­tú­dio, o fo­tó­grafo tem que es­tar sem­pre bus­cando um novo ele­mento, seja um novo ce­ná­rio, uma nova luz. No que diz res­peito ao fato de es­tar sem­pre em lu­ga­res di­fe­ren­tes, isso é só a forma como meu tra­ba­lho é feito: ora me cha­mam para fa­zer uma ma­té­ria aqui, ora acolá. Às ve­zes, me ocorre uma idéia de ma­té­ria ou de en­saio fo­to­grá­fico que se passa em São Paulo, ou­tras no ser­tão mi­neiro. Gosto muito de vi­a­jar, de co­nhe­cer ou­tros lu­ga­res, ou­tras cul­tu­ras, e te­nho o pri­vi­lé­gio de unir as duas coi­sas que mais amo: vi­a­jar e fo­to­gra­far.

Márcio ABC – Você per­cor­reu o ser­tão de Mi­nas para re­com­por o uni­verso cri­ado por João Gui­ma­rães Rosa em Grande Ser­tão: Ve­re­das. Acho que posso ima­gi­nar o quanto algo as­sim é emo­ci­o­nante, mas me diga você. 

João Cor­reia Fi­lho – Tive um en­vol­vi­mento muito forte com o li­vro Grande Ser­tão: Ve­re­das. Aliás, com grande parte da obra de João Gui­ma­rães Rosa. Mas, a emo­ção e o pra­zer que esse li­vro, es­pe­ci­fi­ca­mente, me cau­sou fo­ram re­al­mente muito for­tes. Aprendi muito so­bre o ser hu­mano lendo esse li­vro, muito so­bre a na­tu­reza, so­bre Deus, so­bre o di­abo, so­bre fim e co­meço. Esse apren­di­zado está em fra­ses como: “O real não está na saída nem na che­gada: ele se dis­põe para a gente é no meio da tra­ves­sia”. Esse pen­sa­mento, por exem­plo, sem­pre me nor­teou.
En­tão co­me­cei a me per­gun­tar se ainda ha­ve­ria algo desse uni­verso ro­se­ano vivo no ser­tão mi­neiro. Fiz vá­rias vi­a­gens e me de­pa­rei com um mundo que fa­cil­mente fi­gu­ra­ria nas his­tó­rias de Rosa. Per­so­na­gens, pai­sa­gens, tudo se ma­te­ri­a­li­zava. Ten­tei cap­tar em mi­nhas fo­tos, do­cu­men­tar o que ainda ha­via de Grande Ser­tão: Ve­re­das no in­te­rior da Bra­sil. A maior emo­ção foi che­gar lá e vi­ven­ciar a es­sên­cia que o li­vro me tra­zia. As pes­soas fan­tás­ti­cas que co­nheci, al­gu­mas com 96, 98 anos, tra­zendo tanta ex­pe­ri­ên­cia, tan­tas his­tó­rias e es­tó­rias. Os lu­ga­res que vi­si­tei, o sol forte, as ve­re­das, o cheiro da­quele mato. En­con­trar tudo isso foi re­al­mente emo­ci­o­nante. O re­sul­tado é um do­cu­men­tá­rio fo­to­grá­fico que mos­tra como eu en­xergo esse ser­tão, uma das in­fi­ni­tas for­mas de tra­du­zir esse li­vro. Con­ta­do­res de his­tó­ria, bar­quei­ros, ben­ze­do­res, ho­mens maus, os ani­mais, a pai­sa­gem des­crita no livro…Seria ca­paz de ci­tar in­fi­ni­tas re­la­ções en­tre o que fo­to­gra­fei e o texto de João Gui­ma­rães Rosa. O rio São Fran­cisco, por exem­plo, tem uma im­por­tân­cia in­crí­vel na di­nâ­mica de Grande Ser­tão: Ve­re­das. Na vida do ser­ta­nejo essa im­por­tân­cia tam­bém existe. As ve­re­das, ver­da­dei­ros oá­sis do ser­tão, onde nasce a água do ser­tão, tam­bém são tra­ta­das com ex­trema im­por­tân­cia no li­vro. O pró­prio nome do li­vro já con­firma isso. Isso tudo está re­gis­trado.

