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O “tio do azar”

domingo, 27 de maio de 2007 Texto de

Por Sân­dor Vas­con­ce­los

As cren­ças e su­pers­ti­ções são um tem­pe­ro, um in­gre­di­en­te a mais no meio fu­te­bo­lís­ti­co. Tem o téc­ni­co que usa sem­pre a mes­ma ca­mi­sa em de­ci­sões, tem o que car­re­ga de­ze­nas de cor­dões pa­ra se agar­rar e bei­jar du­ran­te a par­ti­da. Há tam­bém o tor­ce­dor que só vê o jo­go usan­do a cu­e­ca da sor­te e o jo­ga­dor que só en­tra em cam­po pi­san­do com a chu­tei­ra di­rei­ta. Al­guns acre­di­tam, ou­tros acham bes­tei­ra.

Pal­mei­ren­se fa­ná­ti­co por cul­pa do meu pai, sou da­que­les que que­bram ra­di­nho e es­mur­ram a por­ta. Não car­re­go ne­nhum amu­le­to da sor­te, mas exis­te uma mal­di­ção que me acom­pa­nha: é o “tio do azar”. Pois é, te­nho um tio san­tis­ta que quan­do as­sis­te a um jo­go co­mi­go, o Ver­dão le­va a pi­or. Sem­pre!

Foi as­sim na der­ro­ta pa­ra o Gua­ra­ni em 96 pe­lo Pau­lis­ta, quan­do o Pal­mei­ras ti­nha um su­per­ti­me e per­deu de 1 a 0, na úni­ca der­ro­ta pa­les­tri­na da­que­le cam­pe­o­na­to. Foi as­sim, no mes­mo ano, na fi­nal da Co­pa do Bra­sil, quan­do o Ve­lo­so en­tre­gou a bo­la na ca­be­ça do al­goz pal­mei­ren­se Mar­ce­lo Ra­mos e os mi­nei­ros ven­ce­ram por 2 a 1. E foi as­sim em mui­tas ou­tras opor­tu­ni­da­des.

Pois bem, o que im­por­ta é que to­dos os jo­gos aos quais as­sis­ti­mos jun­tos, o Pa­les­tra sem­pre per­deu. Eu sa­bia que era lí­qui­do e cer­to que, se meu tio es­ti­ves­se jun­to, o Pal­mei­ras não ti­nha chan­ce. Fos­se con­tra o Re­al Ma­dri ou o 4 de Ju­lho de Pi­ri­ri, o re­sul­ta­do se­ria um re­vés. En­tão, de­pois de tan­tas amar­gu­ras, não con­vi­da­va mais o “tio do azar” pa­ra ver jo­go co­mi­go. Era as­sim, ele lá e eu cá. Até que um dia re­sol­vi de­sa­fi­ar a sor­te...

Era o ter­cei­ro jo­go da de­ci­são da Co­pa Mer­co­sul de 2000. O Vas­co ha­via ven­ci­do o pri­mei­ro con­fron­to por 2 a 0. O Pal­mei­ras ga­nhou o se­gun­do por 1 a 0, pro­vo­can­do a ter­cei­ra par­ti­da. Reu­ni­mos al­guns ami­gos pa­ra fa­zer um chur­ras­qui­nho. Até pen­sei em cha­mar o di­to cu­jo do meu tio san­tis­ta, mas lem­brei de to­das as “pro­e­zas” an­te­ri­o­res e de­sis­ti da idéia.

O pri­mei­ro tem­po foi um mas­sa­cre, 3 a 0 fá­cil e o Vas­co não viu a cor da bo­la. Tu­do era fes­ta, só fe­li­ci­da­de. Fa­lá­va­mos em en­fi­ar seis nos ca­ri­o­cas. Só que no in­ter­va­lo, com o ca­ne­co ga­ran­ti­do, ocor­reu-me a pi­or idéia da mi­nha vi­da. Is­so mes­mo, pe­guei o te­le­fo­ne e li­guei pa­ra o meu que­ri­do tio. Afi­nal de con­tas, azar tam­bém ti­nha li­mi­te:

- Tio, vem pra cá, es­ta­mos as­san­do uma car­ni­nha.

- Olha... Se­rá que não vai dar azar?

- Que na­da, tio. Im­pos­sí­vel. O tí­tu­lo es­tá ga­ran­ti­do! Vem to­mar uma cer­ve­ja com a gen­te. Só por um mi­la­gre per­de­mos es­se jo­go.

Ele che­ga, ain­da no in­ter­va­lo, e as­sis­te ao se­gun­do tem­po co­nos­co. O fi­nal da his­tó­ria nem pre­ci­sa­ria con­tar, mas vá lá... Com três gols do Ro­má­rio, um do Ju­ni­nho Pau­lis­ta e a aju­da im­pres­cin­dí­vel do meu tio, o Vas­co vi­rou pa­ra 4 a 3. Até ho­je, não co­nhe­ci um pal­mei­ren­se que con­si­ga ex­pli­car o que deu er­ra­do na­que­le jo­go. Acho que só eu sei...

Sân­dor Vas­con­ce­los, jor­na­lis­ta em São Pau­lo – sandordefreitas@yahoo.com.br

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