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Entrevista com o jornalista Alessandro Silva

quinta-feira, 16 de janeiro de 2003 Texto de

Por e-mail, con­ver­sei com Ales­san­dro Silva (foto), re­pór­ter da Fo­lha de S.Paulo. Ales­san­dro, que co­me­çou a car­reira no in­te­rior, pro­duz prin­ci­pal­mente ma­té­rias para a edi­to­ria de Co­ti­di­ano. Se­gue a nossa pri­meira e-mailvista (en­tre­vista por e-mail), um es­paço em que o en­tre­vis­tado ja­mais po­derá re­cla­mar do en­tre­vis­ta­dor: as res­pos­tas vão ao ar na ín­te­gra.

Márcio ABC: Ales­san­dro, vc é um re­pór­ter que, na Fo­lha de S.Paulo, vive em meio aos pro­ble­mas da po­pu­la­ção. E um dos prin­ci­pais pro­ble­mas, se­não o maior, é a falta de se­gu­rança, tema so­bre o qual vc tem feito gran­des re­por­ta­gens. Vc con­se­gue vis­lum­brar so­lu­ções efi­ca­zes num curto prazo para a ques­tão da se­gu­rança?

Ales­san­dro: in­fe­liz­mente, não. Po­de­mos fa­zer um pa­ra­lelo com o DNA. Ainda não ter­mi­na­mos a de­co­di­fi­ca­ção do “ge­noma da vi­o­lên­cia” para sa­ber em qual parte pre­ci­sa­mos agir, com que força e in­ten­si­dade. Com esse “mapa ge­né­tico” se­ria pos­sí­vel agir com a pre­ci­são que ainda não dis­po­mos. Te­mos aí uma po­lí­cia que ainda age por ins­tinto em mui­tas si­tu­a­ções, um Es­tado que pla­neja sem ter to­das as in­for­ma­ções na mão e, prin­ci­pal­mente, atua mais de­pois do fato do que pre­ven­ti­va­mente. Mas creio que es­ta­mos me­lho­rando. Isso por­que a so­ci­e­dade pas­sou a co­brar muito mais as au­to­ri­da­des. O as­sunto vi­rou vi­draça.

Márcio ABC: vc teme pela sua pró­pria se­gu­rança du­rante as re­por­ta­gens? E mais: como re­per­cu­tiu o as­sas­si­nato de Tim Lo­pes en­tre os jor­na­lis­tas que co­brem as­sun­tos po­li­ci­ais? Houve al­guma mu­dança de ati­tude?

Ales­san­dro: bas­tante. Não só eu, como mi­nha fa­mí­lia. Mas eu tam­bém temo pela vida de­les, por­que nunca se sabe em que canto es­curo da rua está o la­drão ou a bala per­dida. Eu me lem­bro que pre­ci­sei fa­zer uma ma­té­ria es­pe­cial so­bre o do­mí­nio do trá­fico em fa­ve­las, com ou­tros re­pór­te­res da Fo­lha, dias de­pois da con­fir­ma­ção da morte do jor­na­lista do Rio. O efeito psi­co­ló­gico é ime­di­ato: deu medo su­bir o morro – e isso por­que eu já ti­nha, me­ses an­tes, par­ti­ci­pado de uma ocu­pa­ção da Rota em uma fa­vela da ca­pi­tal, ves­tindo, in­clu­sive, co­lete à prova de ba­las (aten­ção: cli­que aqui para ler texto feito pelo Ales­san­dro e pu­bli­cado pela Fo­lha de S.Paulo). Nin­guém pes­qui­sou ainda, mas, no dia-a-dia, os ata­ques a jor­na­lis­tas têm sido freqüen­tes. Posso in­di­car mais dois jor­na­lis­tas, além de mim mesmo, que já fo­ram rou­ba­dos fa­zendo re­por­ta­gens, du­rante o dia e em lo­cais de ele­va­dos ín­di­ces de vi­o­lên­cia. Mu­dança de ati­tude? Não sei. De qual­quer ma­neira, é pre­ciso bus­car a in­for­ma­ção… não há como mu­dar isso, por mais di­fí­cil acesso que se te­nha para che­gar a ela. Na rua, é pre­ciso apren­der as re­gras que seus mo­ra­do­res se­guem. Os mo­ra­do­res de áreas de risco fa­zem isso para so­bre­vi­ver.

Márcio ABC: vc já pas­sou por al­guma si­tu­a­ção de risco emi­nente? Houve um dia em que vc pen­sou algo do tipo “meu Deus, eu vou mor­rer!”?