Márcio ABC – Sua mais re­cente ex­po­si­ção re­ve­lou de­ta­lhes de vias pau­lis­ta­nas que le­vam o nome de gran­des es­cri­to­res. Como foi essa pes­quisa e qual a re­per­cus­são desse tra­ba­lho?

João Cor­reia Fi­lho – Essa idéia es­tava em mi­nha ca­beça há bas­tante tempo. Logo quando che­guei em São Paulo, pois moro aqui há três anos, co­nheci quase que por acaso a rua João Gui­ma­rães Rosa. É uma rua curta, com ape­nas duas qua­dras, que passa des­per­ce­bida, ape­sar de es­tar li­gando a Con­so­la­ção e a Au­gusta, duas im­por­tan­tes ruas da ca­pi­tal. Co­me­cei a pen­sar nas re­la­ções que po­de­ria ha­ver en­tre as ruas e a obra de seus res­pec­ti­vos ho­me­na­ge­a­dos. Foi as­sim que sur­giu a idéia do Ruas Li­te­rá­rias. O que era uma sim­ples idéia tornou-se uma ex­po­si­ção. Foi ma­té­ria na re­vista CULT, em si­tes de fo­to­gra­fia, en­fim, acho que a idéia foi bem re­ce­bida. Tal­vez essa te­nha sido a re­per­cus­são.

Márcio ABC – Qual sua im­pres­são so­bre o fo­to­jor­na­lismo na­ci­o­nal de hoje? 

João Cor­reia Fi­lho – Acho que está sur­gindo uma nova ge­ra­ção de fo­tó­gra­fos bem in­te­res­sa­dos nessa ques­tão do do­cu­men­tá­rio. Mui­tos já fi­ze­ram e con­ti­nuam fa­zendo esse tipo de tra­ba­lho. Aliás, me ins­pi­rei em ca­ras como Cris­ti­ano Mas­caro, Pe­dro Mar­ti­neli, que são de uma ge­ra­ção an­te­rior à mi­nha. Mas agora, com Thi­ago San­tana, An­dré Pes­soa, en­tre ou­tros, sinto que vem sur­gindo um novo le­vante em prol da fo­to­gra­fia do­cu­men­tal, por con­seqüên­cia, do fo­to­jor­na­lismo. Esta lin­gua­gem está sendo re­des­co­berta. Claro que o fo­to­jor­na­lismo ainda es­barra na falta de es­tru­tura que se tem para tra­ba­lhar no Bra­sil. Aqui, ainda há pou­cas opor­tu­ni­da­des para o fo­to­jor­na­lista ou para quem tra­ba­lha a fo­to­gra­fia de forma do­cu­men­tal. Por exem­plo: são ra­ras as boas re­vis­tas so­bre fo­to­gra­fia. E a mai­o­ria não é co­nhe­cida do grande pú­blico. Isso di­fi­culta. Só quem está na área sabe como, a du­ras pe­nas, se luta para so­bre­vi­ver só de fo­to­jor­na­lismo, to­cando seus pro­je­tos pes­so­ais, etc. Mas, tal­vez, o fo­to­jor­na­lismo in­ter­na­ci­o­nal só te­nha van­ta­gem es­tru­tu­rais. Ou­tro dia um amigo, Nil­ton Pa­vin, edi­tor da Re­vista do Ex­plo­ra­dor, me disse que foi a uma pa­les­tra da fo­tó­grafa Jod Cobb, da Na­ti­o­nal Ge­o­graphic, e a de­sa­fiou a um en­saio fo­to­grá­fico nas con­di­ções que nós fa­ze­mos por aqui, com pou­cos fil­mes, sem di­nheiro, sem es­tru­tura. Um fo­tó­grafo da Na­ti­o­nal sai com 800 fil­mes para uma ma­té­ria, fica me­ses vi­a­jando. E claro, volta com um grande ma­te­rial. No Bra­sil, can­sei de fa­zer ma­té­rias gi­gan­tes, com capa e tudo, com ape­nas 8, 10 fil­mes. Eu mesmo tento vi­a­jar com muito filme, mas não sei o que é fa­zer uma ma­té­ria com 100 fil­mes, por exem­plo. Tem gente no Bra­sil que faz, mas é uma mi­no­ria.

