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Véspera de ano novo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 Texto de

Enzo e Nero vão à frente, sol­tos, can­sa­dos e fe­li­zes

Às duas e meia da tarde do dia 31, vés­pera de ano novo, de­ci­di­mos sair para dar uma volta com os ca­chor­ros. Eles são dois, um mes­tiço preto de la­bra­dor com vira-lata e um dál­mata. Dei­xa­mos a ci­dade para trás com nu­vens car­re­ga­das so­bre nos­sas ca­be­ças. Le­va­mos seis gar­ra­fi­nhas de água para qua­tro pes­soas e cinco li­tros para Enzo e Nero. Como be­bem. E como mi­jam!
Vão pela es­trada de­mar­cando o que acre­di­tam ser seus do­mí­nios. Um sim­ples lí­quido ama­relo fil­trado pe­los pe­que­nos rins ca­ni­nos e der­ra­mado so­bre plan­tas, mou­rões de cer­cas, ara­mes far­pa­dos. Que ideia es­tú­pida! Mas as­sim mesmo eles o fa­zem. E de­pois saem ame­a­çando ga­lo­pes, saem como se ti­ves­sem pro­ta­go­ni­zado um grande feito.

An­da­mos mais ou me­nos dez quilô­me­tros. De am­bos os la­dos da es­trada ru­ral, pas­tos, ca­na­vi­ais e uma plan­ta­ção de amen­doim. Re­sol­ve­mos desta vez des­bra­var um ca­na­vial ainda cres­cendo. Os car­re­a­do­res são pra­ti­ca­mente es­tra­das bem cui­da­das em meio a uma cul­tura ás­pera, de pou­cos atra­ti­vos vi­su­ais, quase ame­a­ça­dora com suas fo­lhas cor­tan­tes.

Aqui, no pas­sado, ha­via ex­ten­sos ca­fe­ei­ros, lin­dos, de um verde bri­lhante, chei­ro­sos, atra­en­tes. Tudo se trans­for­mou. Cana e mais cana. Si­ti­an­tes e fa­zen­dei­ros alu­gam suas ter­ras e es­pe­ram pelo di­nheiro de­po­si­tado pe­las usi­nas no fim de cada mês. Cansaram-se dos ris­cos das in­tem­pé­ries e da falta de uma po­lí­tica agrí­cola de­cente. As ve­lhas ge­ra­ções fo­ram en­go­li­das pelo tempo. As no­vas ge­ra­ções fo­ram para a ci­dade.

O campo vi­rou uma en­crenca dos di­a­bos para seus pro­pri­e­tá­rios. E os usi­nei­ros che­gam com di­nheiro certo. Não é muito, mas é ga­ran­tido.

No ho­ri­zonte pró­ximo, a ape­nas al­guns quilô­me­tros, nu­vens pe­sa­das der­ra­ma­vam água sem dó. Pe­ne­tra­mos pe­los car­re­a­do­res. Acha­mos uma man­cha de ve­ge­ta­ção. Um bam­bu­zal e uma pe­quena mina que es­pa­lha suas águas em re­dor. Apro­vei­ta­mos a som­bra fresca. Be­be­mos nos­sas águas de­baixo de uma brisa agra­dá­vel. Nero e Enzo vol­ta­ram a mi­jar. Nós tam­bém.

Ob­ser­va­mos, es­pe­ran­ço­sos, vá­rias ve­zes as nu­vens azu­la­das, tor­cendo para que elas se apro­xi­mas­sem. Que­ría­mos to­mar chuva com os ca­chor­ros. Em meio aos bam­bus, um fa­cão grande e uma ar­ma­di­lha para preás. São in­crí­veis os pra­ze­res hu­ma­nos.

Fa­zia mais de uma hora que ha­vía­mos dei­xado a ci­dade. Só para dar um pas­seio. Re­sol­ve­mos pe­gar a es­trada de volta para casa. Ainda pre­ci­sa­ría­mos des­can­sar para co­me­mo­rar a pas­sa­gem de ano à noite. As nu­vens não vi­nham. O ca­lor su­fo­cava. No­va­mente os pas­tos, a cana, a plan­ta­ção de amen­doim. E tam­bém o pon­ti­lhão da es­trada de ferro, a vaca morta da qual res­tam ape­nas al­guns os­sos, as man­guei­ras es­par­sas aqui e ali, um ga­roto chu­tando uma bola de fu­te­bol num gra­mado e, ao in­vés da chuva, o sol. Ele sur­giu quando, do alto, vi­mos a ci­dade lá em­baixo, com seus te­lha­dos e suas igre­jas.

E ao nosso lado, ca­mi­nhando como do­nos da es­trada, ino­cen­tes quanto à trans­for­ma­ção da terra, os dois ca­chor­ros.

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