Ales­san­dro: eu me lem­bro de duas si­tu­a­ções. A pri­meira, quando fui as­sal­tado du­rante uma re­por­ta­gem na zona leste de São Paulo. O ga­roto que co­lo­cou a arma na mi­nha ca­beça tre­mia muito. Eram três. Eles le­va­ram do­cu­men­tos, che­ques, a má­quina fo­to­grá­fica, ce­lu­la­res… o que deu para car­re­gar. Tudo acon­te­ceu na rua, na frente de uma es­cola mu­ni­ci­pal, três ho­ras da tarde, se me lem­bro bem. Pior, mi­nhas en­tre­vis­ta­das – mãe e três cri­an­ças pe­que­nas “em es­ca­di­nha” – vi­ram tudo, do meu lado. Me­ses de­pois, tive de pes­qui­sar so­bre trá­fico de ar­mas. En­con­trei um “sol­dado” de um grupo de as­sal­tan­tes de banco, um ‘frila” do crime, que ven­dia ar­mas. Tive de as­sis­tir pa­rado a uma dis­cus­são en­tre o cara, mi­nha fonte, que me le­vou ao lu­gar, com o as­sal­tante, des­con­fi­ado que eu era po­li­cial. Por sorte, mi­nha fonte o con­ven­ceu que eu era uma pes­soa sim­ples, in­te­res­sada em com­prar uma arma no mer­cado ne­gro para se­gu­rança pró­pria. Den­tro da casa, o dito ven­de­dor me mos­trou cinco ar­mas di­fe­ren­tes, de vá­rios va­lo­res. E não pa­rou de en­ga­ti­lhar, perto da mi­nha ca­beça – eu es­tava sen­tado e ele em pé -, a pis­tola que car­re­gava na mão. Da pri­meira vez que ele pôs a bala na agu­lha, pen­sei que ia le­var um…virei o rosto. Não pre­ciso nem di­zer que o cara deu ri­sada.

Márcio ABC: Ales­san­dro, vc já vi­veu o jor­na­lismo do in­te­rior e o da ca­pi­tal. Quais são as prin­ci­pais di­fe­ren­ças? Se vc pu­der, enu­mere al­gu­mas van­ta­gens e des­van­ta­gens de um e de ou­tro.

Ales­san­dro: no in­te­rior, mesmo em Ri­bei­rão Preto, onde o trá­fico é in­tenso, era pos­sí­vel en­trar nas zo­nas de venda droga, en­tre­vis­tar pes­soas fu­mando ma­co­nha na rua e lo­ca­li­zar o tra­fi­cante sem to­mar ge­ral (re­vista) dos guar­das do trá­fico ou ter a arma apon­tada para a ca­beça. Acho que a fun­ção do jor­na­lista ainda é mais re­co­nhe­cida, se é que essa é a pa­la­vra mais apro­pri­ada nesse sub­mundo do in­te­rior. Na ca­pi­tal, vc é visto, em mui­tos lo­cais, como ini­migo. Ge­ne­ri­ca­mente, so­bre jor­na­lismo, posso di­zer que a con­cor­rên­cia é maior na ca­pi­tal. E isso, se bem ex­plo­rado, é bas­tante im­por­tante para a evo­lu­ção do jor­na­lismo, ganha-se me­lhor, é pos­sí­vel so­nhar com car­reira, mas perde-se muito em qua­li­dade de vida. Não há hora, dia da se­mana ou pe­ríodo do ano mais apro­pri­ado para se ter uma mis­são di­fí­cil, longe de casa e bem can­sa­tiva. Mas creio que é isso que em­bala a pro­fis­são. Creio que se­ria pos­sí­vel fa­zer mais na im­prensa do in­te­rior com um pouco de ou­sa­dia, cri­a­ti­vi­dade e res­pon­sa­bi­li­dade. Algo como fez o Diá­rio de Bauru an­tes de fe­char: uma ci­dade do in­te­rior pode ter uma co­ber­tura de com­por­ta­mento, saúde, edu­ca­ção, en­tre ou­tros as­sun­tos, sem de­pen­der tanto das agên­cias de no­tí­cia. Para isso, é pre­ciso criar me­ca­nis­mos de dis­cus­sões re­gi­o­nais de po­lí­ti­cas pú­bli­cas, meios de re­fle­tir so­bre gas­tos mu­ni­ci­pais, como exem­plo. Em um jor­nal da ca­pi­tal, como a Fo­lha, para ilus­trar, você tem trei­na­mento e pa­les­tras cons­tan­te­mente, além de re­fle­xão das co­ber­tu­ras e um de­bate ro­ti­neiro de as­sun­tos que te­rão pri­o­ri­dade. Isso é jor­na­lismo.