Márcio ABC – E quanto à guerra do Ira­que? A co­ber­tura fo­to­grá­fica foi boa? 

João Cor­reia Fi­lho – Humm…difícil res­pon­der. Se dis­ser que co­ber­tura fo­to­grá­fica boa é me­dida pelo fato de eu ter visto óti­mas ima­gens na im­prensa, acho que foi boa. Mas acho que há ou­tros pa­râ­me­tros para se di­zer se a co­ber­tura foi boa. Uma guerra em que os fo­to­jor­na­lis­tas fi­cam à mercê dos exér­ci­tos já não pode re­pre­sen­tar uma co­ber­tura ideal. Uma co­ber­tura é boa quando a guerra nem aca­bou e já se es­que­ceu de tudo? Onde es­tão os mor­tos? Não vi uma foto do pós-guerra que re­al­mente mos­trasse as con­seqüên­cias disso tudo. Mas den­tro do que é per­mito, se ob­teve um bom re­sul­tado. O mundo tá cheio de ex­ce­len­tes fo­to­jor­na­lis­tas, com grande ca­pa­ci­dade de tra­ba­lho.

Márcio ABC – Bem, de mi­nha parte, abo­mino qual­quer guerra. Mas, não se­ja­mos hi­pó­cri­tas: a guerra per­mite a com­po­si­ção de um rico ce­ná­rio dra­má­tico, es­pe­ci­al­mente quanto à ima­gem. Você gos­ta­ria de par­ti­ci­par da co­ber­tura de um con­flito ar­mado? Ou sua guerra é fa­zer ex­plo­dir a sen­si­bi­li­dade pela ima­gem?

João Cor­reia Fi­lho – Como fo­to­jor­na­lista, é claro que gos­ta­ria de par­ti­ci­par da co­ber­tura de um con­flito como a Guerra do Ira­que. Deve ser uma ex­pe­ri­ên­cia fo­to­grá­fica e hu­mana única. Es­ta­ria mesmo sendo hi­pó­crita se dis­sesse que não fa­ria ou que não gos­ta­ria de fa­zer. No en­tanto, isso não está, no mo­mento, co­lo­cado no ca­mi­nho que tra­cei para mi­nha fo­to­gra­fia. E para se co­brir uma guerra é pre­ciso es­tar en­vol­vido nesse tipo de fo­to­jor­na­lismo. Hoje es­tou vol­tado muito mais para a cul­tura po­pu­lar, para li­te­ra­tura do que para pro­ble­mas ur­ba­nos. Por isso, faço pou­cas ma­té­rias que tra­zem esse uni­verso. É uma op­ção. Claro que, se hou­vesse ne­ces­si­dade, ou um con­vite, fa­ria, afi­nal sou jor­na­lista. Mas acho que as coi­sas apa­re­cem na me­dida em que você pro­cura. Mi­nha sen­si­bi­li­dade está fo­cada em ou­tras coi­sas. Por en­quanto tento in­for­mar e en­can­tar com o uni­verso que mais me ape­tece.

Márcio ABC – Existe re­ceita para a for­ma­ção de um bom fo­tó­grafo? Ou o bom fo­tó­grafo já nasce fa­zendo a co­ber­tura do pró­prio parto (rs)?

João Cor­reia Fi­lho – Existe a re­ceita para a for­ma­ção de um bom pro­fis­si­o­nal. Pri­meiro: gos­tar muito do que faz, e em se­gundo lu­gar se de­di­car bas­tante. João Gui­ma­rães Ro­sas, se me per­mite citá-lo no­va­mente, di­zia que o se­gredo para tudo é tra­ba­lho, tra­ba­lho, tra­ba­lho. E ele tra­ba­lhava muito em cima de cada li­nha de seus li­vros. Não acre­dito que al­guém nasce fo­tó­grafo. O fo­tó­grafo se faz com muita lei­tura, de­di­ca­ção, prá­tica, pa­ci­ên­cia e ex­pe­ri­ên­cia. E claro, fo­to­gra­far muito. Só de­pois disso, ele vai co­me­çar a des­co­brir sua pró­pria luz, seu mo­mento ideal para fo­to­gra­far, sua lin­gua­gem. E essa des­co­berta está muito li­gada à his­tó­ria de cada um. Não existe fór­mula nem re­ceita para isso. 

