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Stuttgart - Texto de Reinaldo Chaves

terça-feira, 17 de julho de 2007 Texto de

Nun­ca fiz is­so, ju­ro. Mas o que tem de­mais? Es­sa car­ta de­ve ser pa­ra al­guém que mo­rou aqui há mui­to tem­po. É uma ca­sa ve­lha e que eu sai­ba es­tá alu­ga­da há vá­ri­os anos. Tal­vez até o des­ti­na­tá­rio já es­te­ja mor­to.

E tam­bém é uma car­ta da Ale­ma­nha, achei is­so mui­to ba­ca­na. Pro­va­vel­men­te nun­ca vou ter di­nhei­ro pa­ra ir lá. O mais lon­ge que fui foi ao Pa­ra­guai, e olha que há dois anos.

Fi­quei pen­san­do nes­sas coi­sas uns dois di­as, mas não ti­ve co­ra­gem de abrir. E se o ca­ra apa­re­ces­se aqui um tem­po de­pois? “Por fa­vor, sou o an­ti­go mo­ra­dor, vim pe­gar mi­nhas cor­res­pon­dên­ci­as”. “Pois não, são es­sas aqui aber­tas, não re­pa­ra não”. No mí­ni­mo ele iria me xin­gar, no má­xi­mo me pro­ces­sar.

Pas­sa­ram três di­as. Que se da­ne. Olha só, é uma car­ta de amor. Fa­la de sau­da­de, ar­re­pen­di­men­to, pe­de pa­ra ele vol­tar a mo­rar com ela. O de sem­pre. Tem até uma fo­to da va­ga­bun­da, bo­ni­ti­nha, mas não sei se va­le a pe­na. Um pou­co ma­gri­nha de­mais pa­ra meu gos­to. Bom, tan­ta apor­ri­nha­ção por na­da. Amas­sei e jo­guei fo­ra.

Quan­do vol­tei do tra­ba­lho no dia se­guin­te, na por­ta de ca­sa uma sur­pre­sa es­ta­va me es­pe­ran­do. A ale­mã­zi­nha.

- Oi, por fa­vor, eu es­tou pro­cu­ran­do o Sér­gio.

- Aqui não mo­ra nin­guém com es­se no­me – es­se era o no­me do ca­ra da car­ta.

- Mas es­se é o en­de­re­ço de­le... eu man­dei uma car­ta pa­ra cá, da Ale­ma­nha. Vo­cê re­ce­beu?

- Não vi car­ta ne­nhu­ma, não – da­va pa­ra per­ce­ber que ela es­ta­va afli­ta.

- Por fa­vor, vo­cê tem que sa­ber on­de ele es­tá. Eu vim da Ale­ma­nha só pa­ra ver ele, avi­sei na car­ta.

- Olha, es­sa é uma ca­sa alu­ga­da. Es­se ca­ra de­ve ter mu­da­do não sei quan­do. Eu sou o atu­al mo­ra­dor faz uns 4 me­ses – mer­da, es­se avi­so de que ela vi­nha de­via es­tar no fi­nal da car­ta, mas eu nem ti­ve sa­co pa­ra ler tu­do, se­não ti­nha ido dor­mir em ou­tro lu­gar ho­je.

- Me dei­xa en­trar, eu que­ro ver.

Não ti­ve tem­po de im­pe­dir, en­quan­to fa­lá­va­mos eu abri a por­ta e ela apro­vei­tou pa­ra en­trar co­mo um fo­gue­te.

- Eu mo­rei aqui já, vou pro­cu­rar na ca­sa.

A mu­lher es­ta­va ma­lu­ca, foi fu­çan­do em ca­da cô­mo­do da ca­sa sem pe­dir li­cen­ça. Eu que­ria man­dar ela su­mir, mas fi­quei com re­mor­sos. Achei uma bo­ba­gem aque­la car­ta, mas ela es­ta­va de­ses­pe­ra­da mes­mo.

Ela saiu do ba­nhei­ro se­gu­ran­do um pa­pel amas­sa­do que a bes­ta aqui jo­gou na li­xei­ra mas es­que­ceu de co­lo­car na rua pa­ra o li­xei­ro le­var ho­je de ma­nhã.

- Por que vo­cê fez is­so? Seu fi­lho da pu­ta! On­de es­tá o Sér­gio? Me fa­la!!!

- Tá, tá cer­to. Pá­ra de gri­tar na mi­nha ca­sa. Eu abri e li sua car­ta sim, des­cul­pa, mas nun­ca pen­sei que vo­cê fos­se apa­re­cer, sei lá, uma car­ta da Ale­ma­nha?! Pa­re­ce até sa­ca­na­gem. Mas olha só, eu não fa­ço a mí­ni­ma idéia de quem é es­se Sér­gio. Por fa­vor, ago­ra vai em­bo­ra e po­de le­var sua car­ta.

O que eu mais ti­nha me­do acon­te­ceu. Ela de­sa­bou no chão e co­me­çou a cho­rar.