Márcio ABC: vc foi pre­mi­ado re­cen­te­mente por uma re­por­ta­gem, não é isso? Qual foi a re­por­ta­gem e como vc en­ca­rou a pre­mi­a­ção?

Ales­san­dro: é um prê­mio in­terno, uma etapa de uma dis­puta maior que acon­tece anu­al­mente. Eu e ou­tro re­pór­ter, Gil­mar Pen­te­ado, fi­ze­mos uma sé­rie de re­por­ta­gens so­bre o grupo de in­te­li­gên­cia da Po­lí­cia Mi­li­tar, o Gradi, que in­fil­trou pre­sos ile­gal­mente em qua­dri­lhas, sus­peito hoje de ho­mi­cí­dios e tor­tura. Creio que foi pos­sí­vel mos­trar que a po­lí­cia pre­cisa, re­al­mente, de um ser­viço de in­te­li­gên­cia, mas esse se­tor não pode fun­ci­o­nar sem con­trole ex­terno. Não houve nos Es­ta­dos a mesma dis­cus­são que o país fez em 97 (se não me en­gano o ano) so­bre a cri­a­ção da Abin. Es­ses se­to­res de in­te­li­gên­cia, em todo o mundo, se não-controlados, ten­dem a se en­vol­ver em es­cân­da­los e exa­ge­ros. Uma pre­mi­a­ção é sem­pre le­gal, mas a me­lhor re­com­pensa é sem­pre a per­cep­ção de que algo mu­dou de­pois da­quilo.

Márcio ABC: nós, jor­na­lis­tas, acre­di­ta­mos de­sem­pe­nhar um pa­pel im­por­tante na cons­tante busca do aper­fei­ço­a­mento da so­ci­e­dade. Quando vc põe a ca­beça no tra­ves­seiro, vc dorme tranqüilo? Vc tem cer­teza de que está fa­zendo sua parte? Ou vc dorme muito rá­pido que nem dá tempo para pen­sar (rs)?

Ales­san­dro: de­pen­dendo do dia, não durmo. É uma res­pon­sa­bi­li­dade muito grande li­dar com no­mes de pes­soas, que, de­pois de ex­pos­tas… É pre­ciso ter res­pon­sa­bi­li­dade. Lem­bro, de­pois de es­cre­ver so­bre um de­pu­tado en­vol­vido em sor­teios de prê­mios pela TV que não eram en­tre­gues, ter ou­vido o se­guinte: “que Deus faça per­ce­ber o que está fa­zendo de er­rado co­migo”. Ele é ou era evan­gé­lico, não sei. Me­ses de­pois, essa per­so­na­li­dade co­me­çou a per­der pro­ces­sos na Jus­tiça, tendo de pa­gar pe­las ir­re­gu­la­ri­da­des que co­me­teu. Tem ainda o caso do Gradi, em que dois juí­zes per­de­ram os res­pec­ti­vos car­gos de con­fi­ança que ocu­pa­vam após o MI­nis­té­rio Pú­blico pe­dir a aber­tura de in­ves­ti­ga­ção con­tra eles. Cada de­ta­lhe da re­por­ta­gem pre­cisa ser che­cado, re­che­ado, che­cado de novo e sem­pre. Creio que es­tou fa­zendo a parte que me cabe. Em mui­tas co­ber­tu­ras, fran­ca­mente, gos­ta­ria de po­der che­gar em casa e dor­mir bem, bem rá­pido…

Márcio ABC: bom, no co­meço da nossa e-mailvista, eu es­crevi que a falta de se­gu­rança é um dos gran­des pro­ble­mas da atu­a­li­dade. Mas nin­guém me­lhor que um re­pór­ter que vive o dia-a-dia da po­pu­la­ção para enu­me­rar os de­mais. Quais são eles?

Ales­san­dro: a po­breza. Ela está au­to­ma­ti­ca­mente as­so­ci­ada ao de­sem­prego, do­en­ças, al­co­o­lismo, la­res de­ses­tru­tu­ra­dos, à vi­o­lên­cia, so­fri­mento do povo. São tan­tos os pro­ble­mas.

Márcio ABC: no seu tra­ba­lho, vc en­cara di­a­ri­a­mente dra­mas, tra­gé­dias, en­fim, a vi­o­lên­cia crua das ruas. Como vc faz para não ser afe­tado por tudo isso na sua vida pes­soal? Dá para sair do jor­nal e de­le­tar um dia in­teiro de ten­sões?