Márcio ABC – Tem idéia de quan­tas fo­tos já ti­rou? Como você guarda seu acervo? 

João Cor­reia Fi­lho – Não te­nho idéia de quan­tas fo­tos já ti­rei. Quanto a meu acervo, que pre­firo cha­mar de ar­quivo, uti­lizo os pro­ce­di­men­tos nor­mais: um ar­má­rio de pas­tas sus­pen­sas sem umi­dade e com tem­pe­ra­tura con­tro­lada. Cos­tumo se­pa­rar mi­nhas ima­gens por re­por­ta­gem, já que é as­sim que tra­ba­lho. Pouco a pouco ve­nho or­ga­ni­zando por te­mas, mas a mai­o­ria ainda é guar­dada por as­sunto.

Márcio ABC – Já existe um novo pro­jeto em mente? 

João Cor­reia Fi­lho – Já exis­tem mui­tos pro­je­tos em mente. Penso em fo­to­gra­fia 24 ho­ras por dia, sem achar que isso seja uma ob­ses­são. Fico o tempo todo pen­sando em en­saios e idéias. Quando es­tou lendo jor­nal, um li­vro, vendo um filme, ou sim­ples­mente an­dando pe­las ruas penso em fo­to­gra­fia. Por en­quanto, es­tou am­pli­ando o Pro­jeto Ruas Li­te­rá­rias. Pre­tendo fa­zer um ma­pe­a­mento da li­te­ra­tura no in­te­rior de São Paulo, indo para di­ver­sas ci­da­des, como Bauru, Rio Preto, São Car­los, Ara­ra­quara e fo­to­gra­far as ruas com no­mes de es­cri­tor de cada uma de­las, trans­for­mando mais tarde em ex­po­si­ções fo­to­grá­fi­cas como a que fiz no Sesc Vila Ma­ri­ana. Tam­bém co­me­cei um novo en­saio so­bre a rota dos aviões que pas­sam por São Paulo, vo­ando baixo e com­pondo a pai­sa­gem ur­bana. E so­bre­tudo, es­tou dando con­ti­nui­dade ao meu tra­ba­lho com o Grande Ser­tão: Ve­re­das, que ainda há de me con­su­mir mui­tos anos. Além disso, há al­gu­mas ma­té­rias que es­tou co­me­çando a fa­zer agora. Como tra­ba­lho como free-lancer, pre­ciso es­tar sem­pre atento e ativo. 

Márcio ABC – Bom, para en­cer­rar, o pingue-pongue:
Uma grande foto: são mui­tas, mas sem­pre me lem­bro de uma do Car­tier Bres­son que tem um ca­sal de na­mo­ra­dos e um ca­chorro, for­mando um cír­culo na fo­to­gra­fia.

Sua grande foto: a da cas­sa­ção do Izzo (ex-prefeito de Bauru, An­to­nio Izzo Fi­lho), capa do Diá­rio de Bauru em 1998. 

Es­cri­tor: João Gui­ma­rães Rosa, posso? 

Li­vro: Grande Ser­tão: Ve­re­das

Co­mida: de vó 

Ci­dade: atu­al­mente, São Paulo 

So­nho: con­ti­nuar fo­to­gra­fando, sem­pre.

Filme: são mui­tos; um de­les, mais re­cente em mi­nha me­mó­ria, O Fi­lho da Noiva. 

Gosta de: vi­a­jar e fo­to­gra­far

Odeia: es­pe­rar

Márcio ABC – Meu caro Gandhi, você sabe o quanto eu o ad­miro. Obri­gado por sua aten­ção e um grande abraço. 

João Cor­reia Fi­lho – a ad­mi­ra­ção é re­cí­proca.

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