- Eu vim de Stutt­gart só pa­ra ver ele, por fa­vor me aju­da – dis­se ela so­lu­çan­do.

Aqui­lo me dei­xou sem ação. Já era noi­te, não sa­bia pa­ra quem pe­dir aju­da. Se eu fos­se na po­lí­cia iria le­var uma du­ra dos ca­nas por ter aber­to a car­ta. Tam­bém não adi­an­ta­va li­gar na imo­bi­liá­ria a es­sa ho­ra.

- Olha, mo­ça. se acal­ma, ama­nhã eu te aju­do, tá? Ago­ra me diz, on­de vo­cê es­tá hos­pe­da­da, eu te le­vo lá.

- Eu vim di­re­to pa­ra cá.

- Mas de­ve ter pa­ren­tes, ami­gos aqui, não é?

- Não, só mo­rei um mês aqui, de­pois me se­pa­rei do Sér­gio.

- En­tão fo­deu... vou te le­var pa­ra um ho­tel que co­nhe­ço.

- Não, eu es­tou com me­do, me dei­xa fi­car aqui – e foi agar­ran­do meu bra­ço.

- Ô que sa­co! Tá bom, dor­me lá no meu quar­to. Eu vou pa­ra o so­fá, lou­ca da Ale­ma­nha!

Fa­lei num tom de voz agres­si­vo, mas ela não res­pon­deu. Ape­nas le­van­tou, pe­diu uma to­a­lha, to­mou ba­nho. Co­meu umas bar­ras de ce­re­ais que ti­nha na bol­sa e foi dor­mir. Ofe­re­ci co­mi­da, mas dis­se que não que­ria.

Tam­bém não fi­quei ani­ma­do com aqui­lo tu­do. Ti­nha um jo­go pa­ra ver, mas nem quis li­gar a TV. Fui dor­mir ce­do no meu so­fá du­ro e pe­que­no.

Acor­dei com aque­la mu­lher que eu nem lem­bra­va o no­me na car­ta me bei­jan­do. Fi­quei as­sus­ta­do com aqui­lo, mas dei­xei ro­lar. Ela me deu uma cha­ve de per­nas mui­to gos­to­sa, fi­quei em­bai­xo de­la sem con­se­guir me me­xer. Pe­la pri­mei­ra vez tran­sei no meu so­fá. Que mer­da de vi­da, pre­ci­sou vir al­guém da Ale­ma­nha pa­ra is­so acon­te­cer!

De­pois aca­bei dor­min­do o res­to da noi­te na mi­nha ca­ma mes­mo, jun­to com ela.

Ela se le­van­tou an­tes de mim e se ves­tiu. Quan­do abri os olhos, de pé na mi­nha fren­te ela me pas­sou um pa­pel que pa­re­cia uma pas­sa­gem de avião.

- Vem em­bo­ra co­mi­go – ti­nha a voz trê­mu­la.

- O quê? Pa­ra Ale­ma­nha? Por quê?

- Eu fiz a lou­cu­ra de vir até aqui de tão lon­ge, atrás de um ca­ra es­cro­to que eu nem sei se exis­te mais. On­tem à noi­te fiz a pro­mes­sa de que da­ria pa­ra o pri­mei­ro ca­ra que vis­se só de rai­va. Vo­cê deu sor­te, eu saí do quar­to e vo­cê es­ta­va dei­ta­do, se es­ti­ves­se no ba­nhei­ro, eu te­ria saí­do na rua e da­do pa­ra ou­tro. Foi mui­to bom, mas va­zio. Por is­so que­ro ter­mi­nar da for­ma mais ma­lu­ca pos­sí­vel. Vo­cê vem co­mi­go, a pes­soa que es­tá pre­des­ti­na­da a vi­ver co­mi­go por es­tar nos lu­ga­res e ho­ras cer­tos.

- Vo­cê é lou­ca de pe­dra. Ou es­tá ti­ran­do uma com a mi­nha ca­ra?

- Não, é sé­rio. O avião sai de­pois do al­mo­ço.

En­tão eu olhei o bi­lhe­te. Li com cal­ma, o ho­rá­rio de de­co­la­gem, o nú­me­ro da pol­tro­na, o por­tão de em­bar­que, o no­me da em­pre­sa, tu­do. Eu es­ta­va co­me­çan­do a que­rer fa­zer es­sa vi­a­gem que so­nhei quan­do a car­ta che­gou, por is­so in­cons­ci­en­te­men­te pro­cu­rei al­gu­ma coi­sa fa­mi­li­ar na­que­le pa­pel. Tal­vez o ho­rá­rio de em­bar­que fos­se o mes­mo de quan­do nas­ci. Ou a pol­tro­na fos­se o dia em que o Pal­mei­ras ga­nhou a Li­ber­ta­do­res. Mas não ti­nha na­da, ne­nhum si­nal.

- Tu­do bem, eu vou. Mas só por um mo­ti­vo que lem­brei ago­ra. Ho­je ven­ce meu alu­guel e não te­nho di­nhei­ro pa­ra pa­gar.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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