Ales­san­dro: como é que eu po­de­ria sair do jor­nal sem ser afe­tado? Sou neu­ró­tico por se­gu­rança, cos­tumo tran­car a casa toda, fico pre­o­cu­pado com ja­ne­las aber­tas. Tanto que, às ve­zes, até in­co­modo as pes­soas. Cos­tumo ser­vir de as­ses­sor para as­sun­tos de se­gu­rança dos ami­gos. Já me per­gun­ta­ram so­bre qual carro com­prar, na época em que os im­por­ta­dos ser­viam para es­co­lhas de ví­ti­mas de seqües­tros, so­bre como se por­tar em se­má­fo­ros, nas ruas…como não ter o car­tão de banco clo­nado por es­te­li­o­na­tá­rios. Já dava para es­cre­ver um li­vro com con­se­lhos. Fora do jor­nal, pro­curo não ver fil­mes po­li­ci­ais, ler li­vros de ou­tras áreas, ou­vir mú­sica e jo­gar (in­fe­liz­mente, jo­gos de es­tra­té­gia mi­li­tar e ti­ros) no com­pu­ta­dor – nin­guém é per­feito.

Márcio ABC: Ales­san­dro, nessa lou­cura em que se trans­for­mou o mundo das no­tí­cias, com os meios de co­mu­ni­ca­ção cada vez mais ve­lo­zes para atrair con­su­mi­do­res, pi­po­cam re­cla­ma­ções de ví­ti­mas de acu­sa­ções in­fun­da­das. E nós sa­be­mos que, na mai­o­ria das ve­zes, quando al­guém é acu­sado, o grande pú­blico já o toma por cul­pado. Como li­dar com essa ques­tão de­li­cada no meio da cor­re­ria bruta do jor­na­lismo?

Ales­san­dro: Tra­ba­lhar muito, o do­bro, o tri­plo, para ter a in­for­ma­ção mais pre­cisa pos­sí­vel. Se não a ti­ver, é pre­ciso ter co­ra­gem e con­fi­ança para pe­dir mais tempo. Cada caso é um caso. É di­fí­cil fa­lar de modo ge­né­rico so­bre esse as­sunto. A mis­são de um jor­na­lista, creio eu, é bus­car meios de tra­zer a no­tí­cia pre­cisa. Se isso não fosse im­por­tante, penso, não te­ría­mos uma parte da Cons­ti­tui­ção fa­lando so­bre o di­reito de in­for­ma­ção.

Márcio ABC: Bom, agora, o fa­moso pingue-pongue. 

Seu filme pre­fe­rido: Dia de Trei­na­mento (não sei se o pre­fe­rido, mas o mais mar­cante até agora)

Um li­vro: Co­mando Ver­me­lho, de Car­los Amo­rim (não se as­sus­tem, eu sou nor­mal. Mas é que, às ve­zes, é pre­ciso co­nhe­cer a his­tó­ria das coi­sas para en­ten­der o que é mos­trado na TV. O que se vê no Rio não é algo de um ano para cá, mas um pro­cesso de mais de 20 anos)

Uma ci­dade: mi­nha Rio Claro, onde nasci, de­pois Bauru, onde me en­con­trei.

Um ho­mem: meu pai.

Uma mu­lher: mi­nha mãe.

Time do co­ra­ção: sou San­tista, gra­ças a Deus. Po­dem cha­mar de “Viúva de Pelé”, mas amo esse time.

A me­lhor co­mida: pizza.

Um so­nho: ver um cor­rupto na ca­deia.

O que o Ales­san­dro acha do Ales­san­dro: uma pes­soa di­fí­cil de li­dar, que tenta apren­der uma coisa di­fe­rente todo dia e nunca está con­tente com a meta que con­se­gue atin­gir.

Márcio ABC: Ales­san­dro, é isso aí. Obri­gado pela sua dis­po­si­ção de par­ti­ci­par da e-mailvista. Su­cesso pra vc na Fo­lha e um grande abraço.

Ales­san­dro: obri­gado pela opor­tu­ni­dade de tes­tar esse novo meio de en­tre­vista. Es­pero ver, em breve, um li­vro so­bre esse ca­nal de en­tre­vista. É bem es­tra­nho po­der vol­tar e ler o que se fa­lou. Não per­mi­ti­mos isso ao en­tre­vis­tado, não é? Mas pro­cu­rei não re­fle­tir muito, até para não per­der a na­tu­ra­li­dade das res­pos­tas. Boa sorte em sua nova em­prei­tada. Aos que vão ler, va­leu pela pa­ci­ên­cia de che­gar ao fim do bate-papo (se é que não pu­la­ram tre­chos…. ri­sos). Um abraço a to­dos.

* Esta en­tre­vista foi feita an­tes de Ales­san­dro ga­nhar o Prê­mio Esso – Re­gi­o­nal Su­deste.

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